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Entrevista: Bom Senso aponta falta de iniciativa da CBF como obstáculo à reforma do futebol brasileiro

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Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Em entrevista exclusiva ao No Ângulo, diretor do movimento fala sobre a MP, CBF, ligas e o futuro do futebol no país. 

Para estrear o espaço para entrevistas do No Ângulo, o escolhido foi Ricardo Borges Martins, Diretor Executivo do Bom Senso Futebol Clube. Ocupando uma posição-chave neste momento em que a Medida Provisória 671 – a chamada MP do Futebol – foi aprovada no Congresso e sancionada pela presidente Dilma Rousseff, o sociólogo de formação esclarece mais sobre o revolucionário movimento fundado oficialmente em 2013 e os caminhos para o nosso futebol. Confira:

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Deputados Romário e Otávio Leite, Alex e Ricardo Borges Martins, em reunião na Câmara. Foto: Ed Ferreira/Estadão

 

No Ângulo – Sobre a MP do Futebol, após as alterações no Congresso e a Sanção Presidencial, o texto final agradou o Bom Senso?

Ricardo Borges Martins – Não foi ideal, mas foi um grande avanço.

 

Vocês acreditam que os clubes vão cumprir tudo o que foi determinado pela lei? E o que acham que vai melhorar para os jogadores com ela?

Se não cumprirem, serão punidos como o previsto pela própria lei.

Nossa intenção não é apenas beneficiar a categoria dos jogadores; defendemos um futebol melhor para todos. Estamos pensando na indústria como um todo. A MP vem para regulamentar todo o setor.

O grande benefício é ter clubes bem geridos que paguem suas contas em dia, com seus funcionários e com o governo.

 

Quando o Bom Senso surgiu, em 2013, a impressão era de que os jogadores iriam bater forte de frente com CBF e federações até que as mudanças pedidas fossem atendidas. No começo, ameaçavam greve e tudo o mais. Isso não aconteceu e, ao mesmo tempo, muito pouco foi atendido, como o aumento da pré-temporada (mas como o número de jogos não foi reduzido, o calendário ficou ainda mais espremido). Qual o motivo da desistência da luta franca e direta contra os dirigentes? Faltou apoio da maioria dos jogadores? Quem participava do movimento ficou com medo de não arrumar clube para jogar?

Nossa intenção nunca foi bater de frente com a CBF, mas sim apresentar soluções a problemas que a entidade teima em não enxergar. Com o tempo percebemos que tudo que dependia da CBF não andava, e tomamos a decisão de procurar outros fóruns de diálogo, outros caminhos para implementar nossas ideias. Foi assim que chegamos a Brasília.

Embora alguns jogadores tenham sofrido pressão pelo seu posicionamento, a questão não era medo, mas sim entendimento de que seria mais eficiente adotar outra estratégia.

“Com o tempo percebemos que tudo que dependia da CBF não andava, e tomamos a decisão de procurar outros fóruns de diálogo, outros caminhos para implementar nossas ideias. Foi assim que chegamos a Brasília.”

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Reunião do Bom Senso com a presidente Dilma Rousseff.  Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Ao mesmo tempo em que parece ter havido essa diminuição no confronto direto entre os atletas e os dirigentes, houve uma notável consolidação institucional do movimento: hoje é impensável alguma discussão séria sobre o futebol brasileiro sem a presença do BSFC. Como mostra disso, encontros com a Presidente da República e posições conjuntas com importantes clubes como Flamengo e Atlético Paranaense. Caso essa impressão esteja correta, o protagonismo dessa “institucionalização” foi planejado?

Sim. Sabemos que as mudanças que queremos no futebol vão requerer um esforço contínuo e planejado com a capacidade de criar alianças e parcerias de longo prazo.

 

Qual vocês pensam que foi a maior conquista do Bom Senso até hoje? E o maior erro estratégico?

A aprovação da MP é sem dúvida a maior conquista. E o maior erro foi acreditar que, apresentando propostas de reforma do futebol e mostrando as suas vantagens, a CBF entenderia e implementaria tais reformas.

