Especial: Elitização do Público nos Estádios de Futebol?

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Os preços praticados pelos novos estádios de futebol erguidos para a Copa do Mundo tem suscitado uma discussão sobre uma suposta elitização do esporte no Brasil. Partindo da premissa de que o futebol é um esporte do povo, ingressos elevados estariam elitizando o acesso aos estádios e levando as pessoas de mais baixa renda para a frente da TV.

Na análise a seguir apresentaremos uma série de dados e comparativos que nos mostrarão que sim, o valor dos ingressos de uma partida de futebol subiram bastante ao longo das últimas 4 décadas, mas nem por isso podem ser considerados como uma elitização do acesso ao estádios.

Além de uma questão de valor relativo à renda que mostra que não é impossível ir a uma partida, há salvaguardas como os modelos de Sócio Torcedores, áreas dos estádios com ingressos ainda populares, e uma dinâmica que mostra que nem todos os clubes passaram por isso, ao mesmo tempo que outros puxaram o preço do ingresso, seja porque seus estádios perderam metade da capacidade histórica, seja porque os modelos de negócios de praças mais modernas e confortáveis e seguras demandam preços superiores, mas longe de poder ser considerado elitizado.

Nem tudo é como parece
Qualquer análise financeira que se faça no Brasil baseada em dados históricos demanda uma série de ressalvas e cuidados. Somos um país economicamente instável, que atravessa períodos de bonança e profunda crise com a mesma facilidade com que Neymar se livra de seus marcadores. Mas diferente do craque da Seleção Brasileira, para transformarmos números de períodos muito longos em bases comparáveis, é preciso mais que a simplicidade de um jogo-de-corpo.

Para se ter uma ideia da dificuldade, entre o início da década de 70 e hoje, o Brasil teve 4 moedas diferentes – Cruzeiros, Cruzados, Cruzados Novos e o Real, considerando a URV como um mero indexador – e períodos de inflação que atingiam a casa dos 4 dígitos anuais. A cada mudança de moeda e novo plano econômico, cortavam-se zeros, congelavam-se valores e todos os preços relativos da economia ficavam completamente descompassados.

Isto significa dizer que qualquer comparativo entre algo que ocorreu em 1974, 1982 e 2017 precisa de bem mais que uma informação e um ranking para ser explicado. Se isto inclui como referência um bem ou serviço, daí a comparação carece de ainda mais dados e análises.

A partir daqui vamos fazer uma volta no tempo, trazendo algumas comparações que nos permitam analisar se o futebol brasileiro vem passando por um processo de Elitização do Público nos Estádios.

Bases para nosso ponto-de-partida: o que evitar
Vamos trabalhar o tema baseado nas matérias que circularam na imprensa brasileira sobre a possível elitização da torcida do Corinthians, cujo perfil do torcedor que vai ao estádio aparece como sendo de classe média e média-alta, em contraponto à ideia geral de que o torcedor do clube tem perfil de mais baixa renda.

Para análises como esta, que envolvem as questões e dificuldades apontados anteriormente, precisamos evitar algumas simplificações e realizar uma série de comparações.

A principal simplificação a evitar é a de reajustar o preço do passado, trazendo-o a valor presente, corrigindo por algum índice de inflação. Esta proposta tem mais valor quanto maior a estabilidade do País e da moeda. Num país com tantas trocas de moedas, congelamentos e ações que vão do confisco de boi gordo ao da poupança, esta simplificação perde o sentido. Ela vale bem quando falamos de uma mesma moeda ao longo de todo o período e quando analisamos números de característica “macro”, como Receitas Totais, por exemplo.

Ao tratarmos dados como valor médio de ingresso precisamos relativizá-lo. O preço de um ingresso, assim como de um tênis ou uma bola, sozinho, sem referência, diz pouco. Afinal, o que é caro ou barato? Como se mede isto? Dizer que uma bola custa R$ 10,00 não lhe caracteriza como cara ou barata. Agora, se dissermos que a bola custa R$ 10,00 e um carro custa R$ 100,00, já começamos a ter a real dimensão dos preços. Mas ainda assim, falta uma referência: qual a renda que serve os dois produtos?

Preço relativo. Preço versus Renda. Aqui começamos a mudar a forma de analisar os dados de consumo em análises de longo prazo.

