Guardiola no City e o “pedigree” dos grandes

Créditos da imagem: Paul Terry/JMP/Rex Shutterstock

Nesta semana foi confirmado o que já há algum tempo era falado: a partir do segundo semestre, o espanhol Pep Guardiola irá assumir o comando técnico do emergente, milionário e “artificial” Manchester City.

Sou fã do catalão. Só não o classifico como o técnico mais revolucionário da história do futebol porque seria cair num erro que eu abomino, recentemente definido por Juca Kfouri como o de “alguns que imaginam que a História começa quando eles nasceram.” Mas que é, no mínimo, o mais revolucionário das últimas décadas, é inquestionável.

No meio de 2008, aos 36 anos e em sua estreia como técnico de uma equipe principal, assumiu um Barcelona que tinha sido somente o terceiro colocado do Campeonato Espanhol 2007-2008 (dezoito pontos atrás do campeão Real Madrid e dez atrás do vice, Valência), e faturou simplesmente todos os seis títulos que disputou na temporada, com direito a um 6 x 2 contra o Real Madrid em pleno Santiago Bernabeu. E é bom destacar que o conjunto era tão forte, que não dependia de Messi (como exemplo, na conquista do Espanhol, o argentino foi apenas o quarto maior artilheiro da competição, atrás dos “reles mortais” Forlan, Eto’o e David Villa).

A partir daí, foi escrita a trajetória daquele que eu penso ser o melhor time da história do futebol. Nem foi o mais vencedor, visto que Guardiola saiu do seu clube de origem ao término de sua quarta temporada. Mas a  superioridade demonstrada contra todos os rivais era uma coisa absolutamente inédita: saísse de campo vencedor ou perdedor, aquele Barcelona sempre dava as cartas, monopolizava a bola e tornava o adversário um mero coadjuvante que lutava por “sobrevida” e “bolas vadias” diante de uma permanente, imparável e sufocante blitz. Conquistou 14 dos 19 títulos disputados e saiu com um surreal aproveitamento de 72,5% dos pontos em 247 partidas (179 vitórias, 47 empates e 21 derrotas), com 636 gols pró e apenas 178 contra.

Após um ano sabático, o catalão então decidiu se testar num Bayern que vinha de ganhar tudo. Lembro até hoje que fiquei impressionado logo na pré-temporada, quando os bávaros derrotaram o São Paulo por 2 x 0, e o time já tinha a cara de Guardiola, com seu típico tiki-taka, muito diferente do estilo vertical da equipe dirigida por Jupp Heynckes que conquistou a Champions 2012-2013. Ali vi como Pep parece ter um método claro de como fazer suas equipes atuarem daquela maneira.

Por causa de dois tempos desastrosos em suas duas primeiras Champions pelo clube alemão (0 x 3 no primeiro tempo da partida de volta contra o Real em 2014, e 0 x 3 no segundo tempo da ida contra o Barcelona em 2015), sua passagem parece um fracasso, quando esconde cinco títulos (que certamente serão mais ao término da atual temporada) e um aproveitamento de pontos ainda mais alto do que o obtido em sua passagem pelo “Barça”.

Conforme relatos, ele se sente insatisfeito com a diretoria alemã por não ter a mesma autonomia que tinha nos tempos de Barcelona, e ter alguns problemas de relacionamento com o elenco.

No City, terá a companhia de dirigentes ex-companheiros dos tempos de Barcelona, como Txiki Begiristain e Ferrán Soriano, além de, certamente, carta branca e um orçamento assustador. Aposto sem medo de errar que construirá uma certa hegemonia na Inglaterra. O que não sei é até onde pode chegar nessa Europa cada vez mais hirarquizada por dois ou três supertimes, e comandando um clube sem tanta tradição. Meu palpite é que isso não será problema.

Mas vai ser no mínimo interessante acompanhar o City agora. Graças à ousadia e ao gosto por desafios deste personagem único do futebol mundial. Quem dera um dia essas características ainda o tragam para dirigir nossa Seleção…

3 comentários em: “Guardiola no City e o “pedigree” dos grandes

  1. De fato, muito bom artigo. Os números de Pep impressionam. Coloco reparo num detalhe: Guardiola não gosta de caracterizar o jogo do Bayern como tiki-taka. Na verdade, segundo Martí Perarnau (“Guardiola Confidencial”), ele tomou enorme bronca desse termo e do que, segundo ele, é uma simplificação exagerada do futebol do Barça sob seu comando.

  2. Muito obrigado, Fernando Prado e Emerson Gonçalves!

    Acabei de ler o artigo do Emerson, e realmente, excelente (como de costume)! No City o Guardiola terá tudo à disposição para testar se é capaz de mudar o patamar esportivo de um clube. Se conseguir, acho que não restará mais dúvidas de que ele é o maior reforço que qualquer clube pode contratar no mundo.

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