 

Apesar das propostas de vocês serem tão fundamentais para o nosso futebol, não notamos uma grande cobertura da mídia esportiva em geral, que fica mais restrita a alguns veículos. Vocês entendem que a imprensa tem cumprido seu papel para o avanço dessas discussões?

Grande parte da imprensa esportiva é muito qualificada e crítica ao atual cenário do futebol. Muitos jornalistas sabem do potencial desperdiçado da indústria e colaboram muito para informar a opinião pública sobre as questões políticas e econômicas que envolvem o esporte. Porém, é também verdade que existe uma parte da imprensa que trata o esporte como entretenimento, e isso não é um problema. Há espaço para diferentes abordagens.

 

Uma das bandeiras do Bom Senso é a redução dos gastos com o futebol entre os grandes clubes. Nosso futebol já exporta muitos jogadores, e para centros cada vez mais periféricos. Essa redução não aceleraria ainda mais a fuga de talentos?

Não pedimos a redução de gastos. Defendemos que os clubes gastem o que têm, o que é diferente. A disciplina financeira e a gestão profissional do futebol tendem não só a aumentar o volume de recursos investidos no futebol por oferecer mais segurança aos patrocinadores, mas também a oferecer estímulos para a permanência dos grandes talentos no Brasil, uma vez que os trabalhadores terão garantias sobre o cumprimento dos contratos de trabalho.

O Brasil precisa competir com os outros países pela qualidade de seu campeonato. Ter um campeonato mais organizado, com calendário mais eficiente e estádios cheios é melhor forma de garantirmos a manutenção dos nossos principais talentos.

 

De fora, percebemos que os grandes nomes brasileiros que atuam no exterior continuam sem mostrar apoio ao Bom Senso ou qualquer outro tipo de engajamento para melhorar nosso futebol. Mas a entrevista do Daniel Alves para o Bola da Vez da ESPN parece ter sido um marco nesse sentido. Existe participação desses atletas e o público não fica sabendo? Caso não, vocês esperam que a partir de agora ocorra mais?

Já recebemos apoio de atletas atuando fora do país. Kaká foi um deles. Torcemos para que mais atletas, treinadores e torcedores se manifestem sim, isso sem dúvida fortalece o movimento. Esperamos que a declaração de Daniel Alves estimule de fato mais gente a se posicionar em defesa de reformas do nosso futebol.

 

Você acredita que os jogadores que miram a Seleção se sentem intimidados a declarar apoio ao Bom Senso?

Acho que a CBF já demonstrou por diversas vezes o entendimento que tem dos jogadores. A crença compartilhada entre aqueles que dirigem o nosso futebol é de que jogador tem que jogar futebol e ficar quieto. Não é à toa que demoramos tanto para conseguir garantir espaço para os atletas dentro da CBF, e ainda assim limitado aos comitês que decidem sobre os campeonatos. Em um cenário como esse, tudo trabalha para que o jogador não se posicione.

“Os dirigentes de clubes grandes sabem os prejuízos que têm, por exemplo, com os campeonatos estaduais; ao passo que os dirigentes de federações sabem o prejuízo que teriam para suas federações caso o campeonato estadual tivesse menos datas.”

Foto: Guilherme Prado/Bom Senso FC

Presidentes Bandeira de Mello (Flamengo) e Mário Celso Petraglia (Atlético Paranaense), e Ricardo Borges Martins. Foto: Guilherme Prado/Bom Senso FC

 

Neste ano, alguns clubes (especialmente do Rio e do Paraná) se posicionaram fortemente a favor da criação de ligas, tornando essa possibilidade muito mais real. E com a criação do Conselho Técnico da CBF, mesmo as competições da entidade serão administradas pelos clubes a partir de 2017. Devemos ficar esperançosos com essas mudanças, ou os dirigentes dos clubes muitas vezes não são assim tão diferentes dos das federações?

