Eliminatórias acabaram. Ufa!!! Acabou a temporada de abobrinhas sobre Messi

Créditos da imagem: Eurosports

Ele não é argentino. Ele não tem o espírito de Maradona. Ele não dá carrinho na lateral pra mostrar que tem raça. Ele não faz média com torcida. Só faltou dizerem que não é bonito como Cristiano Ronaldo ou que pegou menos mulheres que Neymar. Tudo porque a pior seleção argentina corria sério risco de ficar fora da Copa do Mundo. E o crucificado seria justamente o que carregou o time nas costas, contra tudo e todos – incluindo a ruindade dos colegas e a histeria da crônica esportiva de seu país.

Comenta-se que Lionel Messi não joga nada pela seleção. Imaginem se jogasse. É seu maior artilheiro, incluindo Eliminatórias. Isso sempre sendo muito mais sugado que favorecido numa equipe que segue praticando futebol de museu – no mau sentido do termo. Laterais que atacam mal. Volantes que só destroem. Atacantes talentosos, mas que despencam quando não atuam num time que jogue em sua função. Messi também sofre, se compararmos com seus números no Barcelona. Mesmo assim, é uma desonestidade dizer que não produz. O seu “jogar menos pela seleção” seria desempenho antológico em 90 % das outras equipes nacionais. Sua “culpa” é ter escolhido atuar pelo país onde nasceu. Tivesse preferido ser espanhol e teria no mínimo uma Copa, além de números provavelmente similares aos obtidos no Barcelona. Mesmo porque seriam quase os mesmos companheiros. Quase covardia.

Infelizmente, cada vez mais a análise individual se baseia em títulos que não dependem apenas de um atleta. É o que detesto no culto aos “protagonistas”. Não que eles não existam, mas é uma ignorância colossal imputar-lhes todo o sucesso ou fracasso, num esporte em que pelo menos mais dez precisam jogar. Minha geração viu Michael Jordan ser o Pelé do basquete, esporte com cinco em quadra. Pois ele passou os primeiros anos sendo questionado por não chegar às finais da NBA. O que fez seu clube? No lugar de explorar seu protagonista até o bagaço, montou um elenco de apoio. Trazer Pippen, Grant, Rodman, entre outros coadjuvantes de brilho, elevou o destino do maior de todos. Não é o que acontece com o futebol argentino, destroçado por dentro e por fora. Um país em que Centurión chega a ser considerado craque. “Say no more”, diria Charly Garcia, gênio e louco do pop vizinho.

Outro azar de Messi é que os argentinos acreditam que Maradona, em 1986, foi exceção à regra e ganhou uma Copa sozinho. Não foi bem isso. Havia colegas de qualidade e uma forma de jogar que beneficiou o camisa 10. Antes desta organização, seu fato mais marcante com a camisa azul e branca era o chute no estômago de Batista, em sua primeira Copa do Mundo. Maradona foi disparado o melhor do bicampeonato mundial, mas isso não significou que o resto do time fosse fraco. A lenda superou a realidade e os sucessores do “pibe” pagaram o preço. Diversos talentos foram queimados porque o parâmetro era inatingível – inclusive pelo próprio Maradona, que não mais repetiu a performance do México. Enquanto seguirem mandando o craque se virar, será uma frustração atrás da outra. É como a definição clássica de idiotice: fazer tudo sempre igual e esperar um resultado diferente.

Classificado para a Copa, Messi dificilmente a conquistará. Não há tempo para a Argentina consertar tantas besteiras e dar a ele o que merece. Nem por isso se tornarão plausíveis as baboseiras que golearam as críticas justas. Cobrança é uma coisa. Recalque é outra. Como se fosse preciso detoná-lo para enaltecer Cristiano Ronaldo, ou declarar que Neymar merece o troféu breguice da FIFA. É maravilhoso quando um gênio tem a carreira consagrada erguendo a Copa do Mundo. Mas não depende só dele e a eventual lacuna não torna menos maravilhosas suas conquistas. Títulos devem premiar o melhor time, não o melhor do time. Às vezes premiam ambos. Às vezes não. Por isso futebol não é literatura romântica. Tem mais a ver com tragédia. Como um tango.

16 comentários em: “Eliminatórias acabaram. Ufa!!! Acabou a temporada de abobrinhas sobre Messi

  1. Dos 3 o que mais mostrou tanto no clube como na seleção foi o Neymar. E a seleção argentina é boa sim o que tá estragando é a vaidade dos jogadores entre eles msm.