Em análises de longo prazo precisamos também contextualizar a situação. Não deveríamos, por exemplo, comparar espaços com capacidade diferentes, com qualidades diferentes, com ofertas de serviços diferentes. Por exemplo, como comparar o valor de uma diária numa pousada de interior com o valor de um resort pé-na-areia numa paradisíaca praia do Nordeste Brasileiro?

Bases para nosso ponto-de-partida: o que buscar
Se temos que relativizar e comparar comparáveis, logo, precisamos das referências.

Quando falamos de preço de ingressos para jogos de futebol, uma das formas de analisá-lo é o comparando com a renda disponível na época. E a melhor referência de renda disponível em qualquer época, é a medida de Salário Mínimo.

Desta forma, o que seria recomendável fazer é relacionar valor do ingresso com valor do Salário Mínimo. Em outras palavras, quanto um ingresso médio de futebol onerava o salário mínimo da época? Isto é uma medida de comprometimento de renda e deveria ser uma referência para qualquer ação de consumo, a despeito dos estudos de Richard Thaler, Nobel de Economia de 2017, que versa sobre comportamento do consumidor e a maneira como decide o uso do seu dinheiro.

A partir daqui faremos algumas avaliações utilizando um histórico de valor de ingresso do Corinthians ao longo do tempo, como forma de verificar se há, de fato, uma elitização do futebol. Além disso, faremos comparações entre diferentes estádios, com detalhamentos sobre a Arena Corinthians e um comparativo com o São Paulo FC.

Desta forma, esperamos verificar algumas hipóteses: os preços relativos dos ingressos não subiram quando comparados ao salário mínimo de referência; diferentes estádios, com capacidades diferentes e estruturas de conforto diferentes, geram diferença de preços; a qualidade do espetáculo também interfere no preço; e uma pergunta: se o Corinthians elitizou, o São Paulo popularizou?

Corinthians: tabela histórica

Na tabela acima temos uma série de jogos protagonizados pelo Corinthians entre 1974 e 2017. Além do jogo, há também o estádio onde foi realizada a partida, o Tícket Médio em moeda da época – anotada ao lado – e o valor presente deste Tícket Médio corrigindo-o pelo IPC.

Dois aspectos já merecem atenção: i) a enorme distância entre os dados mais antigos e os preços mais novos – o que se explica claramente pelas diferenças de moedas citadas anteriormente – e; ii) a forte oscilação de preços no período do Real, notadamente mais baixos quando jogam no Morumbi e mais elevados quando jogam em estádios menores, como Pacaembu e Arena. E isto sem considerarmos a relevância da partida.

Por esta tabela, imagina-se que o preço dos ingressos nas décadas de 70, 80 e 90 eram substancialmente mais baratos que a partir do final dos anos 2000. Mas não dá para afirmar isto sem perguntar: qual a renda da época? Sem a renda, a comparação fica incompleta.

Então vamos comparar os valores dos ingressos na moeda da época com o salário mínimo na mesma referência. Ou seja, para um jogo de 1074, o valor do ingresso foi comparado ao salário mínimo referência de 1974, e assim sucessivamente.

Aqui já começamos a ver algumas coisas de forma mais clara. Em 1974 o torcedor comprometia 5,1% do salário mínimo para comprar o ingresso em questão, mas em 1990 era necessário 11,9%. Quando comparamos o valor do ingresso na final do Paulista de 2017, vemos que ele comprometia 6,5% do salário mínimo. Ou seja, ainda que em valores reais o ingresso de 1990 representasse metade do valor de 2017, ele consumiu praticamente o dobro do salário mínimo na época.

Quando comparamos a média do Brasileiro de 2016 com os demais anos, vemos que ela não foge de maneira relevante de nenhum dos anos, exceto por 1977 e 1988. Ou seja, em termos relativos, os preços dos ingressos atualmente praticados pelo Corinthians não mostram uma tendência de elitização.

A análise do percentual de comprometimento da renda com o ingresso de uma partida de futebol mostra que não há, necessariamente uma elitização no público. Ou melhor, o valor do ingresso não consiste num meio que permite dizer que a partir dele o futebol está sendo elitizado.

Por exemplo, utilizando o percentual de comprometimento de 1974 (5,1%) e aplicando sobre o salário mínimo de 2017, o preço do ingresso seria de R$ 48,00, ou seja, apenas R$ 13,00 mais barato que a média praticada hoje.

