A Ghiggia, por Barbosa

Créditos da imagem: gazetadopovo.com.br

A Copa de 1950 atravessou décadas como a maior assombração da história do esporte brasileiro. Uma tragédia que espalhou tristeza e rancor país afora e enterrou a autoestima já debilitada do povo vira-lata. E dentre os fantasmas que se divertiram no maior palco do mundo naquele 16 de julho, o último deles se foi exatos 65 anos depois. O nome daquele dia nos deixou com o mesmo capricho que colocou o esférico nas malhas da baliza dos donos da casa, para então se sagrar campeão e consagrar sua Celeste bicampeã mundial.

Há pouco mais de 15 anos, uma das vítimas do fatídico Maracanazo chegava ao plano espiritual, ou outro plano, ou seja lá aonde for. A maior das 200 mil vítimas presentes no Mário Filho naquele dia ou dos 50 milhões espalhados pelo Brasil. Mártir de uma derrota simples, amarga e doída.

Barbosa foi um goleiro condenado por ter sofrido um gol. Viveu como culpado, partiu como culpado. Mas por essas correções que só o “Deus do Tempo” é capaz de fazer, a História não só o absolveu, como o considera vítima, afinal, que era mesmo. Barbosa perdeu junto com seus companheiros. O goleiro fez sua parte e perdeu, como o Brasil. A História quase nunca falha e dessa vez, não falhou.

À atual geração e às próximas, o goleiro será mais um desses injustiçados pela massa, como tantos outros desde tempos idos, mesmo que essa massa renegue seus crucificados que ousam se expor. Entretanto, Barbosa morreu sem ter um pedido de desculpas e certo do desgosto que lhe fizeram acreditar ter causado. Nem no sono eterno teve o goleiro o descanso merecido.

Por outro lado, 15 anos depois da vítima, vai-se o carrasco. Ghiggia parte como símbolo de uma era dourada do futebol, na qual se falava de amor e, acima de tudo, se jogava com amor. Com toda pompa que merece pela história que escreveu no esporte mundial, o algoz que calou o Maracanã ruma a outra dimensão de cabeça em pé. Sem culpas, apesar de culpado, certo apenas do trabalho bem feito. Morre como herói uruguaio e saudado no Brasil como um dos tantos que fizeram o futebol ser o que é.

Por esses caprichos em conjunto dos “Deuses do Destino e os do Futebol”, o uruguaio foi o representante que mais tempo sobreviveu para contar a história dessa tragédia. O personagem principal e espectador que se tornou o contador de histórias. E que teve o privilégio de ver outra acontecer. Aquela que, por tabela, redimiria sua vítima.

Ghiggia viveu o suficiente para ver o Brasil, não mais de Barbosa, sofrer outra assombração que certamente atravessará décadas. Dessa vez, entretanto, não há culpados como o goleiro. Uma ou outra tentativa de se crucificar um ou outro jogador do 7 a 1 naufragou no sucesso da carreira daqueles que representaram o Brasil pior do que o goleiro de 50 e seus companheiros. Não coube imputação de culpa, de tantos culpados que havia. Como não haveria cruz suficiente, então, não se crucificou ninguém.

O futebol da “era do amor” culpou Barbosa, mas o jogo que se joga parecido com aquele não consegue mais imputar culpa. Parecem, então, robôs imunes à dor que só Barbosa soube qual era.

Com a passagem do eterno carrasco uruguaio que silenciou o Maracanã, o último dos sobreviventes, coloca-se um ponto final na dor de Barbosa. Ghiggia vai poder contar para sua vítima o que viu há pouco mais de um ano no Mineirão. E vai poder falar a Barbosa que, então, ele foi perdoado pelos daqui da Terra. E por fim, Ghiggia aliviará a dor de Barbosa e ambos poderão dormir eternamente com a sensação de que, na vitória ou na derrota, o dever prometido a ambos foi cumprido.

4 comentários em: “A Ghiggia, por Barbosa

  1. Os homens vão, mas a história fica!

    Tanto um quanto outro foram grandes personagens do futebol!

    Parabéns pelo belo texto e homenagem!

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