E se nunca tivéssemos tido pontos corridos?

Créditos da imagem: "Homens jogando dados", de Giuseppe Recco. Coleção do Conselho Municipal de Abingdon, Reino Unido.

A imprensa esportiva vem nos informando já há algum tempo que a maioria dos clubes da primeira divisão quer acabar com os pontos corridos. Existem dois argumentos centrais pelo fim deste sistema: não há emoção e não há público. O segundo seria uma consequência do primeiro. Eu tendo a concordar que muitas vezes no campeonato de pontos corridos falta emoção na disputa pelo título, que não é a única disputa do campeonato. O argumento de que os pontos corridos geram públicos menores é mais controverso, e pretendo falar deste assunto em alguma coluna em breve. Aqui só farei um exercício de imaginação.

Aparentemente, dentre as inúmeras fórmulas que brotaram, a que é mais popular entre os clubes é uma do Grêmio. Nela, os quatro primeiros colocados dos pontos corridos iriam para a fase de mata-mata. Então me lancei a pergunta, e se esta fórmula já existisse desde 2003? Obviamente, não é possível saber quais seriam os resultados. Fiz, então, uma simulação. Considerei que os resultados da fase de todos contra todos seriam os mesmos da fase de mata-mata. É claro que de maneira nenhuma isto é uma previsão exata do que aconteceria. Mas, considerando-se todos os anos disputados, serve como uma interessante simulação para entender os efeitos deste tipo de disputa. E é divertido. Ao time de melhor campanha foi dada a vantagem no caso de igualdade de gols.

Então, o que aconteceria neste universo paralelo?

A primeira coisa a se notar é que, não surpreendentemente, ser primeiro nos pontos corridos está longe de garantir título no mata-mata. Em apenas 5 dos 12 anos (41,7%), o campeão seria o líder dos pontos corridos. E não pense você que foram aquelas equipes que terminaram na liderança com vários pontos de vantagem. Nem o Cruzeiro de 2003, nem o Cruzeiro de 2014, nem o São Paulo de 2006 e nem o São Paulo de 2007 teriam ganhado o título. Apenas o Cruzeiro de 2013 teria confirmado sua ampla superioridade com uma vitória no mata-mata.

Como alguém poderia imaginar, o mata-mata causaria uma maior pulverização de campeões. Se os pontos corridos em seus 12 anos geraram seis campeões diferentes, o mata-mata nestes mesmos 12 anos teria gerado oito campeões diferentes. Inclusive equipes sedentas de títulos brasileiros, como São Caetano (teria sido campeão em 2003), Palmeiras (2004) e Atlético Mineiro (2012). O Cruzeiro seria a equipe mais prejudicada, só teria um título em vez de três. E o Flamengo estaria agora sofrendo um jejum de 23 anos sem título brasileiro.

A maior pulverização em termos de campeões, no entanto, não resultaria numa maior pulverização geográfica. Assim como nos pontos corridos, teríamos apenas campeões dos três maiores estados do sudeste. Ou seja, não é a abolição dos pontos corridos que vai fazer que tenhamos clubes de estados alternativos como Vitória, Sport ou Goiás ganhando títulos. De fato, primeiro é preciso ficar entre os quatro primeiros. E nestes 13 anos somente em três ocasiões equipes de fora do eixo RS-SP-RJ-MG  conseguiram isto: Atlético PR (2004 e 2013) e Goiás (2005).

Esta simulação levanta algumas questões interessantes. Por exemplo, a falta de emoção na disputa por títulos provoca chamados pelo fim dos pontos corridos. Mas, uma vez estabelecido o mata-mata, uma clara sensação de injustiça poderia provocar pedidos no sentido inverso. A  hipótese de um time terminar os pontos corridos mais de 10 pontos na frente do segundo e pôr tudo a perder por causa de dois jogos é um tanto perturbadora. Tudo bem, na Libertadores, na Copa do Brasil, na Copa do Mundo, tampouco há garantias de que o melhor vença. Mas a diferença é que nestas competições a melhor equipe não é exposta de forma tão óbvia, para todos verem, como ocorre nos pontos corridos. E então não há tamanha sensação de injustiça.

Eis quais seriam os campeões, com a posição em que ficaram nos pontos corridos entre parênteses:

2003: São Caetano (4)

2004: Palmeiras (4)

2005: Corinthians (1)

2006: Santos (4)

2007: Fluminense (4)

2008: São Paulo (1)

2009: São Paulo (3)

2010: Fluminense (1)

2011: Corinthians (1)

2012: Atlético Mineiro (2)

2013: Cruzeiro (1)

2014: Corinthians (4)

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