E exceto por 1977 e 1988, em nenhum outro a diferença é superior a R$ 20,00. E aqui entra outro aspecto: a qualidade do palco e a experiência do torcedor. Impossível acreditar que o Morumbi com 120 mil pessoas apresentava a mesma experiência de conforto e segurança que a Arena Corinthians apresenta hoje. Isto para uma diferença, na média, de R$ 23,00 ou 2,5% do salário mínimo.

Arena Corinthians na História

Aqui fazemos uma comparação entre o público da Arena Corinthians na final do Campeonato Paulista de 2017 com os jogos apontados na tabela anterior.

Vemos que do total de área disponível no estádio, 41% possuem Ticket Médio/Salário Mínimo menor que a média do estádio. Ou seja, espaços de caráter claramente populares, com médias de comprometimento de renda de 4,6%, muito próximo do que se observava nas décadas de 70 e 80.

Quando colocamos lado a lado o comprometimento de renda das diversos espaços da Arena Corinthians com aqueles da tabela inicial, vemos que 7 dos 10 espaços possuem comprometimento de renda inferior à média da amostra. E os 3 espaços acima da média representam 13% da capacidade total do estádio.

Pacaembu x Arena | Momentos

Vamos fazer uma comparação um pouco mais próxima. Agora é Pacaembu contra Arena. A ideia aqui é mostrar que a questão do preço, muitas vezes, está associada ao momento do clube, e que por isso mesmo dizer que há uma elitização passa por um certo exagero. Dividimos a avaliação em dois aspectos: comprometimento da receita no tempo e comparando-o ao público médio no ano. A partir daí, apontamos os momentos que descolaram da média.

Em “a” temos o momento em que o Corinthians enfrentava dificuldades técnicas e até caiu para a série B. Comprometimento de renda diminuiu, para trazer mais torcedores. Ainda assim, em “d” vemos que o público foi menor, a despeito do ingresso mais barato. Em “b” temos o “efeito Ronaldo”, quando o clube retornou à série A e tinha o Fenômeno em campo. Preços médio subiram, e o público ficou estável, como mostramos em “e”.

Em “c” temos a inauguração da Arena, que elevou os preços médios, mas também trouxe junto aumento de público, como observado em “f”, depois de uma queda forte em função de estar deixando o Pacaembu. Em “g” o único momento claro onde a redução de preços se transforma em aumento de público, o que mostra que a gestão do estádio parece sensível a esta questão. Mas é também importante considerar que o clube foi Campeão Paulista e lidera o Brasileiro com folga.

E qual a diferença de preço?

No gráfico acima, fizemos o seguinte exercício: pegamos a relação entre Ticket Médio e Salário Mínimo da época e aplicamos o percentual sobre o valor do salário mínimo atual (R$ 937,00). Isto nos leva a um novo Ticket Médio, que de certa forma reflete com mais propriedade a valor do ingresso corrigido pela renda. Estas são as barras cinzas.

Na sequência, comparamos este valor com o Ticket Médio mais atual, que no caso é o da Final do Campeonato Paulista de 2017. Esta comparação leva a uma diferença, que quando positiva significa quanto o ingresso atual é mais caro que o ingresso da época, e quando negativa, significa quanto o ingresso atual é mais barato que o da época.

Note que em poucos momentos o ingresso passado é mais barato, e concentram-se nas décadas de 70 e 80. Ainda assim, bastante heterogêneos, variando de R$ 12,68 a R$ 34,09 o que significa um comprometimento da renda entre 1,4% e 3,6%, que não é representativo. Além disso, ao longo da amostra as variações são substancialmente maiores para os casos em que o ingresso no passado era mais caro que a referência de 2017.

Comportamento do Rival: São Paulo FC

Considerando que os jogos da amostra realizados pelo Corinthians nas décadas de 70, 80 e parte de 90 foram no Morumbi, optamos por fazer uma comparação com os preços praticados pelo São Paulo, como forma de minimizar efeitos da capacidade do estádio.

Considerações

Até meados dos anos 90 o Morumbi tinha a seguinte configuração oficial:

-146 mil lugares

-40 mil na Geral | 27% da capacidade

-70 mil nas Arquibancadas | 51% da capacidade

-36 mil nas Numeradas e Cativas | 22% da capacidade

Com a reforma e redução da capacidade, a Geral foi abolida e a nova capacidade é de 72 mil, sendo 40 mil nas Arquibancadas e 32 mil entre Numeradas e Camarotes.

