Do Coliseu Romano às grandes e pequenas “arenas futebolísticas”

Créditos da imagem: Montagem/No Ângulo

Nas vezes que estivemos em Roma e passamos pela região do Coliseu, minha mulher se negou a entrar. Sua explicação é que ouve o grito da multidão pedindo pelo sacrifício dos cristãos, o rugir de dor dos leões abatidos e, olhando para onde ficavam as tribunas, ainda pode ver os reis e suas acompanhantes, vassalos, puxa-sacos, sorrindo e brindando pelo entusiasmo da turba por eles exploradas. Sempre tentei demovê-la dessa ideia, mas sem sucesso.

De alguma forma, acho que é também por isso que ela não gosta – se foi duas vezes, e nem me recordo, foi muito – de ir aos estádios de futebol, em jogos chamados de grandes, decisivos, com torcidas dos dois lados oferecendo um banquete de ofensas, atirando pedras e paus e, não raramente partindo para a briga, ferindo uns aos outros, matando-se. Se digo, então, claro que brincando, que por mim tiraria o policiamento, deixando que se matassem, ela fica brava. “Onde está seu princípio cristão”?

Percebem que há uma certa semelhança? Os cartolas e seus “puxa-sacos” nos confortáveis camarotes, pelos quais nada pagam, servindo-se de belos vinhos, uísques, bons quitutes, refrescos para filhos e filhos de seus convidados, os futuros cartolinhas. A multidão esfolando-se nas arquibancadas – ou pagando altos preços por lugares mais confortáveis – nem sempre sabendo para onde vão os milhões de reais. E no gramado os craques, entre estes, sim, alguns bem remunerados, como eram os grandes vencedores na arena do Coliseu, que ganhavam a liberdade e deixavam de ser escravos.

Houve tempo que, entre os atuais, se via senhores realmente apaixonados por uma agremiação. Davam parte de seu tempo, seu prestígio, seu trabalho e recebiam como pagamento o prazer de ver o time vencer, às vezes ser campeão. Mas isso foi bem lá atrás. De uns 50 anos para cá, não todos, mas boa parte, já recebiam em algumas coisinhas em troca. Vinham seus escritórios ou consultórios mencionados sem qualquer ônus pela imprensa. Elegiam-se vereadores, deputados, ganhavam cargos de secretário… Eram chamados de doutores, sem nunca terem frequentado uma faculdade e viraram, no mínimo, comendadores.

Alguns gostavam de falar do “sacrifício” que faziam, abandonando seus negócios, sua família etc, mas jamais “largavam o osso”. Diziam enfiar a mão no bolso e fazer doações ao clube – uma grande mentira. Tinham, isso sim, alvará da senhora para chegar tarde em casa, “porque a reunião se alongou”. Deus estava vendo.

Hoje a maioria já não se preocupa em dar desculpas. Muitos passam o dia inteiro no clube, e já não reclamam dos “prejuizos”. Embora não sejam remunerados. Sim, não são apenas os presidentes. Quando alguém coloca alguma dúvida em suas ações, gritam, ameaçam, processam. Mesmo os que, por descuido ou exagerada confiança, deixam suas impressões digitais. Vai da Fifa, passa pelas Confederações, Federações e chegam nos grandes e pequenos clubes. Não há necessidade de enumerar aqui. Estão em toda parte. a.C e dC.

 

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2 comentários em: “Do Coliseu Romano às grandes e pequenas “arenas futebolísticas”

  1. É a espetacularização do confronto, que como mostrado, não é privilégio desses tempos, que são apenas mais profissionais, regrados e com menos glamour do que na Roma Antiga rs

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