Até onde é justo a imprensa estigmatizar um profissional?

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Nos últimos dias tivemos duas polêmicas envolvendo profissionais do futebol que se sentiram “perseguidos” por parte da imprensa.

O primeiro caso foi quando o volante Felipe Melo ameaçou processar o canal Esporte Interativo. Depois, veio a troca de farpas entre o técnico palmeirense, Cuca, e Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, por causa do termo “Cucabol”.

tweetfelipemelo

Twitter / Esporte Interativo

O ex-volante da Seleção Brasileira, atualmente na Inter de Milão, foi alvo de mais uma brincadeira do Esporte Interativo nas mídias sociais, que exibia uma dura falta do jogador no Brasil x Holanda que culminou na traumática eliminação canarinho na Copa de 2010 (na qual Felipe Melo foi expulso), acompanhada da legenda “O bonzinho Felipe Melo está passando pela sua timeline”. Não foi a primeira ironia feita com o atleta pelas mídias sociais do canal.

Posteriormente, o volante desabafou e reclamou do canal, disse que “toda semana tem uma sacanagem, uma montagem para me atingir”, e finalizou com uma frase com a qual concordo totalmente: “Futebol no Brasil está virando humorismo. É piadinha na TV, na internet. Poucos falam com a seriedade que o esporte merece”.

Twitter / Felipe Melo

Twitter / Felipe Melo

Por fim, o jogador chegou a ameaçar processar o canal, mas tudo acabou bem: o Esporte Interativo pediu desculpas e disse não ter o “objetivo de perseguir ninguém”. O atleta aceitou, e imagino que agora a equipe de mídias sociais do canal pensará duas vezes antes de fazer novas piadas usando a fama de violento ou desequilibrado do ótimo volante.

Já vi algumas entrevistas de pessoas que estavam na delegação brasileira na Copa de 2010, e todas destacaram que a eliminação foi muito doída, que o grupo todo chorava copiosamente nos vestiários, e que foi um choque para um grupo que realmente acreditava que seria campeão do mundo. O goleiro Júlio César – pela falha no primeiro gol holandês – e, principalmente, Felipe Melo – pela tola expulsão que já era temida e prevista por muitos críticos – foram os jogadores mais responsabilizados pela derrota.

Alguém tem ideia de como é para o Felipe Melo ver seguidas piadinhas – feitas não por torcedores ou “anônimos”, mas sim por uma instituição formadora de opinião – que o estigmatizam e reforçam aquela que deve ser a maior frustração profissional, ou até mesmo pessoal, de toda sua vida?

Já o caso de Cuca com o ótimo (e excessivamente assertivo) Mauro Cezar Pereira não se baseia em “brincadeirinhas inconsequentes” e envolve um dos meus jornalistas esportivos preferidos. O treinador palmeirense vem sendo constantemente criticado pelo jornalista da ESPN Brasil pelo conjunto palestrino investir muito em ligações diretas, bolas aéreas e laterais cobrados diretamente para a área. O estopim se deu durante a coletiva do técnico após a vitória do Palmeiras sobre o Coritiba pela 27ª rodada do Brasileirão, quando reclamou publicamente do termo “Cucabol” e foi respondido em seguida por Mauro Cezar, conforme o vídeo a seguir:

 

No final, conversaram ao telefone e felizmente se acertaram.

Eu concordo com a visão do Mauro Cezar Pereira e a cobrança por um jogo mais elaborado. Mas, ao mesmo tempo, entendo que Cuca se sinta pessoalmente atingido pela forma que a crítica é feita. Afinal, o técnico que vem liderando o Brasileirão (o que não deve servir para abonar um trabalho sem maiores complexidades) não é o responsável por elevar o nível de jogo do nosso futebol. Na prática, assumiu um clube que investe muito e por isso está pressionado por grandes conquistas, após uma decepcionante eliminação na Libertadores ainda na fase de grupos e sem direito sequer a pré-temporada. Claro que são argumentos que podem ser rebatidos, afinal, Zé Ricardo, técnico do Flamengo, tampouco pôde fazer pré-temporada e sua equipe vem praticando um futebol mais elaborado. Mas Cuca e o Palmeiras também são muito mais cobrados pela conquista, e cada elenco e treinador encontra a sua maneira de ser bem sucedido. Eu exigiria mais do desempenho do Palmeiras de Cuca na temporada que vem.