Preços dos Ingressos

Na final da Libertadores de 1992 os preços de ingressos praticados, em % do Comprometimento de Renda, foram:

Geral: 1,7%

Arquibancadas: 4,3%

Numeradas: 8,7%

Ticket Médio da partida: 4,4%

Vemos no gráfico ao lado o comportamento do Público e do Comprometimento do Salário Mínimo ao longo da amostra de jogos.

Os números de Público de “a” não pode ser plenamente comparável à Libertadores anterior, pois a capacidade era menor. Ainda assim, o estádio teve capacidade máxima, mesmo num preço maior. Comparativamente, em 1992, foram ocupados 86% do estádio e em 93 foram 77%, mesmo com ingressos proporcionalmente mais baratos.

Em “b”, durante o bi-campeonato Brasileiro, o comprometimento de renda foi bastante baixo, e nos jogos em que houve a definição do título, a público não foi substancialmente maior (88% de ocupação).  Em “c” temos a Semifinal da Libertadores, e o valor elevado fez a ocupação diminuir, para 79%. Já em 2016, a média do Campeonato Brasileiro foi bastante baixa, tanto em Comprometimento da renda como em Média de Público.

No gráfico acima, fizemos o seguinte exercício: pegamos a relação entre Ticket Médio e Salário Mínimo da época e aplicamos o percentual sobre o valor do salário mínimo atual (R$ 937,00). Isto nos leva a um novo Ticket Médio, que de certa forma reflete com mais propriedade a valor do ingresso corrigido pela renda. Estas são as barras cinzas.

Na sequência, comparamos este valor com o Ticket Médio mais atual, que no caso é a Média de preço do Campeonato Brasileiro de 2016.

Note que, exceto pelo Paulista de 1980, todos os demais exemplos apresentavam valor de ingresso acima do que é praticado hoje. Mas isto significa que o São Paulo passou por um processo de “popularização”?

Comportamento do Rival: C.R. Flamengo

Vamos fazer uma análise considerando outro rival, de outra cidade, com realidade de estádio diferente : o Flamengo e o Maracanã. Temos que ressaltar que a cidade do Rio de Janeiro tem renda menor que São Paulo e a estrutura do Maracanã foi mudando bastante ao longo do tempo.

Considerações

O Maracanã teve  muitas mudanças no tempo. Até 2005:

-150 mil lugares

-30 mil na Geral | 20% da capacidade

-120 mil nas Arquibancadas e Numeradas| 80% da capacidade

Atualmente o estádio tem 76 mil de capacidade, entre Cadeiras e Arquibancadas

Preços dos Ingressos

Em 1976 os preços praticados, em % do Comprometimento de Renda, foram:

Geral: 0,8% (R$ 7,50 a valores de hoje, considerando Salário Mínimo de 2017)

Arquibancadas: 2,3% e 3,8% , dependendo da localização (entre R$ 22,00 e R$ 36,00 a valores de hoje).

Numeradas: n/d

Ticket Médio da partida: 3,6%

O comportamento do preço médio dos ingressos do Flamengo no tempo possui alguns momentos bastante claros, alinhados com questões como tamanho do Maracanã e partidas decisivas.

O momento “a” era de um Maracanã para 150 mil pessoas, com 25% da capacidade a ingressos bastante populares. E mesmo assim, a capacidade nem sempre era atingida.

Interessante notar que as finais de Copa do Brasil – “b” e “d” – representam momentos de pico no valor dos ingressos, descolando da média das respectivas épocas.

Quando excluímos estes pontos, os preços se comportam acima dos períodos mais antigos, praticamente o dobro do que se praticava nas décadas de 70 e 80, mas isso não impede que a ocupação se mantenha próxima – veja em “e”. Pode-se dizer que nesse período o Maracanã deve ter pouco mais que a metade da capacidade original, o que é fato, o que significa que a mesma ocupação representa ¼ da ocupação original. Mas é fato também que a qualidade da experiência é substancialmente melhor, e em valores monetários de hoje, falamos de preço de R$ 33,00 em 1974 contra R$ 60,00 em 2017.

No gráfico acima, fizemos o seguinte exercício: pegamos a relação entre Ticket Médio e Salário Mínimo da época e aplicamos o percentual sobre o valor do salário mínimo atual (R$ 937,00). Isto nos leva a um novo Ticket Médio, que de certa forma reflete com mais propriedade a valor do ingresso corrigido pela renda. Estas são as barras cinzas.

