A Copa que eu lembro – 1986 – parte 3 (da superação às lágrimas, em quinhentos minutos)

Créditos da imagem: Europa Football

A Seleção Brasileira chegou ao México e não estava desacompanhada. Enquanto as emissoras de uma Argentina em crise mandaram reduzido contingente, as brasileiras (em meio à euforia enganosa do Plano Cruzado) pareciam as gigantescas comitivas do então presidente da República, José Sarney. Ao mesmo tempo em que se desacreditava, chovia otimismo – como nas vinhetas de Araken, o gol man, da Rede Globo. Excepcionalmente para o evento, o locutor principal da emissora foi o radialista Osmar Santos (normalmente apresentador na TV). Para desafiar a paciência de vez, Márcio Canutto (sim, acreditem!) fazia suas “divertidíssimas” matérias no Globo Esporte. No comando das transmissões, com corneta e sem bolacha, estava o apresentador Fernando Vanucci, “sem medo de ser feliz”.

Enquanto a bipolaridade imperava fora, no ambiente interno Telê tinha que achar um novo time-base, considerando as baixas e jogadores fora de forma. A escalação de 1982 não tinha mais como ser o Norte e as alterações foram drásticas. Na defesa, o capitão Oscar perdeu o posto para Edinho e a vaga para o jovem Júlio César, do Guarani. O também estreante Branco faria sua primeira Copa no lugar de Junior, enfim deslocado para a meia. Em vez dos volantes vistosos Cerezo e Falcão, teríamos os esforçados Elzo e Alemão. Completando o quadrado, apostou-se que o futebol de Sócrates compensaria suas más condições físicas. No ataque, uma dupla de centroavantes, esperando-se que Casagrande repetisse o futebol das eliminatórias e Careca enfim explodisse com a camisa amarela. Embora sua ausência em 1982 seja lamentada até hoje, o então camisa 9 são-paulino só tinha grandes números nos clubes.

Nos dias anteriores à estreia, o nervosismo aumentava na medida em que eram os reservas que ganhavam os coletivos (não raro com Müller complicando a vida de Branco). Com times em campo na hora do hino, ainda houve um brinde para a tensão: tocaram o hino à bandeira por engano. Com bola rolando, ficava flagrante a lentidão dos escolhidos. Numa partida tensa e de poucas chances, a Espanha não só assustou como abriu o placar. Sorte que o árbitro não viu. No batismo de fogo do Tira-teima (bem mais arcaico), ficou claro que o chute de Michel teve a bola batendo no travessão e tocando dentro. Minutos depois, o reverso da fortuna. Careca recebeu bom passe de Junior, girou e bateu também no travessão. A bola não entrou, mas Sócrates completou de cabeça alguns centímetros atrás do penúltimo homem – também segundo o Tira-teima global. Sufoco, alívio e um futebol distinto da Copa anterior.

Telê repetiu a escalação contra a Argélia, envelhecida e bem abaixo do surpreendente desempenho de 1982 (eliminada por conta de um jogo de compadres entre Alemanha Ocidental e Áustria). Os problemas foram agravados com a lesão precoce de Edson. Falcão entrou e Alemão ficou na lateral (Josimar não estava no banco). Tirando uma falta na trave de Júlio César, o Brasil era inócuo até Telê apelar para a dupla de ataque dos menudos tricolores. Mas o cruzamento de Müller precisou da distração da zaga e da velocidade de Careca para abrir o placar. As coisas melhoraram contra a Irlanda do Norte. Müller, agora titular, deu cruzamento impecável para Careca bater de primeira. Em seguida, golaço de Josimar em chute de longe. E o mais animador: Zico esteve em campo no segundo tempo, tabelando para o segundo gol de Careca – batizado de “o artista e o artilheiro” no Globo Esporte.

Com Zico em condições de jogar ao menos meia hora, Telê traçou um plano para utilizá-lo. Entraria nos segundos tempos, com o adversário cansado, no lugar de Müller. Foi assim contra a Polônia. Os poloneses, bronze em 1982, não tiveram primeira fase fácil. Ainda assim, o Brasil só saiu vencendo com pênalti discutível em Careca, convertido por Sócrates em novo estilo de cobrança. A Seleção deslanchou na segunda etapa, após gol insano e espírita de Josimar. Desesperada, a Polônia sofreu em contragolpes. Num deles, Edinho deu um bico na direção de Careca e teve forças pra ele mesmo receber passe de calcanhar do camisa 9 e anotar o terceiro. Careca ainda lançaria Zico livre para sofrer pênalti claro e deixar a cobrança para o centroavante, na disputa pela artilharia. A bola entrou chorando, mas o trava-língua do Zé da Galera, no Viva o Gordo, se concretizou. A Polônia do Papa papou quatro.