    1. Veja posição por posição e diga como a Argentina pode ser considerada boa. Os jogadores acima da média atuam nas mesmas funções e não encaixam juntos. Não tem um armador que preste (tanto que Sampaoli inventou Messi recuado contra Uruguai e Venezuela). Os laterais eu juro que não queria nem no SPFC. Mascherano é um volante em desuso e, como zagueiro, perdeu a velocidade que compensava a falta de altura. Os jogadores do futebol doméstico, nem se fala. O que é aquele Benedetto? Só rende piada. Neymar é o que está em melhores lençóis. A geração já tinha se firmado na Europa e, com Tite, também rende na seleção. Só pra lembrar: há um ano atrás, era o Brasil que estava numa fria e era Neymar que era o mais questionado na seleção.

  2. Cristiano Ronaldo conseguiu sua maior conquista na seleção num campeonato em que só jogou bem numa partida, na semifinal. Sequer conseguiu atuar na final. Isso não o desmerece, mas mostra como futebol não é jogo de um só. Os números de Messi são fora-de-série inclusive na Argentina. O que faltou? Um título. Não só para ele. Para a Argentina. Lembra quando este jejum começou? Logo depois da surra que tomaram da Colômbia, em 1993. Aquilo, somado à sombra de Maradona (que inclusive voltou em 1994 e teve mais um caso de doping), virou um inferno pra qualquer um dos que vieram. Nem os brasileiros pós-Pelé sofrem tanto com isso. Aliás, você é santista e talvez saiba o número de asneiras que foram ditas sobre o maior jogador de todos os esportes depois da Copa de 1966, a ponto de ele quase largar a seleção. Neste ponto o luso tem uma grande vantagem. Euro é o limite de sua seleção. Ninguém dirá que fracassou se Portugal não passar das quartas-de-final. Se disserem, também serão uns idiotas.

    1. Muito bem posicionado e orientado por Sampaoli? Ele foi um desastre nestes jogos. Contra o Peru fez lambança desde a escalação até as alterações, a ponto de colocar um lesionado e ter que tirá-lo em seguida. Foi um começo de trabalho tão decepcionante que fez Bauza parecer menos ruim. Espera-se que, com mais tempo e sem a pressão toda, melhore a equipe. Mas é difícil. Pense numa equipe com Messi, Dybala, Aguero e Higuain. Time pra ir longe, não? Não. Como nenhum deles participa ativamente da marcação em seus clubes, a tendência é que seja uma equipe que defende apenas com seis, Uma avenida que, dependendo do grupo em que cair, não passaria da primeira fase na Copa.

  3. Outra coisa: porque tem que haver o “Piquet x Senna”, “Hortência x Paula” em qualquer análise de jogador? Pra mim, esse é um dos grandes vícios de comunicação nos debates esportivos. No caso das jogadoras de basquete, elas mesmas admitem que atrapalhou a performance de ambas e que só foram campeãs quando decidiram que era Hortência E Paula. É possível elogiar um sem relativizar ou diminuir o outro.

  4. Uma andorinha voando sozinha não faz verao. Ou seja o Messi com esse Timeco horroroso dá Argentina não vai ficar campeão. Pronto e acabou. Nem o tal do Cristiano Ronaldo. Menos ainda.

  5. Só pra completar: não estou dizendo que não haverá uma lacuna na carreira de Messi sem uma conquista pela Argentina. Lógico que haverá. Mas isso justifica os comentários sobre ele não ser argentino, não ter o espírito de Maradona e, pasmem, até de não ser um jogador decisivo? Não. Vejo mais que crítica em certos comentário que li por aí. Vejo uma estranha raiva. Por ser argentino? Por haver quem diga que é mais que Pelé (não é e não será)? Não sei. Mas não precisa disso.

  6. Em tempo final: vejam o que Tostão falou sobre Messi antes da partida de terça. “Desde a Copa de 2014, Messi comete um frequente erro, o de tentar jogar coletivamente, como se estivesse no Barcelona. Ele dribla um, dois, todos correm para marcá-lo, deixa os companheiros na cara do gol, e nada acontece. Se ele tentasse começar e terminar os lances, os resultados poderiam ser melhores.” Um dos comentários mais felizes do ex-jogador e constante ganhador do Troféu Minha Avó Não Faria Melhor (que o FOMQ dá ao melhor da mídia esportiva, em contraste com o Troféu Até Minha Avó Faria Melhor, dado ao pior dos piores).

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