Na sequência, comparamos este valor com o Ticket Médio mais atual, que no caso é a Média de preço do ano de 2017.

Exceto por dois momentos de pico, que foram as finais mais recentes da Copa do Brasil (2013 e 2017), o preço médio de ingresso em 2017 é maior que os praticados no passado. Mas muito parecido com o que se viu na Copa do Brasil de 1987 e na partida final do Brasileiro de 2009. Aqui há que se ponderar que nas décadas de 70 e 80 o Maracanã tinha uma capacidade imensa, e cerca de 25% dela a preços populares.

Mas a “Série A” é mais: Dados Consolidados da Série A

Não podemos falar sobre Futebol e limitar as análises a 3 clubes, ainda que sejam os 3 de maiores torcidas, conforme pesquisas usualmente divulgadas. A dificuldade em analisar os dados consolidados é a base de dados, bastante curta. Infelizmente, um problema do nosso Futebol, já que a falta de dados limite as análises.

O comprometimento da renda no período analisado ficou bastante estável, e mostrou certa volatilidade.

O mais interessante é notar que a Média de Público tem pouca correlação com o Comprometimento da Renda. Por exemplo, no gráfico à esquerda, vemos que nos anos de 2007 a 2011 há aumento de público em relação à média, mesmo com maior comprometimento de renda, o que também vale para o período entre 2013 e 2016. E uma queda substancial do comprometimento não causou um acréscimo de público muito superior à média.

Futebol x Cinema: Este Clássico dá jogo?

É muito comum fazermos comparações entre diferentes tipos de entretenimentos, especialmente quando o assunto é preço de ingresso. O mais comum deles é comparar Futebol com Cinema, sem se ater a uma série de fatores, como características da indústria, modelo de negócio, oferta, momento de espetáculo.

Neste estudo propomos uma série de comparações, sem antes apresentar uma breve descrição dom desenvolvimento da indústria do cinema no Brasil.

No conceito amplo de atividade econômica, o Futebol se encaixa no segmento de Entretenimento, atividade que engloba áreas como o Cinema, Teatro, Shows, Circo. Em tese, a decisão de acompanhar um jogo de Futebol deveria estar associada à capacidade do Torcedor – Consumidor, latu sensu, – escolher entre acompanhar uma partida de seu clube ou ir ao cinema, ou ao teatro.

Para ampliar a análise da Elitização do Futebol ao longo do tempo, fizemos uma avaliação sobre o mercado de Cinema no Brasil, seu Público, sua capacidade, seus preços. Mas antes disso, faremos uma comparação entre as atividades Futebol e Cinema, que nos ajudará a entender as diferenças encontradas.

A Indústria do Cinema: Raio X do setor no Brasil

Quantidade de Salas cresce 5,6% ao ano

Ocupação Estimada*: 20%

Lançamentos:

  • 2014: 393 filmes
  • 2015: 454 filmes
  • 2016: 457 filmes

Público Total cresce 5,9% ao ano, mas o crescimento por sala é zero no período, e decresce 2,7% ao ano por Filme

Receita Total nominal cresce 12,7% ao ano, mas por sala o crescimento é de 6,4%. A Receita Real por Sala tem decréscimo de 1,5% no período.

Ticket Médio Real tem decréscimo de 0,32%, o que reduz o Comprometimento de Renda de 1,8% para 1,6%.

A Indústria do Cinema: Relações com o Ticket Médio

A partir da evolução histórico do número de salas de cinema no Brasil, observamos um movimento pelo qual, em meados da década de 70, o Brasil possuía praticamente o mesmo número de salas que hoje. Com as crises que se iniciaram no final da mesma década, e duraram até o Plano Real, o setor sofreu com forte redução no número de salas disponíveis – de 3.276 salas em 1975 para 1.033 em 1995 – para voltarem a crescer de forma consistente a partir de 1998 – de 1.075 para 3.160, representando 194% de aumento.

Ao analisar de forma comparativa o Comprometimento de Renda – Ticket Médio / Salário Mínimo – vemos uma forte correlação entre aumento de oferta e queda de comprometimento, que pode ser traduzido por preço do ingresso. Trata-se de uma característica natural, uma vez que podemos considerar de forma ampla que as salas de padrão médio – exceto as de padrão VIP, Imax ou 4D – possuem qualidade bastante equivalente, localização e estrutura similares, e geralmente apresentam um mesmo grupo de filmes. Logo, empiricamente falando, o preço é uma variável relevante num setor onde a oferta cresce acima da demanda, conforme visto na página anterior, no extrato referente aos últimos 5 anos – crescimento da quantidade de salas é semelhante ao crescimento do público médio por sala.