O adversário das quartas de final seria a França. Tanto a equipe quanto seu principal astro não deixaram grande impressão na primeira fase. Aparentemente, não estavam reagindo bem ao calor mexicano. Porém, nas oitavas-de-final bateram a campeã Itália com sinais do futebol coletivo e individual esperado. Quem vinha se destacando, além de Platini, era o meio-campista Tigana, com seu fôlego invejável. Seria o confronto das duas seleções cujas técnicas encantaram o público da Copa anterior. Muito se fala – com justiça – do Brasil, mas o futebol dos franceses também era belíssimo. A eliminação nas semifinais foi tão ou mais dolorosa que a brasileira, pois estiveram à frente dos alemães na prorrogação. Foi também a primeira disputa de pênaltis da História das Copas. Pelo resultado, não queriam ouvir falar neste desempate de novo. Mas ouviriam.

Enfim confiante, o Brasil repetiu a escalação das oitavas. Começou melhor e abriu o placar numa tabela antológica entre Junior e Müller, completada por arremate seco de Careca. A França custou a criar jogadas e o empate precisou da ajuda do fortuito. Cruzamento desviado pegou a defesa brasileira (invicta até então) no contrapé e Josimar não viu Platini chegar discretamente para completar. A Seleção Brasileira não desanimou e o jogo ficou bastante disputado, com mais oportunidades para os canarinhos. Telê resolveu se valer da estratégia com Zico – mesmo correndo o risco de deixar Careca isolado sem um companheiro veloz no ataque. Na sua primeira jogada, o camisa 10 deu um passe digno daqueles de 1982. Uma visão de jogo que só um gênio poderia ter tantas vezes. Branco entrou em diagonal e, ao passar pelo goleiro Batts, foi derrubado. Pênalti. Ufa. Ou não…

O que viria depois merece um parágrafo exclusivo. O Brasil tinha dois cobradores oficiais: Zico e Sócrates. Telê determinou que o primeiro teria prioridade se estivesse em campo. Porém, naquela tarde, Zico só havia dado dois toques na bola – o domínio e o passe para o lateral-esquerdo. Não tinha chutado a gol. Por outro lado, Sócrates estava cansado. A terceira alternativa seria Careca, mas Telê achava – não sem motivo – que o centroavante batia mal. Zico, com aval de Telê, decidiu assumir a responsabilidade contra o arqueiro que, de acordo com jornalistas franceses, era o ponto fraco do elenco. A jogada seria a chance de Joel Batts calar os críticos. No confronto de inseguranças, Zico optou por colocar no canto direito. Pegou duplamente mal na bola. Primeiro pela altura, segundo pela direção (entre o meio e a trave). O desacreditado Batts rebateu e salvou sua seleção. Teríamos prorrogação.

Nos trinta minutos pelo desempate, a França teve oportunidade de ouro, em que o fôlego na recuperação de Elzo e a cegueira da arbitragem (Carlos segurou o atacante francês fora da área) tiveram o mesmo efeito da defesa de Batts. No final, foi a vez de Sócrates não conseguir completar um forte cruzamento de Careca. O atacante, enfim grandioso pela Seleção, não participaria da decisão por pênaltis. O primeiro a bater foi Sócrates, que poderia ter cobrado no tempo normal. O que se viu mostrou que estávamos mesmo numa sinuca. O novo estilo do doutor parou nas mãos do francês. Zico, por sua vez, converteu. Assim como Branco e Alemão. A França chegou a ter um pênalti na trave, que não seguiria para o gol. Mas a bola bateu nas costas de Carlos e foi para dentro. Este lance, bem como a falta de títulos atuando como titular, ratificaria a fama de pé-frio do goleiro menos vazado da Copa.

