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A paixão não se compra, nem se aluga

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Créditos da imagem: Blog do Bola

Faz algum tempo que pretendo escrever algo sobre a Arena do Grêmio, pois a troca do tradicional estádio Olímpico pelo novo espaço no bairro Humaitá gerou (e ainda gera) muita discussão entre torcedores, não torcedores, mídia e dirigentes.

Pessoalmente, tenho ressalvas quanto à mudança, pois acho que a Arena deveria ter sido erguida no mesmo local do Olímpico e não ter recebido de graça um terreno público da Prefeitura, já que, na troca, onde um dia foi o Olímpico, serão construídas torres de prédios pela iniciativa privada.

Mas essa é minha opinião e nem gremista sou. Então fui ouvir dois gremistas clássicos. Primeiro o meu irmão Carlos Annes, que frequentava a “coréia” do Olímpico e para onde ia nas tardes de domingo vestindo um impermeável com capuz para enfrentar os saquinhos de xixi jogados das arquibancadas superiores, só de sacanagem. Ele foi algo sucinto: “como gremista, comecei a frequentar o Olímpico em 1975 antes da reforma que concluiu o anel superior. Foi no Olímpico que vi as maiores conquistas do Grêmio. Era um período que em um jogo decisivo, tínhamos que chegar algumas horas antes para conseguir sentar numa arquibancada de concreto sem o mínimo conforto, sujeito a chuva, frio, calor e sem falar outros líquidos que eram jogados pela própria torcida. A construção da Arena, com sua grandiosidade, conforto e as facilidades que ela propicia aos torcedores, faz com que o Olímpico faça parte da história do Grêmio”.

Fui então ouvir outro gremista notório e militante. Carlos Gerbase é conselheiro do Grêmio e oriundo de família tricolor (o pai, José Gerbase, foi presidente do clube) e como destaca o próprio, “membro do grupo Grêmio Imortal”. Confesso que desconheço tal grupo, mas deve ser de respeito, pois se o Gerbase está dentro… E para quem não conhece o gajo, ele é jornalista, professor na PUC/RS, escritor e cineasta. Tem com a Luciana Tomasi, a Luli, parceira de trabalho e de vida, a produtora Prana Filmes (http://www.pranafilmes.com.br).

Foi assim que ele nem esperou minhas perguntas e enviou prontinho o texto abaixo, com título e tudo, que reproduzo na íntegra:

O futuro da Arena

A história do Grêmio quase sempre é contada através de seus estádios. Isso não é uma coisa tão óbvia e natural assim. Muitos clubes brasileiros não têm estádios próprios, ou, se têm, ficaram pequenos com o passar do tempo e só servem como campos de treinos, como as Laranjeiras e a Gávea, no Rio. Fluminense e Flamengo jogam no Maracanã, estádio público.

A tradição, aqui no Rio Grande do Sul, é cada clube ter seu estádio, de domínio privado, para orgulho de sua torcida. O Olímpico, inaugurado na década de 1950 para substituir a gloriosa Baixada, naquele tempo era o maior estádio particular do Brasil. A Arena, que está aí há alguns anos como a nossa casa, teve uma trajetória de criação conturbada, que na verdade ainda não se completou. Tanto que se fala numa reinauguração quando o Grêmio estiver em sua posse definitiva.

Esse assunto, creio, é tão enrolado, tão cheio de afirmações e contradições, que é impossível desenvolver em pouco espaço. Mesmo os detalhes históricos são motivo de disputa – às vezes política, às vezes pessoal – e os torcedores estão, com toda razão, de saco cheio. Nós queremos ter orgulho da Arena, e já temos, mas esse orgulho parece ter sempre uma sombra, um filtro de desconfiança, que nos impede de valorizar o estádio com toda a emoção que ele merece, por sua grandeza e pelo que significa para o futuro do nosso clube.