A partir de agora passamos a utilizar uma série histórica mais curta, a partir de 2002, pois não há dados públicos disponíveis para antes deste ano.

No período em análise, observamos que o Comprometimento da Renda apurado sofreu redução de 50%, saindo de 3,2% do salário mínimo para 1,6%. Quando comparamos estes valores com a Venda Unitária de Ingressos e com a Receita Total, trazida a Valor Presente pelo IPCA, vemos que estas dobraram de valor no período. Isto mostra uma alta correlação negativa, que indica justamente que quanto menor o Comprometimento de Renda, maior a Venda de Ingressos e maior o Público. Aqui, atualizamos as Receitas a valor presente porque estamos comparando com comprometimento de renda, que exclui o efeito do tempo na conta.

Se isto indica claramente que houve certa popularização da atividade, uma vez que menor preço induz a maior consumo, precisamos entender a causa, pois estamos analisando apenas o efeito. No gráfico à direita temos o desempenho das salas de cinema, avaliados pela média. Quando fazemos esta análise, lembramos que a quantidade de salas disponíveis cresceu 93% no período, enquanto tanto a Receita por Sala quanto o Público por sala permaneceram praticamente estáveis. Ou seja, como o investimento na oferta de novas salas vem antes da demanda, o aumento nesta oferta leva necessariamente a uma redução de preços, e se isto traz mais público, ainda não é suficiente para aumentar a ocupação das mesmas.

Retomamos com o gráfico inicial que compara a evolução na quantidade de salas com o Comprometimento da Renda. A análise da correlação aqui é ainda maior: -0,82, o que significa elevadíssima correlação inversa, que prática confirma que quanto maior a quantidade de salas disponíveis, menor o preço aplicado.

Como já dissemos, a decisão de investimento vem antes da definição do preço, logo, define-se o preço que maximiza o retorno. Com o preço atual leva-se muita gente, mas conforme já abordado, ainda assim a capacidade ociosa média é da ordem de 20%, e o público médio das salas não aumenta. E isto, mesmo com aumento relevante na quantidade de lançamentos, que atingiu 457 títulos em 2017, contra 196 de 2002. Ou seja, além do aumento da oferta de salas, houve aumento na oferta de títulos, e mesmo assim não houve reação de preços, nem de público médio por sala.

O que falta nessa equação é o modelo de negócios, e isto faz toda a diferença. E vamos para as comparações.

Futebol x Cinema: Comprometimento de Renda | Amostra: Corinthians, São Paulo e Flamengo

Com base na amostra dos clubes de futebol, observa-se que até o início da década de 90, o Futebol possuía Comprometimento de Renda abaixo do que se observava no Cinema.

Ao mesmo tempo em que a indústria do cinema se desenvolveu e a quantidade de salas aumentaram, os preços foram caindo a o Comprometimento da Renda também, de forma que a partir do final dos anos 90, o ingresso de Futebol passou a comprometer mais renda.

Os dados observados em 2016 apontam que enquanto Cinema compromete em média 1,6% do salário mínimo, o Futebol compromete 4,4%. Já em 2017 o Cinema manteve o valor, enquanto o Futebol subiu para 6,5%.

Mas aqui entram os aspectos levantados inicialmente: oferta, demanda, espetáculo ao vivo versus gravado, competição de veículos.

Apesar de uma amostra relativamente curta, podemos usá-la como referência para tratar o Futebol Brasileiro de forma ampla, e não apenas uma amostra, com jogos escolhidos a dedo, sendo a maior parte dele partidas finais, cuja demanda é usualmente maior, e consequentemente, o preço fica mais caro.

Na tabela ao lado tomamos o Comprometimento de Renda entre 2006 e 2016 de um ingresso de cinema contra o ticket médio da Série A do Campeonato Brasileiro. Ou seja, comparamos duas indústrias cheias, com presença nacional, ao invés de usar outliers contra uma indústria, e preços médios de cinema do Oiapoque ao Chuí contra partidas disputadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde os ingressos tendem a ser mais caros.