Platini, quase sumido, enfim se apresentou, Beijou a bola e…mandou-a de Guadalajara pra Acapulco, provavelmente atingindo a cabeça do Senhor Barriga, que culpou o Chavez. O Brasil estava vivo. Estava… Antes da final de 1994, Dunga disse a jornalistas que jamais fariam o que fizeram em 1986. Segundo o volante, os mais rodados deixaram a batata quente nos pés de novatos. E foi o calouro Julio Cesar, com desempenho brilhante no lugar do consagrado Oscar (que, oito anos antes, barrou o também consagrado Luís Pereira), que deveria colocar o Brasil na frente. Mas o petardo amassou a trave e Batts nem teve tempo de ser azarado como Carlos. Fernandez, atacante e futuro treinador, bateria a última. Diz a lenda que Carlos teria sido informado que Fernandez batia sempre no canto direito. Mas canto direito do goleiro ou do batedor? Ops… Bola num lado, goleiro em outro. O tetra não teria a mesma casa do tri.

Mas talvez a triste eliminação não tivesse ocorrido se uma corrente de torcedores, numa pequena cidade do interior paulista, não tivesse sofrido a interferência de uma senhora intrusa, quebrando o equilíbrio de energias que levava o Brasil adiante. Quem estava presente sabe de quem falo. Ela não será esquecida jamais. Jamais!

Quem desceu:
Telê Santana: duas Copas perdidas ratificaram a fama de pré-frio e as dúvidas sobre sua capacidade de montar times equilibrados. Voltou a trabalhar no Brasil, com resultados medianos até o segundo semestre de 1990, quando um São Paulo em crise apostaria nas saudades de suas seleções – especialmente após o fiasco da campanha de Lazaroni na Itália.

Zico: aos 32 anos, o jogo do pênalti perdido seria o último oficial pela Seleção. Foi operado novamente após a Copa e mostrou não estar acabado, sendo campeão da Copa União de 1987, encerrando a carreira no ano seguinte – retomaria a mesma para desenvolver o futebol japonês. Entrou para o rol de craques que fizeram muito por sua seleção, mas tiveram que conviver com o estigma do “não ganhou nada”. Detalhe: só perdeu uma partida com a camisa do Brasil.

Geração de 1982: Sócrates e Falcão assumiram a falta de condições físicas e pararam (o doutor ainda teve uma volta efêmera em 1988). Apenas Junior voltaria a atuar pelo Brasil, numa excursão em 1992 (após ser campeão brasileiro pelo Flamengo).

Casagrande: após perder a posição, não voltou mais a ser convocado. Teria carreira respeitada no futebol europeu, especialmente pela luta em campo.

Quem subiu:
Careca: no embalo da vice-artilharia da Copa, teve um desempenho lendário no título brasileiro que o SPFC conquistaria a seguir. Depois foi para o Napoli, onde seria o melhor parceiro de ataque de Maradona. Manteria esta moral até 1990, quando também naufragaria no fracasso da Copa.

Branco: o garoto do Fluminense se tornaria titular absoluto em 1990 e, já veterano e pesado, aproveitaria a brecha em 1994.

Müller: 1986 acabaria sendo seu grande momento pela Seleção, a despeito da titularidade em 1990 (deixando Bebeto e Romário no banco) e a presença em 1994. De volta do México, colocaria brinco, diria ser “símbolo sexual” e daria trabalho (além de títulos) no Morumbi até seguir para o Torino, em 1988.

Julio César: sólida revelação da zaga, logo deixaria o Guarani para atuar na Itália. Seu lugar no bugre seria preenchido por Ricardo Rocha.

Josimar: os golaços o tornaram estrela em questão de dois jogos. Mas se meteria em muita confusão e, embora presente nas eliminatórias para 1990, nunca mais fez jus à fama conquistada.

Galvão Bueno: com a escolha de Osmar Santos não dando sorte, enfim virou o número 1 absoluto da Rede Globo – situação que perdura (para alegria de uns e desespero de outros) por mais de trinta anos. Haja paciência, amigo…

(Continua na parte 4).

Leia também:

A Copa que eu lembro – 1986 – parte 1

A Copa que eu lembro – 1986 – parte 2 (os outros)

5 comentários em: “A Copa que eu lembro – 1986 – parte 3 (da superação às lágrimas, em quinhentos minutos)

  1. Uma crueldade histórica incrível foi isso de o Zico perder o pênalti no último jogo oficial dele pela seleção! Um vencedor nato, sempre jogou demais com a amarelinha, quase nunca perdeu com ela, não merecia isso!!!!!!!!!!!! E bizarro que ele, Sócrates e Platini perderam pênaltis nesse jogo!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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