Dar mais poder aos clubes é sem dúvida benéfico à competição. A questão aqui não é nem o caráter dos dirigentes ou se há diferença entre cartolas de clubes e cartolas de federação, mas sim os interesses naturais que uns e outros têm. Os dirigentes de clubes grandes sabem os prejuízos que têm, por exemplo, com os campeonatos estaduais; ao passo que os dirigentes de federações sabem o prejuízo que teriam para suas federações caso o campeonato estadual tivesse menos datas.

 

Sabemos que o Bom Senso é fruto do engajamento e trabalho de muita gente. Mas como curiosidade, quem foi o pai da ideia, aquela pessoa que idealizou o movimento e começou a contagiar as outras para melhorar o nosso futebol?

Como os próprios atletas dizem, o movimento nasceu de forma muito espontânea, em uma conversa de gramado, na vontade de fazer algo pelo futebol brasileiro. Sabemos que Alex, Juan, Paulo André, Seedorf, Dida, Cris e outros atletas mais experientes foram as grande lideranças.

 

Após a conquista da MP, quais os próximos passos do Bom Senso?

Boa pergunta (risos). Temos alguns passos mais naturais, como a fiscalização dos critérios da MP, o acompanhamento da APFUT (Autoridade Pública de Governança do Futebol) e a continuação de algumas propostas que não entraram no projeto de lei final. Mas estamos também discutindo ideias novas. Vem coisa boa por aí…

“O que não podemos é achar que os problemas se resolverão por iniciativa da própria CBF. Infelizmente, a CBF não pertence à comunidade do futebol, mas sim a um pequeno grupo que se apoderou politicamente e não pretende abri-la a mais ninguém.”

Qual o recado que vocês gostariam de passar aos brasileiros que estão desiludidos com o futebol? Podemos ter esperanças de voltar a ser “o país do futebol”?

Para o Brasil voltar a ser o país do futebol, toda a comunidade do futebol precisa se engajar em torno de propostas de reforma: torcedores, dirigentes, jornalistas, atletas, árbitros, treinadores e patrocinadores. O que não podemos é achar que os problemas se resolverão por iniciativa da própria CBF. Infelizmente, a CBF não pertence à comunidade do futebol, mas sim a um pequeno grupo que se apoderou politicamente e não pretende abri-la a mais ninguém.

Protesto dos jogadores no São Paulo x Flamengo pelo Brasileirão 2013. Foto: Gazeta Press

 

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3 respostas para “Entrevista: Bom Senso aponta falta de iniciativa da CBF como obstáculo à reforma do futebol brasileiro”

  1. juliana disse:

    MENGAO DO LADO CERTO!!!!!!!!!

  2. Jocivar Arantes disse:

    dou os parabens aos idealizadores do movimento! precisamos de mais iniciativas do tipo no país

  3. Gabriel Rostey Gabriel Rostey disse:

    Eu sou total entusiasta do Bom Senso Futebol Clube. Creio que qualquer mudança positiva no nosso futebol passa pela atuação deles.

    E fiquei bem impressionado com a postura e a visão do Ricardo Borges Martins!


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Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Redator, repórter, pauteiro e editor-assistente da editoria de Esportes da Folha. Trabalhou também na Folha da Tarde, Agora São Paulo, BOL, AOL e UOL. Paulistano, acompanha de perto o futebol desde a época em que os camisas 10 dos grandes times paulistas eram Pelé, Rivellino, Gérson/Pedro Rocha, Ademir da Guia e Dicá.

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Jornalista há 19 anos, já cobriu Copa do Mundo, NBA, Nascar, Pan, Mundial de vôlei, Copa do Mundo de ginástica, Libertadores e as principais competições do futebol nacional. Começou no A Gazeta Esportiva, passou pelo site do Milton Neves, Agência Estado, Agora São Paulo, Terra, ESPN e está na TV Gazeta. A trabalho, conheceu 8 países, 18 estados do Brasil e mais de 100 estádios.

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