Bem-vindo, Felipe Melo, o “marrento”. Abaixo as bajulações!

Um jovem candidato a jornalista, seguindo os passos do pai, de quem ouviu ter sido influenciado pelo que eu escrevia no Jornal da Tarde e na Placar, quis saber se é possível editar outro jornal como o JT e outra revista como Placar. Chance zero, respondi. Por falta quase absoluta dos ingredientes necessários – daqueles tempos.

O JT começou em janeiro de 1966 e a Placar em março de 1970.

Faltam cartolas como os de então. Faltam craques em quantidade como os da época. E até liberdade para os repórteres.

Naqueles tempos, os cartolas mais, digamos, ambiciosos, se contentavam com a promoção que, direta ou indiretamente, faziam de seus escritórios, de seus comércios, de suas clínicas. Alguns poucos iam além, visando cadeiras na Câmara Municipal ou Federal.

Era assim nos clubes, nas federações e até na CBF, antes chamada de CBD. Mendonça Falcão, presidente da Federação Paulista, era deputado estadual e aparecia na sede da entidade nos fins de tardes para despachar. Às vezes para esticar as pernas no 11º andar, onde o vi, certa vez, de cueca samba-canção. Jovino, velho porteiro, confidente e linguarudo, certa vez me disse que Falcão ia lá para… Bem, é melhor não contar…

Alfredo Ignácio Trindade, presidente do Corinthians, elegeu-se vereador. Wadi Helu, advogado, foi vereador, deputado e secretário estadual. Vicente Matheus queria, e conseguiu, projeção social. Passava a ideia de que enfiava a mão no bolso, mas não. Disse ter doado ao clube o asfaltamento de uma área junto ao ginásio no valor de 700 mil. Engenheiros calcularam e baixaram para 70 mil. Detalhe: o asfalto usado era sobra de obras que sua empresa fazia.

Hoje os cartolas passam os dias no clube, em salas fechadas onde só se entra com sua autorização. Muitos, direta ou inderetamente, recebem altos salários. Não são todos, mas são muitos. Mesmo quando administram o clube de forma desastrada. Se fossem executivos em empresas particulares, seriam sumariamente demitidos, e até processados. Um desses me processou. Foi um dos prazeres que tive na profissão, pagar 543,20 reais de multa. Pagaria dez.

Faltam craques, até para exportar para o mundo classe A do futebol. Só servem para o B e o C, de China. Nos tempos do JT e da Placar, eles ficavam por aqui – nada contra os que saem, ao contrário. Quero mais é que eles façam um belo pé-de-meia. Nos tempos dos craques os repórteres podiam conversar com eles livremente, em qualquer lugar e hora.

Hoje, isso é impossível. Antes é preciso falar com o assistente do assessor do assessor (!). Os assessores nos clubes escolhem quem eles querem que seja entrevistado. Pode acontecer do Dudu marcar três gols numa partida, mas o assessor escalar o Ferrugem, que ficou no banco. Também nada contra eles, mesmo quando exageram. Estão ganhando a vida.

Os jogadores são blindados por assessores e empresários. E orientados a adotarem postura politicamente correta. Decoram as respostas e as cantam automaticamente, quase sempre distantes da pergunta feita. Fingem temer os repórteres que, por sua vez, exageram nas críticas, achando que são ouvidos. Não percebem que devem se limitar a analisar o que o jogador faz em campo, e só criticá-lo quando o que fazem fora tem reflexo em suas atuações. Quero mais é que o Neymar coma quantas maravilhosas puder. Que compre jatinhos e iates. E faça muitos gols.

E aí, quando aparece um jogador falando o que pensa, dando respostas diretas, sem bajular ninguém, e sem medo de ser criticado, é um escândalo. Por não pedir a benção, falam que é arrogante. Não percebem que estão diante de alguém que vai fugir das respostas comportadas e repetidas, do beijo na camisa – às vezes mais falso que encarada de pugilistas na hora da pesagem. Têm medo de que ele responda às críticas no mesmo tom – o que é saudável para uma convivência verdadeira.

Seja bem-vindo, Felipe Melo. E jogue bola para não merecer críticas. E que as façam quando assim não acontecer. Abaixo as bajulações e a mesmice!

26 comentários em: “Bem-vindo, Felipe Melo, o “marrento”. Abaixo as bajulações!

  1. Esse jogador é um desequilibrado, não duvido que deixe o Palmeiras na mão na Libertadores.

    Mas para a imprensa é, de fato, uma boa figura. Rende bastante…

    1. Joga mais do que todos que andam por aqui, juntos. Tem provado, jogando no Primeiro Mundo do futebol

    1. Para o futebol medíocre que está sendo jogado por aqui, tá bom demais…E, melhor, não fica bajulando a imprensa

    1. Exatamente isso, Djalma. Certo ou errado fala o que pensa, sem rodeios e sem falsidade. Tem jogador que posa de bonzinho e depois quebra a perna do adversário

    1. É verdade, têm muitos jogadores melhores que ele, se bem que não por estas bandas. E tem os que não falam o que pensam com medo de serem criticados. Ele abre o jogo, que receba as críticas que merecer…

  2. Torço por Felipe Melo, acho que ele acabou sucumbindo junto com aquela seleção de 2010! Se vier pra jogar bola, vai dar trabalho, se vier pra brigar também dará trabalho!!!

    1. Se você puxar pela memória, no jogo contra a Holanda, em 2010, o gol brasileiro nasceu em jogada dele. Quando cometeu a falta que terminou com sua expulsão, o resultado já estava feito. O goleiro Júlio César tomou dois gols porque tinha seus movimentos tolidos. Jogava com uma proteção forte em toa as costas, que o impedia de motimentos completos. Dunga teve medo de colocar Helton, o reserva.

    1. Não notei erros de português na entrevista dada por ele, mas também digo que não prestei total atenção nesse sentido. Como jogador, discordo que seja um medíocre – tanto que o Palmeiras foi buscá-lo pagando bem, e que outros times o queriam. Jogou em times importantes da Europa e na seleção.

  3. Por isto que não perco meu tempo vendo entrevista de jogador, tudo decorado e as perguntas dos repórteres também são sempre as mesmas e óbvias, sinceridade neste mundo virou artigo de luxo, por isto que enquanto não derem uma brecada neste cara vai ser o único que valera alguma coisa assistir a entrevista, uns arremedos de craques e já com assessores ridículos iguais a eles

    1. É isso. Falou sem medo de críticas e de peito aberto. Quando falhar, poderão criticá-lo que irá segurar a barra.

  4. Fantástico texto, mestre José Maria de Aquino! Realmente, parece que tudo virou uma coisa protocolar: tem a coletiva protocolar, bem no “Esquema Vampeta”: os repórteres fingem que perguntam, o jogador finge que responde e, ao final, todos saem com as obrigações cumpridas.

    Ainda bem que ainda existem Felipes Melos para escapar de forma!

    1. Valeu, Gabriel Rostey, e as pessoas nem imaginam quantas sonoras escutam hoje e que foram gravadas há uma semana, ou mais. Como nada dizem no dia, nada dizem uma semana depois. Só servem para encher espaço. Sabe a razão de muitos não gostarem do Ceni, jornalistas ou não, porque ele não engolia nada a seco. Peitava quando não concordava e…

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