W3vina.COM Free Wordpress Themes Joomla Templates Best Wordpress Themes Premium Wordpress Themes Top Best Wordpress Themes 2012

A dura realidade da mulher no futebol brasileiro

Matando no peito na final de futebol feminino dos Jogos Indígenas de Cuiabá as índias Parkatejê ganharam de 3 X 1 das índias Bacairí

Créditos da imagem: Caio Vilela

Mulher no futebol é um assunto complexo e que rende. Rende críticas, cobranças e injustiças. E complexo pois envolve um reduto considerado masculino, ainda. Quem nunca leu comentários maldosos que vão desde a aparência das jogadoras (juízas e bandeirinhas) ao seu talento e performance? Assim como dentro do campo, fora dele a disputa das mulheres pelo seu espaço é algo recente. Quem diria que na charmosa França, berço do Iluminismo, as mulheres tiveram direito a voto apenas em 1945? No Brasil, as mulheres começaram a votar e receber votos em âmbito nacional a partir de 1933, na eleição para a Assembléia Nacional Constituinte. O que tem isso a ver com futebol? Tudo, já que no campo parte da nossa cultura (ou a falta dela) se revela. As adversidades, injustiças, persistência e desigualdades mostram sua cara também no gramado. Como diz o ditado popular, são duas faces da mesma moeda.

A tese é de alguém com muita estrada no assunto e que há 20 anos estuda o futebol feminino. “Como pesquisadora afirmo que aquilo que as mulheres conquistam em termos esportivos é majoriatriamente em função de sua persistência, paixão, determinação e resiliência”, diz Silvana Vilodre Goellner, professora da UFRGS e pesquisadora sobre Mulheres e Esporte. Ela coordena o Centro de Memória do Esporte da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande e o Grupo de estudos sobre Esporte, Cultura e História (GRECCO). Com a palavra, Silvana:

836fbf9e-f7ca-440a-aab3-d1e2170878d1

Lena Annes – O que te levou a pesquisar sobre futebol feminino?

Silvana Goellner – Há vinte anos trabalho com o tema das mulheres no esporte. Minha motivação maior vem da percpeção das desigualdades de gênero que acontecem neste campo. Ou seja, são muito diferentes as condições e a estrutura do esporte para homens e mulheres. A elas cabe muito mais esforço para se manterem  nesse campo, para terem reconhecimento e visibilidade. O futebol entra nessa perspectiva, em especial, por ser um esporte socialmente considerado de domínio dos homens. Meu objetivo é, por meio de minhas aulas e pesquisas, evidenciar que elas tem legitimidade para atuar em qualquer esporte e que os desafios que encontram são de ordem cultural. Por isso é necessário falar desse tema, discutir e mostras as experiências que as mulheres tem no esporte seja como atletas, treinadoras, gestoras, torcedores, etc. Evidenciar que esse campo também é seu.

Mulher sabe jogar futebol ou ainda é coisa de meninos, como alguns defendem?

Mulher joga também e tão bem. Afirmações que atestam que meninos sabem jogar melhor são infundadas. Afinal, nem todos os meninos jogam futebol e muitos não sabem e nem querem aprender. Habilidades esportivas são aprendidas e nãoi dependem de um ou outro sexo. Quem faz afirmações desta natureza talvez nunca tenha observado as jogadoras. É só olhar Marta, Formiga, Rosana, Sissi e tantas outras jogadoras extraordinárias para perceber o quão inconsequente é essa percepção.

Com tantos talentos, por que o futebol feminino vive como um apêndice do masculino? Como fazer gestão?

É uma questão  cultural que não colabora para que vejamos o futebol delas como promissor, talentoso, com garra, determinação e paixão. O futebol também é negócio e muitas vezes não há uma maior estrutura para o futebol delas porque parece que não rende dinheiro para clubes e patrocinadores. Mas é uma questão de iniciar e insistir. Por outro lado, não podemos comparar com o futebol profissional dos homens. Esse é uma exceção em termos de esporte.

Nenhuma outra modalidade esportiva  no Brasil faz girar o capital que esse futebol espetacularizado faz. Portanto comparar o futebol e de mulheres a esse futebol é um equívoco.

