A solidão do treinador

Créditos da imagem: Globo Esporte

O treinador de futebol é um ser solitário. E esta definição nem é minha, pois em 2004 o jornalista Humberto Perón já escrevia sobre o tema na Folha de S. Paulo em sua versão online

Perón descrevia o treinador como solitário através da perspectiva técnica, de ter que escalar 11 num elenco grande, substituir a partir de suas observações e ter que se explicar ao final das partidas.

Vejo os treinadores como solitários a partir da ótica das estruturas organizacionais. Em todas as organizações existe um organograma, um encadeamento de cargos que pode ser mais ou menos engessado, mais ou menos complexo, que garantem que para todas as estruturas haja alguém acima para direcionar e cobrar.

Para o operário ou analista há um Supervisor, que reporta a um Gerente, que presta contas e toma orientações com um Superintendente, cujo superior é um Diretor, que fala com um Vice-Presidente, que reporta ao Presidente, que ouve recomendações de um Conselho de Adminstração e que, por fim, deve explicações aos Acionistas.

Ufa…pode ser mais simples, mas o fato é que para cada estrutura existe alguém acima “que manda”, mas também que serve como apoio, como referência técnica, como alguém que através de conversas, feedbacks, orientações e cobranças permite que o profissional abaixo evolua e produza melhor.

Menos no Futebol.

As estruturas organizacionais arcaicas do futebol brasileiro apenas garantem aos treinadores o isolamento, a solidão.

Geralmente um presidente político escolhe um Diretor de Futebol que não entende nada do assunto – apesar da maioria dos cartolas acreditarem piamente que “vivem o campo” e sabem tudo do assunto, quando na verdade mal conseguem diferenciar dois padrões táticos e ainda falam em “volante cascudo”.

Atualmente há também a figura do Diretor Profissional, que na verdade é alguém remunerado que serve apenas para contratar atletas de baciada ou organizar agenda.

É essa figura, apoiada por políticos, quem escolhe um treinador que geralmente não tem um elenco adequado às suas características para trabalhar. E que larga esse técnico e seu auxiliar para lidarem com 20 e tantos atletas, comissões permanentes e nem sempre amistosas, e uma torcida que só quer saber de ganhar.

Enquanto isso o treinador se vira, sem ter com quem debater se a estrutura tática escolhida é a melhor, sem debater contratações que permitam melhorar a qualidade do elenco e “combinar” melhor os atletas. Ele tem apenas seu auxiliar. E quem lhe dá respaldo acima? Ninguém. Ou aquele que repete o chavão do “está prestigiado”.

A solidão do treinador vem junto da sua auto-avaliação de super-herói. O treinador é o cara, é quem escala, afasta, dá oportunidades. É quem dá as cartas, e quanto mais veterano maior seu poder.

O problema é que formamos cada vez menos veteranos, pois os jovens promissores ficam pelo caminho, e no lugar de termos novas safras se consolidando, temos novas safras o tempo todo e antigos treinadores de outros tempos surgindo como solução, com sua casca grossa e fala dura formadas em outro futebol.

O tempo, meus caros, muda a forma de relacionamento. Muda o jeito, muda o que se exige e espera de um profissional. No futebol não é diferente. Há evoluções táticas, de treinamento, há mudanças no perfil do atleta, e isso demanda outro padrão de treinador, diferente dos medalhões que um dia reinaram nos campos. O futebol brasileiro vai queimando gerações de treinadores consistentemente porque ainda se ilude em seu amadorismo travestido de profissionalismo.

Quantas novidades perderemos nos apoiando nas manchetes de décadas passadas, em discursos ultrapassados?

Depois de Roger, Jair e vários outros, uma luz no fim do tunel é a relação de Raí com Aguirre no São Paulo. O Diretor Técnico dá o respaldo não com palavras, mas com ações. Mexeu no elenco, deu ao treinador as peças que ele precisava para encaixar seu jogo e vendeu os que não se encaixavam, e passa a ser alguém que age mais do que fala.

Pode até não vencer, mas ao menos executa com perfeição a cartilha da boa gestão esportiva. Dá o respaldo, permite o diálogo, está efetivamente junto ao treinador. E se Aguirre ficar pelo caminho, como tantos outros, ao menos desta vez não poderá culpar a solidão por isso.

Não precisa muito. Basta desapego e visão corporativa aos dirigentes. Bem, então ainda falta muito.

4 comentários em: “A solidão do treinador

  1. É tudo um grande teatro!!!!! Contraram um técnico qualquer, fingem que acreditam no trabalho dele, o descartam sem a menor cerimônia e não formam qualquer perfil para o clube ou elenco!!!! Daí o técnico fica nessa de pular de barca em barca, aproveitando qualquer oferta, sem também ter o manejo adequado da carreira!!!!!!

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