Copa de 48 times: abrangência ou banalização?

Créditos da imagem: REUTERS/Arnd Wiegmann

É difícil dizer qual é a organização mundial que reúne mais países. Os números mostram que a Fifa tem cerca de 210 membros, poucos a mais que o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Organização das Nações Unidas (ONU), que estaria na casa dos 190. Os números variam por questões de relação dos países com as organizações e por mudanças geopolíticas. Independentemente das inexatidões dos números, podemos dizer que a Fifa, por ser monotemática, é muito mais abrangente que o COI, com suas dezenas de esportes, e a ONU, com sua importância política.

Como a ONU não organiza torneios, vamos deixá-la de fora da comparação. O COI reúne mais de 200 países nas Olimpíadas de Verão, em que são disputados dezenas de esportes. A Fifa, por outro lado, leva 32 seleções (cerca de 30% do total de afiliados) para as Copas. É pouco? Talvez. Mas se pensarmos que entre esses membros existem países em fase incipiente na qualidade de futebol, podemos considerar razoável. Afinal, se todos participam das eliminatórias, estão sendo parte das copas. O Mundial de Seleções é considerada a fase final de um grande torneio internacional.

Por isso, a proposta de elevar para 48 seleções classificadas à Copa a partir de 2026 é uma ideia a ser muito debatida. Estaremos sendo mais abrangentes e democráticos no futebol ou estamos às vésperas da banalização do maior torneio de futebol?

Pegando o mundo moderno, a Copa teve 16 clubes até 1978. Em 1982, subiu para 24. Em 1998, passou a 32. Agora, se pensa em subir para 48 em 2026. É natural que o número de times cresça na mesma velocidade que o alcance das imagens de TV, das mídias sociais e do intercâmbio de treinadores e especialistas. E a Fifa quer grana, e seus dirigentes querem sobrevivência. Os aspectos financeiro e político não podem nunca ser menosprezados.

Olhando de fora, a ideia de ter 48 times (pouco mais de 25% dos países afiliados) na Copa, sem aumentar os 32 dias de disputa do torneio parece razoável. Mas existem dados que quebram um pouco o encanto desse torneio tão importante para o mundo. Teremos times abaixo da crítica. Com futebol pobre, os países organizadores gastarão muito mais em logística, estádio e centros de treinamento. Vale a pena?

A gente quer ver a Copa por causa dos grandes craques mundiais. O aumento de times vai nos forçar a ver, ou desistir de ver, jogos de times muito fracos. Mas a população desses países vai ficar feliz de ver sua equipe disputando um torneio importante. E vai comprar mais PPV, camisas, viagens etc.

Quando esse aumento de times acontecer, as eliminatórias serão esvaziadas. A América do Sul, por exemplo, terá seis classificados diretos e um pela repescagem. Em um continente com dez países, será uma baba se classificar. E por aí vai.

Ficamos em um dilema: incluir e democratizar é excelente, mas reduzir a necessidade de superação é preocupante. Ainda mais se isso se der por interesse políticos.

Minha posição é a de se manter o critério atual de 32 times. A disputa da Copa do Mundo deve ser o ápice do futebol mundial. Até o Campeonato Brasileiro, que reúne 20 times, tem sempre meia dúzia sem condições de jogar em alto nível. Quem dirá o futebol mundial…

7 comentários em: “Copa de 48 times: abrangência ou banalização?

  1. Muito boa análise, Emerson Figueiredo! Olha, dos pontos que você levantou, o que me preocupa é só a desmoralização das Eliminatórias.

    Acho que, em geral, a imprensa tem o costume de ser contrária a mudanças. Lembro que quando aumentaram para 32 seleções na Copa a crítica era parecida. Penso que o problema é só com o aumento de vagas para a Concacaf mesmo. Porque várias vezes já aconteceu de o campeão africano sequer se classificar para a Copa, por exemplo.

    Acho mesmo que, em geral, “não tem mais bobo no futebol”, e que a competitividade não vai ser muito alterada. Enfim, sou favorável à mudança 😉

  2. Vejo ainda outra questão, mais do ponto de vista econômico do que técnico, tema este que o Emerson abordou de forma ampla. Todos acompanhamos as polêmicas envolvendo a construção das chamadas “arenas padrão Fifa”, que consumiram milhões e hoje encontram-se subutilizadas. Com 48 seleções, os custos serão ainda maiores e o retorno cada vez mais duvidoso, levando-se em conta a vulnerabilidade das nações em montar estruturas de segurança capazes de garantir um clima de paz no torneio. Com 48 seleções, poucos países se mostram aptos a sediar uma competição deste porte, que exigiria ainda um período maior que o atual. Mas, já que o presidente da Fifa assim determinou, que tal começar pela Suíça, sua terra natal?

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