E se o Brasil perder a Copa?

Créditos da imagem: Extra Online

Depois de ser vice-campeã mundial em 2002, a Alemanha decidiu mudar seu futebol. Arrogância? Não. Autocrítica. Sabiam que o resultado foi a raspa do tacho de um futebol superado. Mudou a base. Mudou a filosofia. Levou doze anos, mas valeu a pena acreditar. Neste período, o campeão de 2002 teve idas e vindas, normalmente ao sabor do sermão de seu locutor mais conhecido. Trabalhos diametralmente opostos tiveram fins mais ou menos constrangedores. Enquanto a Alemanha chega à Rússia renovada, porém de conceito mantido, a Seleção Brasileira não terá sequer dois anos de preparação sob a batuta de Tite. Ainda assim, comprovando como o futebol brasileiro (não o praticado no Brasil) segue sui generis, é uma das favoritas. Mas e se não ganhar? Vai mudar tudo de novo?

Como disse em coluna anterior, nem mesmo o desastre do Mineirão provocou uma visão racional a respeito. Foi-se mais meio ciclo de negação. O Brasil é como um carro de F1 que chega muito rápido à Rússia, mas sem testes suficientes para saber se o desempenho será o mesmo em todas as pistas. Só enfrentou uma seleção europeia, ainda assim desfalcada de seus dois melhores jogadores. Reencontrará a Alemanha em amistoso, sem Neymar. Mesmo que ambas fossem completas, naturalmente esconderiam jogo. Não é mais hora de mostrar tudo ao rival. Sendo que o que já mostrou nas eliminatórias está sendo analisado. Todos já sabem que a armação é feita por um jogador que sai da direita, pois Paulinho não arma e Renato Augusto tem que se preocupar mais em cobrir os avanços de Marcelo. Antídotos estão sendo planejados, sem que haja tempo para treinar outras alternativas.

Neste contexto, preocupa mais um estardalhaço em cima de Neymar, desta vez por conta da cirurgia. Como se o camisa 10 inteiro fosse garantia de alguma coisa. Não é. Assim como Messi não é garantia na Argentina, nem Cristiano Ronaldo em Portugal. É cada vez mais improvável que uma Copa do Mundo seja vencida por uma seleção multidependente de um protagonista. Este jogador normalmente terá vindo de uma temporada desgastante, disputando mais de um campeonato forte até o final. Terá menos de um mês para buscar mais energia. Isso numa competição em que o vencedor terá sete jogos num mês. Por isso não vemos um destaque assombroso há algumas Copas. Seria diferente se a Copa do Mundo fosse jogada no meio da temporada europeia. Mais arrancadas, mais brilho individual. Como não é, o jogo coletivo é primordial, sendo o protagonista um plus.

Ainda que Neymar jogue e o Brasil encontre soluções para as últimas dúvidas de Tite, há adversários muito bem preparados e também com talentos. O clima influirá, como aconteceu por aqui. Sob temperaturas altas, surgem espaços que até seleções menores podem aproveitar, como a Costa Rica no grupo da morte de 2014. A eliminação é indesejada, porém sempre possível. Se ocorrer, surgirá o pior dos medos: repetir-se a histeria de que nada deu certo. Teríamos o velho show de asneiras, com sumidades se revezando em declarações taxativas. “Tem que levar só jogador que atua no Brasil!”; “Chega de frescura tática!”; “Por que não levou o fulano que arrebentou no Paulistão?”, etc… Pra fechar, o meu favorito: “Mais uma vez, perdemos pra nós mesmos!”. Isso porque arrogantes são sempre os outros. “Nóis é tudo humirde…”, certo?