Nesse sentido, a diferença entre ambos tem certa volatilidade, saindo de 1,0% e atingindo 2,4%, mas passando por 0,9% e chegando a 3,1% no período. De qualquer forma, em valores de Salário Mínimo de 2017, ela salta de R$ 9,69 para R$ 22,56, que na prática é um valor pouco superior a uma refeição padrão numa rede de fast food. Não parece haver aqui uma discrepância de preços que justifique uma ideia de elitização.

Fizemos uma comparação entre o setor de Entretenimento nos EUA e no Brasil, buscando encontrar similaridades ou diferenças. Bem, foram mais diferenças que similaridades.

Enquanto nos EUA o esporte possui diversas ligas de vários esportes – e nesta lista não aparece a MLS, justamente a de Futebol – no Brasil o esporte dominante é o Futebol.

Além disso, ainda há na comparação os Parques Temáticos, e em ambos não se tem dados sobre Teatros, o que é uma pena, considerando que está é uma atividade tão ou mais nobre que as demais, mas este é outro tema.

Veja que o Cinema nos EUA custa bem menos que os demais entretenimentos. No mais próximo ele chega a 31% do valor do Ticket da MLB (Baseball), e apenas 8% de uma partida da NFL (Futebol Americano).

Enquanto isso, no Brasil, considerando a média praticada na Série A, um ingresso de cinema representa 40% de uma entrada para uma partida de Futebol.

Também por estas métricas não nos parece que o ingresso de Futebol tenha se elitizado de alguma forma.

Futebol x Cinema: Modelos de Negócios

A precificação de um espetáculo depende de uma série de avaliações, e isto está associado ao modelo de negócios de cada atividade. Há uma diferença citada anteriormente que é a da atração ao vivo. Esta diferença acaba levando para a que justifica preços diferentes de ingressos. Enquanto uma atividade produz seu conteúdo, a outra reproduz de terceiros. E vende pipoca com refrigerante.

Cinema
O exemplo ao lado é da Cinemark Inc, maior empresa de cinemas dos EUA. Veja que parte relevante da venda de ingressos é repassada aso estúdios – 54% – enquanto que a venda de Alimentos & Bebidas (A&B) gera margem de 85%.

Isto significa que, sob o ponto-de-vista de Receita que fica com a companhia, o que nasce de uma diferençam 65%/35% para Bilheteria, termina sendo na prática de 50%/50%. Ou seja, um cinema dobra suas receitas de bilheteria vendendo pipoca e refrigerante.

Futebol
Enquanto isso, no Futebol há diversas realidades. Utilizamos o Morumbi como referência pois é o único que traz informações qualificadas.

A Bilheteria não entra na unidade de negócios “Estádio”, de forma que outras receitas precisam cobrir seus custos e depreciação. Isto porque o estádio não carrega dívidas. Veja que a margem mais que dobra quando adicionamos a Bilheteria. Esta é a realidade de um estádio novo, como Arena Corinthians ou Allianz Parque. Mas daí, há dívidas a serem pagas. Por isso os ingressos em estádios mais antigos, sem dívidas, podem ser mais baratos que em ativos novos.

Não dá para chamar de elitização

Por todos os pontos observados, nos parece que há um certo exagero em dizer que o futebol está se elitizando.

Primeiro porque as amostras são bastante pobres. A ideia de trazer dados esparsos de Corinthians, São Paulo e Flamengo, focando em partidas finais, serve justamente para mostrar que há sim variações importantes pontuais, justamente por se tratarem de finais de campeonatos, ao mesmo tempo em que mistura oferta de espaço, com condições de conforto e segurança bastante distintas. Ser do povo não pode significar ser precário.

É inquestionável que melhores arenas trouxeram mais segurança e isto tem preço. Sim, os ingressos aumentaram, mas não a ponto de tornar inviável ir ao estádio eventualmente. E aqui há outra confusão de momento que distorce algumas análises. Nas décadas de 70, 80 e 90 não havia uma proliferação de consumo de eletrônicos, especialmente smartphones, que consomem parte da renda das pessoas de mais baixa renda. Não havia universidades privadas e a chance de investir seu dinheiro em melhor educação. Nem havia uma quantidade de marcas e demandas que torna o consumo quase uma necessidade. São escolhas, decisões que vão do racional ao emocional, e diferente do passado, há tantas mais opções, que o futebol é apenas mais uma delas.