O xingamento de mulheres em campo, de jogadoras a bandeirinhas e juízas é algo presente em todos os lugares, confere? Qual o motivo?

Isso se dá em função de uma representação tradicional  de gênero, ou seja, o que é relacionado ao masculino e feminino. Se as mulheres adentram um espaço considerado de homens e para homens, há essa reação. Como se lá ela não pudessem estar. E se estiverem, tem que respeitar uma representação tradicional de femininlidade: serem bonitas, graciosas…. quem fere essa representação é alvo de preconceito. Essas são questões culturais que vão atribuindo lugares para homens e mulheres, assim como modos de ser, de aparentar, de se comportar. Por serem culturais, podem ser descontruídas. A violência de gênero é uma realidade para as mulheres no Brasil, no esporte e fora dele.

A Austrália e os Estados Unidos, só para citar os mais conhecidos, tratam as jogadores de futebol feminino como atletas profissionais. Quando e como chegarmos lá?

Quando assumirmos que as atletas merecem o tratamento digno de atleta. Com estrutura, salário, atendimento médico, etc. etc. que essa é sua profissão.  Quando rompermos com a visão estreita de que elas são menos importantes que eles no futebol. Quando reconhecermos seus esforços e competências. Quando quisermos empoderar as mulheres e assumir que elas são fundamentais para a história esportiva de nosso país.

Como pesquisadora qual a sua opinião sobre o esporte feminino, de uma forma mais ampla?

O esporte é um campo de sociabilidade, de  educação, de lazer, de inclusão social, de exercício profissional para homens e para mulheres. Se as mulheres enfrentam desafios para entrar  se manter nesse campo de modo distinto dos homens (e enfrentam), algo está errado. E não é com elas! São as representações historicamente construidas sobre as desigualdades de gênero neste e em outros campos. Como pesquisadora afirmo que aquilo que as mulheres conquistam em termos esportivos é majoriatriamente em função de sua persitência, paixão, determinação e resiliência. Por reconhecer isso é que me dedico a visibilizar aquilo que fazer. Acho que essa é a contribuição pedagógica e política que posso oferecer.

É possível viver de futebol no Brasil? No caso das mulheres, óbvio.

Não! A grande maioria das futebolistas precisa de outras fontes de renda. Esse é o sonho da grande maioria das mulheres que atua no futebol. Ter condições de viver do esporte. Mas esse sonho ainda está longe. Infelizmente.

Como foi o evento que o Centro de Memória do Esporte da UFRGS realizou no ano passado com o objetivo de valorizar o futebol feminino?

O Museu do Futebol deu um passo importante em termos de visibilidade para as mulheres no futebol. Ao abraçar a exposição, abraçou também a ideia de que aquele espaço também é das mulheres. Que elas também merecem estar lá pois desde seus primórdios no Brasil elas estiveram presentes no futebol. Não aparecem porque, como falei, há muitos preconceitos nesse sentido. No entanto, como costumo dizer, silêncio não significa ausência. O fato de terem poucos registros sobre essa presença não significa que as mulheres não estivessem no futebol. Apenas não foram visibilizadas. O Museu percebeu isso e desde a exposição está desenvolvendo várias ações nessa direção. Eu fico muito feliz por ter sido umas das incentivadoras desse projeto e co-curadora da exposição. Como coordenadora do Centro de Memória do Esporte da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul tenho desenvolvido ações nesse sentido há algum tempo. A parceria com o Museu do Futebol foi, portanto, uma alegria e um agregar esforços em uma só direção: visibilidade para o futebol feminino.
http://museudofutebol.org.br/visite/ciclo-de-debates-visibilidade-para-o-futebol-feminino/

Gostarias de acrescentar algo?

Considero importante destacar que temas como a desigualdade de gênero no  esporte e fora dele é pauta cotidiana  e necessária em uma sociedade que produz e reproduz hierarquias a partir desse marcador identitário. Lutar pela justiça e equidade de gênero é um compromisso de todas as pessoas que acreditam em um mundo mais humano, afetuoso e justo.