O processo de restauração de um futebol competitivo, com preenchimento de todas as funções, não está completo. O que o Brasil tem já o torna favorito, mas há lacunas cujo eventual preenchimento pode deixar a seleção ainda mais favorita, na edição seguinte. Ainda carecemos de zagueiros acostumados a jogar quase na linha do meio-campo. Preferem atuar perto da própria área, o que complica a marcação alta da equipe. No meio-campo, temos ótimos volantes e meias-atacantes (que jogam abertos), mas falta um armador centralizado – que pode vir a ser Coutinho, se suceder a Iniesta no Barcelona. O ataque tampouco escapa. Só temos um atacante aberto (Neymar) e dois centroavantes (Jesus e Firmino) de primeiro nível. Para um país em que se cultua o jogo ofensivo, isso só se explica pelo atraso que não deixou de imperar na formação de jogadores. É preciso ir adiante com tais correções.

Já me disseram que vejo tudo errado no Brasil. Enxergar coisas erradas não é dizer que nada está certo. Mas ficar ressaltando as coisas certas só tem escondido as erradas – que seguem muitas. O pouco feito desde 2014, nas mãos de um técnico capaz de executar as atualizações, já representou um salto evolutivo. Esta evolução não pode ficar sob risco. Não apenas em caso de derrota, como de vitória. A inesperada – e justa – conquista de 2002 teve efeito colateral indesejado. Convencionaram que, com o mínimo de organização, nossos craques seriam sempre suficientes para vencer. Ganhando ou perdendo em 2018, é hora de jogar essa arrogância no lixo.

14 comentários em: “E se o Brasil perder a Copa?

  1. Pensando rápido, e sem ter vivido para saber exatamente, tenho a impressão que as únicas vezes em que perdemos uma Copa e lidamos aceitavelmente com a derrota foram em 78 e 82, pode ser? Em 78 inventaram aquilo de “campeão moral”, a culpa foi jogada no Peru e no Quiroga e a vida seguiu. Já em 82 foi aquela tragédia, tiraram os méritos da Itália (que jogou melhor do que o Brasil naquela partida), mas não houve caça às bruxas e nem jogaram todo o trabalho fora dizendo que estava tudo errado, não?

    1. Sim. Vdd. E a prova de que a seleção vice campeã de 50 tava no caminho certo foi a quantidade de títulos:
      Campeã sulamericana 1949
      Vice Campeã do mundo 1950
      Campeã do mundo 1958
      Campeã do mundo 1962

    1. Muita coisa deveria ser mudada no futebol brasileiros. A começar pelos Estaduais, que ou deveriam ser sub-23 ou deveriam ser a Série E. Mas o problema chama-se política. É o câncer das federações estaduais…

    1. Futebol brasileiro precisa de renovação. Parece clichê mas é a verdade. Até a velha seleção inglesa percebeu isso e atualmente os clubes apostam mais nas categorias de base.

  2. Mataram o futebol brasileiro com o pragmatismo do Sr. Parreira, essa é a verdade, mas ninguém tem coragem de falar. Aquela Copa de 94, foi a mais fraca que eu vi, só se salvou a genialidade de Hagi. A final entre Brasil e Itália foi uma das mais chatas de todas. Parreira acabou com os meias e encheu o time com volantes e o resultado foi que os times passaram a adotar esse futebol burocrático desde a base e a partir disso os meias habilidosos, marca registrada do nosso futebol, foram cada vez mais raros. Isso se reflete nos clubes com treinadores sem proposta de jogo e mais preocupados em manter seu cargo em troca de um futebol defensivo e sem imaginação, o futebol brasileiro está na UTI desde 1994…. E vive da genialidade rara que aparece de vez em quando. Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Neymar….

  3. Tite (corinthiano teimoso e “enrustido”) e Edu Gaspar (grande Puxa-Saco). O que podemos esperar? Ainda bem que desisti de torcer para o Brasil.

  4. Arrogância só da imprensa esportiva brasileira. Temos uma boa seleção que esta na média das demais. E outra, copa do mundo é um tormeio nem sempre vence o melhor , que diga 1982. Depende de como se começa , se o encaixe for feito na competição e o Brasil tiver confiança , hexiste a possibilidade de ser campeão. Simples assim

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