Enquanto isso, mesmo comparado ao Cinema, o Futebol passou as ser mais caro, mas sem contextualizar como se comportou a indústria ao longo do tempo, nem compará-la de forma racional, os dados acabam apontando para direções distintas. Apesar de ainda poder ser uma atividade mais barata, nem sempre será, e ainda assim no Brasil, é mais cara que nos EUA, quando comparada a outros esportes.

O futebol ainda pode ser um esporte do povo, que merece e está sendo melhor tratado.

Fontes: Portal Filme B, Ancine, Blogs, Cinemark, Balanços dos Clubes, Internet

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Vamos falar como adultos sobre a concessão do Pacaembu? 

10 comentários em: “Especial: Elitização do Público nos Estádios de Futebol?

  1. Fantástico, Cesar Grafietti! Um privilégio ver uma análise tão profunda e definitiva sobre o assunto, obrigatória para todos que querem realmente saber mais sobre o assunto, e não simplesmente confirmar aquilo em que querem acreditar.

    Outro ponto que gosto de pensar na comparação entre cinema e futebol é que o primeiro tem exibições frequentes (várias sessões ao dia), automatizadas e apenas reproduz uma mídia, é algo completamente diferente de um evento único e em tempo real seguido por milhões de pessoas, no qual somente poucas dezenas de milhares poderão estar.

    Ou seja, penso que quem cobra que o futebol deveria ter os mesmos preços do cinema está, na verdade, rebaixando o futebol.

  2. Não existe nenhuma regra determinando o tipo de público de futebol. Os clubes devem sempre agir em consonância com o objetivo de obter o melhor resultado possível e responsável. E vale lembrar que, sozinhos, os tais “torcedores de futebol” nunca trouxeram médias de público relevantes. Há muita lenda e conversa fiada por parte de quem tenta transformar o tema em ode ideológica.

  3. E se fizermos as contas usando a renda média e não o salário mínimo, fica ainda mais claro que o preço atual do ingresso, na média, chega a ser menor que no passado. Infelizmente os dados públicos de renda não estão disponíveis.

  4. A análise é boa, cuidadosa e bem fundamentada. Mas,

    existe um fator que é difícil de ser colocado numa abordagem fria/científica como essa, a saber. Quem frequenta estádio de futebol, e mais especialmente as arquibancadas há algumas décadas, como é meu caso, percebe na empiria da experiência concreta o a tal elitização (sem juízo de valor aqui). Pode-se argumentar que a população em si melhorou as próprias condições de vida (elitizou-se por assim dizer), mas é uma diferença que salta mais aos olhos no estádio do que na rua.
    A tal elitização tb precisa ser vista sob uma análise mais cultural, para além da econômica, ainda mais difícil de ser traduzida em dados empíricos “indiscutíveis”. Nesse aspecto, me parece que a elitização é mais forte e mais evidente. A experiência “ir ao estádio” elitizou-se muito mais do que o preço ou o público. Para o bem e para mal está mais midiática, menos espontânea, controlada e controladora, Dito de outra forma e fazendo uma analogia que me parece boa. Ir ao estádio era algo como um bloco de carnaval de rua. Hoje é Sapucaí.

    1. GOSTEI DESSE CONTRAPONTO. DE FATO, A EXPERIÊNCIA DE IR AO ESTÁDIO HOJE É UM TANTO DIFERENTE DO QUE ERA, DIGAMOS, NOS ANOS 80… TALVEZ REFLEXO DE MUDANÇA DA SOCIEDADE EM SI, DA VIOLÊNCIA, DAS RESTRIÇÕES DA POLÍCIA ETC ETC ETC.

      DE QUALQUER FORMA, MAIS UM TEXTO EMBASADO E QUE AJUDA A PROPORCIONAR A BOA DISCUSSÃO DO (E NO) FUTEBOL….

  5. Bom demais!!!!!! Ver um jogo é mil vezes mais barato do que ir num show, e é mais ou menos o mesmo que ir num bom teatro e bem mais barato do que musical bom!!!!!!!!!!!

    O povo quer o que, ir nessas novas arenas e não pagar nada???? Quer times competitivos e tudo do bom e do melhor, pagando merreca???? Só falta pedir subsídio do governo!!!!!!!!!!!!!!1

  6. Só ver o modo de torcer no estadio nos dias de hoje que da para ver que o futebol se elitizou mesmo o preço do ingresso não tendo aumentado tanto como parece

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