A triste realidade do futebol carioca
Vendo otimismo. Quer comprar?

Escrito por:

- possui 27 artigos no No Ângulo.

Jornalista formada pela PUC-RS, essa gaúcha nascida em Passo Fundo e residente em Porto Alegre é especialista em Meio Ambiente, tem interesse por política e gosta de transitar e dar os seus pitacos sobre diferentes temas. Uma romântica do futebol, busca analisar as sutilezas do esporte bretão.

Entre em contato com o Autor

2 respostas para “A dura realidade da mulher no futebol brasileiro”

  1. Luis E. Medina disse:

    Debemos apoyar el futbol femenino, gracias a personas como Lena Annes y muchas mas alrededor del mundo, sera posible lograr el reconocimiento de estas atletas en: Sur, Centro, Caribe, Norte America, y en el continente Africano. Esperamos que el nuevo Presidente de La FIFA, le de la atencion que merecen el Futbol Femenino y suss protagonistas, a partir del 2016

    • Lena Annes (Coluna do Leitor) Lena Annes disse:

      Gracias Medina,mas creio que os méritos são das atletas que não desistem frente às dificuldades e profissionais ligadas ao esporte como a Silvana, que lutam pelas necessárias mudanças em prol do esporte e das atletas.


Deixe um comentário

Enquete

Qual o maior técnico brasileiro dos últimos tempos?

Ver resultados

Carregando ... Carregando ...

Colunistas

José Maria de AquinoJosé Maria de Aquino

Em seus mais de cinquenta anos de carreira, teve passagem marcante pelos principais veículos de comunicação do país, de todos os tipos de mídia, como Rede Globo, SporTV, Revista Placar, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Portal Terra. Além de um expoente do jornalismo esportivo brasileiro, também é advogado de formação.

Fernando PradoFernando Prado

Natural de Brasília, mas residente em São Paulo desde que se conhece por gente, é um apaixonado por esportes e pela “sétima arte”. Jornalista e advogado, busca tratar o futebol com a descontração que lhe é peculiar, com o compromisso da boa informação e opinião consistente.

Gabriel RosteyGabriel Rostey

Nascido dias após a seleção de Telê encantar o mundo e não levar o caneco na Copa da Espanha, esse paulistano atua e segue aprofundando estudos nas suas principais paixões: futebol e cidades. Especialista em gestão do esporte, como jornalista também encara o futebol como fenômeno cultural.

Gustavo FernandesGustavo Fernandes

Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, não resiste a um bom debate sobre esportes, desde futebol até curling. São-paulino, é fundador e moderador do Fórum O Mais Querido (FOMQ). Não esperem ufanismos e clichês. Ele torce, mas não distorce.

Jorge FreitasJorge Freitas

“Prata da casa” oriundo da Coluna do Leitor, este internacionalista é tão louco por futebol que tratou do tema até em seu TCC. Mestrando em Análise e Planejamento em Políticas Públicas, neste espaço une o gosto por escrever com a paixão pelo esporte mais popular do mundo.

Emerson FigueiredoEmerson Figueiredo

Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Redator, repórter, pauteiro e editor-assistente da editoria de Esportes da Folha. Trabalhou também na Folha da Tarde, Agora São Paulo, BOL, AOL e UOL. Paulistano, acompanha de perto o futebol desde a época em que os camisas 10 dos grandes times paulistas eram Pelé, Rivellino, Gérson/Pedro Rocha, Ademir da Guia e Dicá.

Fernando GaviniFernando Gavini

Jornalista há 19 anos, já cobriu Copa do Mundo, NBA, Nascar, Pan, Mundial de vôlei, Copa do Mundo de ginástica, Libertadores e as principais competições do futebol nacional. Começou no A Gazeta Esportiva, passou pelo site do Milton Neves, Agência Estado, Agora São Paulo, Terra, ESPN e está na TV Gazeta. A trabalho, conheceu 8 países, 18 estados do Brasil e mais de 100 estádios.

Assinatura por e-mail

Arquivos

©2017 No Ângulo - Todos os direitos reservados