Desculpe o transtorno, preciso falar do Tite

Créditos da imagem: Reuters

(Carta fictícia de um clube a seu ex- treinador, baseado no artigo de Duvivier para a Folha, no dia 13/09)

Conheci-o em Porto Alegre. Essa frase pode parecer que há uma paisagem bonita ao fundo, com o rio Guaíba, num restaurante ou num barzinho das principais ruas da cidade. Mas Porto Alegre, em questão, pegava fogo: era aquela cidade em que chegamos em 2001 para disputar a final da Copa do Brasil – onde eu era a visita dele, mas cheguei botando os pés em cima da mesa. Todo o Brasil olhava para o Rio Grande do Sul naquele dia e eu estava lá! Não vou me esquecer nunca: depois de abrirmos 2×0, cedemos a ele o empate.

Eu vesti preto; ele, azul. Quando eu achei que seria campeão, ele acabou com a minha festa. Quando enchi o estádio do Morumbi, ele o calou. Quando escalei meus melhores jogadores, ele os anulou. Cabelos ainda meio negros, não ficava claro que faria tanta diferença  na minha história.

Perdemos contato. Três anos depois eu estava passando por uma fase difícil e ele surgiu para me ajudar. Me tirou do inferno e me pôs no céu – ou quase no céu. Fato que eu estava sendo rebaixado e ele me deixou em 5º lugar, quase beliscando uma vaga para libertadores.

Não foi exatamente um namoro, porque quatro meses depois novamente nossos caminhos se distanciaram. Ele foi embora, mas disse que um dia voltaria pra fazer sucesso: parecia então, que a nossa vida estava apenas começando ali. Vi-o treinar o rival, sem muito sucesso, também o vi fazendo viagens no exterior, sendo feliz em Porto Alegre, dessa vez de vermelho, Já eu? Passava pelos piores momentos de minha vida.

Até que um dia ele voltou. Injusto, eu ainda suspeitava muito dele, pois não o via como o parceiro ideal pra quem havia se recuperado de seu calvário e agora estava no topo do Brasil. Ainda tinha lembranças de suas escalações controversas e do jeito conturbado de ter ido embora: eu não queria mais problemas.

Sofremos – e muito – no começo. Não foi fácil. Por um fio não nos separamos novamente apenas seis meses depois. Onde eu estava com a cabeça? Escolhi seguir. Foi a melhor decisão de minha vida. Digo que com ele, nos anos seguintes, fui feliz como nunca. Conquistei a América, invadi o Japão, dominei o mundo. Era um orgulho olhar para o banco e vê-lo ali, observando ou gritando, sorrindo ou chorando. Aprendi com ele que felicidade não se sublinha no Word nem em lugar nenhum.

Mas um dia ele se foi. Eu não quis aceitar, esperneei, rompi com quem o tirou de mim, mas não adiantou. Semana passada o vi pela primeira vez sendo feliz em outro lugar. Achei que não fosse resistir, mas vivemos tão bem juntos que meu sentimento foi de felicidade e de gratidão pelo momento mais vitorioso da minha vida. Hoje volto a ir mal, não vou negar. Não estou bem acompanhado, pois todo mundo odeia o Cris – inclusive eu. Então, sigo de braços abertos, pois o importante é saber que fizemos a melhor dupla desta década.

Paulista, Recopa, Brasileiro, Libertadores e Mundial. Não faltou nada!

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