De todo modo, ainda que continue sempre nesse padrão, não acho que merece ter seu nome associado pejorativamente a um estilo de jogo. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, e a torcida e a diretoria palmeirense que tratem de avaliar Cuca. Os trabalhos têm diferentes fases, existe a maturação de um elenco, a pressão oscila e afeta o desempenho, às vezes um único jogador é capaz de mudar toda uma equipe… enfim, tenho certeza que em outro estágio, no qual outras coisas não pesem mais, Cuca será punido se seguir investindo em um futebol “pobre”.

Eu já usei o termo “Muricybol” no passado, e hoje me arrependo. Estigmas são amarras muito pesadas, que condicionam o comportamento e a percepção. Como eu disse, já reproduzi, e após reflexão, para mim parece uma espécie de chantagem, algo como “se quiser continuar trabalhando como está, continue, mas será tachado negativamente, mesmo que bem sucedido”.

Lembro que o próprio Cuca já armou equipes muito vistosas e ofensivas. O próprio Atlético Mineiro que comandou em 2012/2013, que muitos (como Mauro Cezar) chamam de “Galo Doido” e dizem que se baseava em ligações diretas para o pivô do centroavante Jô, teve muitos momentos de brilho e bom futebol. Há meros dois anos, Tite tinha fama de retranqueiro; até três anos e meio atrás, Cuca “era” azarado. Robinho – que hoje comanda o Galo e é talvez o melhor jogador do Brasileirão – até pouco tempo vinha sendo tratado como “ex-jogador em atividade”, “descompromissado” e “chinelinho”. É importante ter cuidado para não cristalizar preconceitos.

No futebol, a evolução do trabalho não é matemática. Não existe só uma forma de se jogar, nem de vencer. E essa é a maior riqueza do nosso esporte.

Leia também: Helvídio Mattos, da ESPN Brasil, sai em defesa de Trajano e Kfouri por críticas de leitores do No Ângulo

15 comentários em: “Até onde é justo a imprensa estigmatizar um profissional?

  1. Texto pra lá de oportuno, Gabriel Rostey. E necessário.
    No caso do Felipe Melo, sem querer ser politicamente correto, penso que uma coisa é uma brincadeira pontual e outra, completamente diferente, é o “bullying virtual” do qual ele estava sistematicamente sendo vítima. Acho justa a reclamação do jogador (que é muito bom, diga-se) e prudente (até juridicamente falando) o recuo do Esporte Interativo.
    Já no caso do Mauro Cezar Pereira, acredito que exista uma linha tênue entre ser firme em suas convicções e desrespeitoso. Não é a primeira vez que o competente – mas muitas vezes assertivo em excesso – jornalista escorrega nesse sentido e passa dos limites. Deveria, em um ato de grandeza, desculpar-se publicamente e parar de utilizar o termo “Muricybol”, “Cucabol” etc. O telefonema já foi um primeiro passo importante…

  2. Concordo com seu texto. Só não endosso o “ótimo” em relação ao comentarista. O acho fraco e muito flamenguista, o que prejudica o exercício da profissão e gera dúvidas em relação à opinião sobre Cuca. É um comentarista mal humorado, que segue a linha de colegas de emissora. Acho tão ruim como os excessos de “bom humor” de outros.
    No restante, acho que é isso mesmo. Os técnicos são obrigados a montar, em dias, times para um campeonato inteiro. Como no Brasil a questão de jogar bem se tornou cada vez mais relativa, os treinadores usam estratégias que levem aos resultados. Não temos hoje times que joguem o fino da bola, como Corinthians e Atlético-MG em 2015, que estavam muito acima dos demais.

  3. Copa de 2010 se tivessemos com 15 jogagores perderiamos da mesma maneira. Felipe Melo ,foi o melhor jogador do time no primeiro tempo , poderiamos estar ganhando de mais . A culpa foi do nosso técnico que não viu o jogo como fez o holandês . Nosso volante Felipe Melo armou nosso time , jogou na sobra ,Robim fechava pelo meio o lateral acompanhava e ele destruia e armava nosso time. No segundo tempo ele o holandês tirou essa sobra,colocou o nr 10 junto com o Robim do lado direito e nosso treinador não inverteu o Gilberto Silva , para que Felipe Melo continuasse a sobrar , é só rever o jogo falta de visão que tivemos. Quanto a rotular as pessoas não concordo ,criticar não aceitar uma postura de jogo faz parte de todos nós , porém com respeito pelos profissionais da bola rsss.