Como estive presente em muitos debates sobre a Arena (quando nem esse nome existia) no Conselho Deliberativo do Grêmio, acho que posso dizer algumas coisas que, nessa infindável discussão, às vezes são esquecidas. Vou fazer uma lista de fatos – que estão longe de ser incontestáveis, mas que, para mim, são claros – e depois tirar algumas conclusões: (1) o Olímpico estava em péssima situação, inclusive estrutural, desde o final dos anos 1990. Goteiras, infiltrações, arquibancadas em situação de risco, equipamentos básicos sucateados. Uma grande reforma seria necessária e, caso ela acontecesse, teria um custo muito alto. O clube não tinha recursos próprios para fazê-la; (2) os parceiros que surgiram nunca colocaram na mesa a possibilidade de uma reforma. Eles só se interessavam por um novo estádio. Ou em outro lugar, ou ali na Azenha mesmo, depois de colocar o Olímpico abaixo; (3) um grupo minoritário no Conselho, liderado pelo grande presidente Hélio Dourado, batalhou valentemente para que o Olímpico fosse reformado e modernizado. Havia, inclusive, algumas plantas, feitas pelo arquiteto Plínio Almeida. Mas essa proposta não foi adiante por um motivo simples: ninguém sabia de onde viria o dinheiro; (4) havia vantagens financeiras para o projeto do novo estádio devido à Copa do Mundo, principalmente com incentivos fiscais. Esse fator foi decisivo. Não sei quanto foi possível baratear a obra, mas desconfio que a OAS não entraria na jogada sem esses descontos do governo. Portando, a decisão não poderia ser adiada; (5) os contratos e seus adendos ficaram à disposição para análise dos conselheiros. Como se sabe, mais da metade são advogados. O Conselho aprovou o contrato, mas há uma polêmica a respeito de um dos adendos. Não vou entrar nessa briga aqui. É muito complicado; (6) o estádio foi inaugurado quando ainda não estava 100% concluído. Isso aumentou o custo da obra, num percentual difícil de calcular com precisão. Mas aumentou. Bom, a partir daí temos toda a confusão da OAS com a Lava Jato, o que dificulta ainda mais saber quando o imbróglio terá um final, que esperamos ser feliz.

Em discurso no Conselho, no aniversário do Grêmio em 2014, escrevi o seguinte: “Não peço que amemos a Arena pelo que ela é hoje, um imenso bloco de concreto esperando as mãos e pés que moldarão seu destino. Temos que amá-la pelo que ela será. Temos que trabalhar a cada jogo para que a nossa nova casa receba dignamente todos os gremistas, sem pedir nada a eles além de respeito pelo clube e pelos outros torcedores. A paixão não se compra, nem se aluga. A paixão é emoção que nasce livre e livre deve crescer. Temos que aprender a receber cada vez melhor os torcedores adversários, mostrando que somos civilizados e temos educação. Temos que lutar pela vitória até o último instante, mas aprender com as derrotas e respeitar a alegria alheia. A nossa alegria, a alegria do gremista, não depende do resultado de um jogo, ou de um campeonato. A nossa alegria é a de pertencer a um clube que se orgulha de 111 anos da mais ardente e verdadeira paixão pelo futebol. “Sugiro que nós, gremistas de todos os bairros de Porto Alegre, de todos os municípios do Rio Grande, de todos os estados do Brasil, consideremos a nossa nova casa, a Arena, como uma criança que ainda precisa aprender a falar e a andar. Sugiro que abracemos o bairro Humaitá, que pintou centenas de casas e bares de azul, preto e branco, para receber o Grêmio, com um pai abraça um filho. Temos desafios no futebol, mas também temos compromissos no presente com milhares de pessoas, em sua maioria humildes trabalhadores – pretos, brancos e mulatos – que das suas janelas olham para uma obra que pode significar um futuro mais digno para seus próprios filhos. Somos o Grêmio Futebol Porto-Alegrense, e Porto Alegre ainda vai nos agradecer por tornar mais feliz uma região que estava esquecida e parecia não ter futuro.”

Continuo com a mesma opinião: cabe a nós dar um sentido para a Arena. Com a inauguração próxima do Museu do Grêmio talvez seja mais fácil fazer isso. Será um processo demorado, mas nada que um gremista de verdade possa temer. A OAS vai ficar para trás mais cedo ou mais tarde. Mas o Grêmio nunca vai ficar para trás. Vamos lutar pela Arena, porque ela é parte fundamental do futuro do Grêmio.

Carlos Gerbase

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Escrito por:

- possui 27 artigos no No Ângulo.

Jornalista formada pela PUC-RS, essa gaúcha nascida em Passo Fundo e residente em Porto Alegre é especialista em Meio Ambiente, tem interesse por política e gosta de transitar e dar os seus pitacos sobre diferentes temas. Uma romântica do futebol, busca analisar as sutilezas do esporte bretão.

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Um comentário para “A paixão não se compra, nem se aluga”

  1. Muito bom, Lena, e concordo com o ponto de vista do Carlos Gerbase!

    É estranho que “enfrentar o Grêmio no Olímpico” era uma coisa de provocar calafrios em qualquer torcedor adversário! Já enfrentar “na Arena” ainda não provoca o mesmo. Acho que até o nome genérico (mal do qual o Corinthians também sofre) influencia nisso.

    De todo modo, acho que tradição se cria rápido. Enquanto seguir sem títulos, vai ser difícil o Grêmio se sentir “em casa” na Arena. Uma vez que isso mude, aposto que será rapidamente abraçada e querida 😉


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Jornalista há 19 anos, já cobriu Copa do Mundo, NBA, Nascar, Pan, Mundial de vôlei, Copa do Mundo de ginástica, Libertadores e as principais competições do futebol nacional. Começou no A Gazeta Esportiva, passou pelo site do Milton Neves, Agência Estado, Agora São Paulo, Terra, ESPN e está na TV Gazeta. A trabalho, conheceu 8 países, 18 estados do Brasil e mais de 100 estádios.

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