Majestoso: “Clima de clássico” ou baixaria?

Créditos da imagem: Gazeta Esportiva

Clássico é clássico, trolha é trolha – ou “para, para, para!”

Não sou fã de saudosismos, mas há posturas do passado que poderiam ser retomadas. Uma delas é a forma como ídolos se relacionavam com os adversários. Tenho saudades, pois sim, de tempos em que os jogadores favoritos dos rivais eram temidos pelo desempenho em campo, porém respeitados na mesma medida. Não apenas pelo que jogavam, mas porque sabiam deixar as provocações (especialmente as de nível duvidoso) para os torcedores. Isso num tempo em que não se falava em profissionalismo como o biscoito que “justifica tudo”. Mais que um gesto profissional, era sinal de que respeito e boas maneiras não precisam ser deixados de lado em nome da suposta “competitividade”.

Por isso um Zico dava calafrios por suas atuações no Maracanã, mas não causava ódio aos vascaínos. O mesmo se via com Roberto Dinamite e os rubro-negros. Assim como Sócrates me fez chorar na infância sem jamais menosprezar o São Paulo, conduta que Raí retribuiria fraternalmente quando levou os pequenos e grandes corintianos às lágrimas. Neste contexto, eram realmente bons tempos. O torcedor não precisava de campanhas pela mídia, porque sabia diferenciar rivalidade de inimizade. Muito disso se devia, pois sim, ao espírito esportivo daqueles que admirava. De maneira inversa, a transformação de rivais em inimigos muito tem a ver com o império da boca suja que se ergueu depois.

São Paulo x Corinthians, clássico que terá mais uma edição neste domingo, talvez seja a mais clara e triste amostra involutiva. Torcedores se provocando é comum desde os tempos do “silêncio na favela” e “todo v… que eu conheço é tricolor”. Se não eram libelos contra o preconceito, ao menos se restringiam a arquibancadas, cadeiras e gerais. Mas o patético entrou em cena quando dirigentes e jogadores se juntaram aos coros. Pior: não raro com incentivo e parceria de jornalistas. Aquilo que se restringia ao fim de noite, no canal de audiência mais próxima do traço, virou notícia a qualquer hora e em qualquer emissora. Com a internet, mais ainda. Querem a cereja podre? Agora isso é considerado “clima de clássico”, como se antigamente os torcedores fossem à ópera.

Ouso dizer que o processo teve seu agravamento a partir de 2002, com uma sucessão de baixarias mútuas. O passo adiante (ou abaixo) provavelmente foi a entrevista em que Vampeta se referiu aos são-paulinos como “bambis”. Não contente com o suposto ato falho, afirmou que o meia Ricardinho, recém-chegado ao Morumbi após longa novela, era um dos que usavam o termo no Parque São Jorge – alegação que, provavelmente, queimou o filme do então tricolor no grupo (bem mais que seus lendários vencimentos). Dando apoio ao jogador do clube, o diretor Roque Citadini emendou que o estádio do SPFC era salão de festas corintiano. Ironia do destino ou não, no ano seguinte o momento vencedor do Corinthians deu lugar a seguidos fracassos.

Quando a sorte virou, foi a vez da vingança. Marco Aurélio Cunha passou a tirar sarro da má fase rival, mostrando um passe de metrô como passaporte de corintiano. No elenco tricolor, Souza foi mais valorizado pela língua que pelo futebol. Mais alguns anos e tivemos novo reverso da fortuna, com o aposentado Vampeta, na qualidade de “gestor”, vendendo ingressos de visitante caríssimos para Audax x São Paulo e quase de graça a corintianos. O ex-clube foi campeão. Já o empregador terminou rebaixado. O São Paulo respondeu proibindo Neto de apresentar seu programa em camarote no Morumbi. O ídolo rival retrucou ameaçando “revelar” coisas que, como suposto jornalista, nunca deveria ter ocultado. Larry, Moe e Curly teriam vergonha de tanto pastelão.

Agora eis que Alexandre Pato, um fracasso no Corinthians e bastante irregular no São Paulo, aparece comendo pé de galinha em rede social. Mesmo desmentindo que tenha algo a ver com os corintianos, já angariou curtições e ódios de torcedores alucinados. Alucinação esta que deve ir ao ponto de, caso leiam esta coluna, resmungarem que “o futebol está cada vez mais chato”, lugar comum do momento. Legal mesmo é ver estádio com uma torcida só, porque nenhuma autoridade quer gastar contingente e tempo servindo de babás de gente tão divertida. Graças a estas pessoas cativantes, acharam uma desculpa para promover a segregação em vez da tolerância. Pessoas estas que, pois sim, poderiam ter vivenciado outros valores se o exemplo viesse do campo.

Seria salutar se, com Juvenal Juvêncio sepultado e Andrés Sanchez caído em desgraça, a ausência destes presidentes (também fomentadores da inimizade infantiloide) servisse como oportunidade para rivais unirem esforços. Existem, nos dois times, quem saiba unir futebol competitivo e respeitoso. Nem é preciso dar as mãos. Basta não querer ganhar o torcedor imitando o pior deste último. Se o são-paulino quer odiar o corintiano e vice-versa, deixem que fiquem no vácuo até se sentirem constrangidos pela própria babaquice. Clássico não precisa de bobos e histéricos para ser clássico. Do contrário, não seria Majestoso, e sim Programa da Márcia Kleber Ratinho Rocha. Desculpem se esqueci algum rei da baixaria. Nem sempre consigo desagradar a todos…

4 comentários em: “Majestoso: “Clima de clássico” ou baixaria?

  1. O VAMPETA É UM FANFARRÃO

    SÓ QUE A IMPRENSA SEMPRE DEU PASSE LIVRE PRA ELE FAZER O QUE BEM ENTENDESSE, JÁ QUE É CONSIDERADO “BOA PRAÇA” NO MEIO

    QUANTO AO PATO, ESSE É UM BABAQUINHA APAGADO QUE SÓ

  2. Excelente!!!!!!!!!!!!!!!!!! Corinthians e SP entraram em uma fase de histeria, sem nenhum comprometimento institucional!!!!!!!!!!! As organizadas é que deviam desaparecer, mas não, os clubes é que passaram a ter o comportamento mais parecido com o delas!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. Brilhante, Gustavo Fernandes! O assustador é como nisso parece que a estupidez de um vai puxando a do outro em uma espiral dos horrores. Coisa parecida tem acontecido com Flamengo e Botafogo, no Rio.

    Enquanto isso, achamos o máximo quando vemos, sei lá, o Real Madrid aplaudindo o Barcelona campeão nacional, quando se enfrentam após a conquista de um título pelo rival.

    Mas aqui o dirigente acha que é só fazer uma campanha com os mascotinhos, ou fazer uma publicação demagoga nas mídias sociais, que pronto, apagou todas as bobagens que eles disseram sobre o adversário…

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