  4. Belo texto! Especialmente em relação ao Cuca, acho q o Mauro não deixa de ter sua razão e coerência (apesar de em alguns momentos a postura dele beirar a “crítica pela crítica”). O q eu acho importante ressaltar, é q num campeonato de regularidade tão longo quanto o brasileiro, times como o Corinthians de Tite, tão constantes na forma de se apresentar são exceções. Ainda mais na nossa realidade de calendário bagunçado (q gera lesões e desgaste) e janelas de transferências internacionais em meio de temporada. O Palmeiras teve ótimas apresentações (como a do segundo turno contra o flu) muito além do “cucabol”, e confesso q ainda não vi o Flamengo muito melhor q isso. O estigma serve só para empobrecer nossas discussões.

  5. Texto pra lá de oportuno, Gabriel Rostey. E necessário.
    No caso do Felipe Melo, sem querer ser politicamente correto, penso que uma coisa é uma brincadeira pontual e outra, completamente diferente, é o “bullying virtual” do qual ele estava sistematicamente sendo vítima. Acho justa a reclamação do jogador (que é muito bom, diga-se) e prudente (até juridicamente falando) o recuo do Esporte Interativo.
    Já no caso do Mauro Cezar Pereira, acredito que exista uma linha tênue entre ser firme em suas convicções e desrespeitoso. Não é a primeira vez que o competente – mas muitas vezes assertivo em excesso – jornalista escorrega nesse sentido e passa dos limites. Deveria, em um ato de grandeza, desculpar-se publicamente e parar de utilizar o termo “Muricybol”, “Cucabol” etc. O telefonema já foi um primeiro passo importante…

    1. Obrigado, Fernando Prado! E concordo totalmente com você.

      Acho que cada vez mais as críticas devem ser impessoais. E no caso das “brincadeiras” do Esporte Interativo, só ajudam a baixar ainda mais o nível de discussão futebolística no Brasil…

  6. O injusto mesmo é alguem admirar esse idiota do Mauro C.Pereira,grande imbecil,grosseiro juntamente com seu grupo Trajano e Juca..da ESPN,alias a mt tempo não vejo essa imissora q era mt legal

  7. O triste de tudo isso é ver esses caras ganharem dinheiro pra falar de jogador,e nem ex jogadores são, e falam,falam e falam como se fossem.donos da verdade. Eu não perco um minuto da minha vida pra assistir programas de debate sobre futebol,pq só falam de jogador e até da vida pessoal de jogador, e cada um puxa brasa pro seu time do coração… Isso pra mim não debate de futebol.

  8. Axo ke Felipe melo foi injustiçado pela midia e pelos técnicos da seleção brasileira o cara eo bom marcador jogar muito pq erro na copa do mundo foi esquecido quem nao viu oke ele fez no brasil ta de sacanagem ne o cara era ate artilheiro os adversários temiam ser marcados por ele por isso o Brasil era porqueira falta de técnico mas com tite a coisa ta mudando ate a copa do mundo felipe melo injustiçado

  9. Vivemos em uma soberba quando se trata de futebol. Sempre encontramos um culpado pra justificar um fracasso. Futebol é coletivo ,não se ganha ou perde individualmente, há quem faça a diferença potencializando o coletivo isso é fato mas sem generalizar. Criticas sempre serão feitas ,é difícil agradar a todos , porém é preciso manter o respeito aos profissionais da bola e da imprensa , afinal vivemos em um estado democrático de direito rssss.

  10. Oportuno. Sobre o tal do “Cucabol”, o futebol é pautado também em resultados, vale lembrar no ano passado que o Santos apresentou um futebol vistoso, daqueles bem gostosos de se assistir, mas acabou fora do G4, vice da Copa do Brasil e sem a vaga na libertadores. Enfim, é difícil, eu gosto do show, mas o importante é o resultado final.

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