“Melhor técnico” tem 13 letras

Créditos da imagem: ESPN

Gente que opina e a magia do 13

Outro dia uns caras discutiam na TV, tentando eleger os 3 melhores técnicos de futebol de todos os tempos: Pep Guardiola, Rinus Michels e Johan Cruyff formavam a trifeta dourada, com Alex Ferguson – o homem dos 49 títulos -, perdendo esta oportunidade por meio corpo.

Estava de bom tamanho, entendi.

Todos os três são tidos como estudiosos e são dissecados pela literatura futebolística da virada do milênio.

Açodados, os comentaristas se exibiam, quase como em um Quiz Show. Quem tinha decorado mais informações sobre o tema?

Não havia dúvida naquele momento. A quintessência do futebol pós-aristotélico era a escola holandesa dos anos 70, consolidada pelo crescimento do Barcelona no cenário mundial. Estava eleita, ali, a Santíssima Trindade da Beira do Gramado: o Pai Michels, o Filho Cruyff e o Espírito Santo Guardiola, o popular “três-em-um”.

Logo a seguir, o Papa e Sir, Alex Ferguson. O homem que operou o quase milagre de ser campeão escocês, treinando um time de Glasgow que não era nem o católico Celtic e nem o protestante Rangers. Sobre esse derby, diz a lenda que os dois primeiros jogos terminaram empatados, sendo que no segundo, 60 mil brigaram. Havendo um terceiro jogo, teria mais renda pra dividir e os tempos eram bicudérrimos. Deve ser lenda mesmo. Só pode. Talvez por essas e outras, Ferguson tenha conseguido ser considerado o maior gestor de talentos heterogêneos de todos os tempos. Principalmente nos quase 30 anos em que esteve à frente do clube que ajudou a tornar o mais rico do mundo: o Manchester United.

Voltando ao “blá blá blá” original, os estudiosos trepidantes também citavam – meio que para justificarem os votos e o conhecimento – técnicos argentinos, italianos, alemães, alguns dos quais haviam tirado o futebol brasileiro do limbo, tornando-o possível.

Aí pensei com meus zippers… por que não tem nenhum brasileiro nessa lista ? Complexo de vira-latas é meio arroz de festa, né? Logo me veio à memória o Renato Gaúcho desafiando o Guardiola a ser técnico campeão mundial dirigindo o Grêmio com aquele “orçamento todo”. Mas o Renato é um fanfarrão e ninguém o leva a sério. Nem quando está quase dando a luz de tanta razão. Pede pra sair, Renato! A audiência adora polêmica. E você tá muito calminho, com essa coisa de não querer estudar lá fora e gostar de futevôlei. Coisa chata deve ser jogar futevôlei em Ipanema.

Mas… por que esse papo todo?

Por causa de Mário Jorge Lobo Zagallo, gerações X, Y, Z !

Por causa do maior vencedor do futebol brasileiro no planeta bola.

Zagallo, aquele mesmo que como jogador foi tricampeão carioca pelo Flamengo e bi, pelo Botafogo, além de erguer dezenas de taças em torneios por aqui, acolá e do outro lado do Atlântico.

Neste espaço de tempo, ele aproveitou para ser também campeão nas Copas de 58 e 62, disputando as 12 partidas dos dois torneios, com o mesmíssimo par de chuteiras: aquelas velhas de couro, pesadas como as bolas de então, e com as solas pregadas à ferro, que o massagista amassava no intervalo dos jogos.

Se alguém se der ao luxo de procurar na web a íntegra da partida final de 1958, narrada por 2 rádios brasileiras, vai ouvir, durante todo o primeiro tempo, aquela vozinha de taquara rachada – mezzo insistente, mezzo lúcida, com cobertura de observações certeiras – a cantar o jogo com Didi e Zito, naquele que é considerado um dos maiores times já reunido em uma competição oficial da FIFA.

Número “13” : superstição virou marca registrada do Velho Lobo

Quando parou de jogar, Zagallo virou técnico. Aos 36 anos, conquistou o primeiro de dezenas de títulos. Ali na beira do campo, no vestiário e nos treinos, Zagallo era um mestre. Foi campeão comandando o Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, Bangu, Al-Hilal e várias seleções no Oriente Médio. Pela Arábia Saudita, foi campeão da “Champions” da Ásia. Pela Seleção Brasileira, foi campeão em 70 e vice em 98. Além de Copas das Confederações e taças mil. Das 5 finais de Copa que disputou como jogador, técnico e coordenador técnico, venceu 4. De cinco finais, venceu 4, repito.

Ok, intrépidos observadores de salas com ar condicionado?

Sua contribuição nas questões táticas foi imensa. Como ponta esquerda recuado, ajudando a armar o time, inovou. Muitos dizem que isso foi coisa do Telê, o Fio de Esperança. Mas Zagallo, como jogador, mostrou ao mundo que dava pra vencer, jogando muito bem assim, recuando e tirando da cartola o 4-3-3. Na Seleção de 70, arrisco, inventou o 4-5-1, com rodízio de posições e participação de todos. No olhar de quem gosta de falar sobre números, era a “falsa retranca”. Todos no ataque, menos um. Todos na defesa, menos um. Surpreendeu os que haviam optado pelo 4-3-3. Algum holandês deve ter visto isso e usado para vencê-lo quatro anos depois, usando aquela saúde de quem cresceu tomando leite de vaca leiteira dos Países Baixos (mas se o Jair e o PC estivessem com mais um dedinho de sorte…).

Como muitos brasileiros devem tê-lo visto na beira do gramado, antes de uma disputa de pênaltis, chamando na chincha cada jogador com a “Amarelinha”. Ou retribuindo o “aviãozinho” e comemorando na hora certa a vitória. Eu vi pela TV, num jogo do Flamengo, no Nordeste, o juiz mandar repetir 3 vezes uma cobrança de pênalti, até a bola entrar. Não satisfeita com o gol, a polícia local partiu pra cima dos jogadores do Flamengo, sentando a lenha. Aí, vem um senhor franzino, colocando como escudo o próprio corpo, pra defender “os meninos” da sanha assassina da policia militar brasileira, nos violentos anos de ditadura.

O Mestre do futebol Zagallo ao lado do Mestre do jornalismo esportivo José Maria de Aquino

Mas ele era muito sortudo, dizem os apostadores. Ranzinza, afirmam os calmos. Supersticioso, clamam os céticos. Teimoso, declaram os dóceis. Careta, colocam os revolucionários de biblioteca. Talvez por isso, “os meninos” da resenha não tenham nem ao menos lembrado dele, mas ele esteja na foto de perfil do Zé Maria, conhecido no Facebook como José Aquino. Talvez por isso, não esteja nunca presente, como deve, naqueles papos de boteco de esquina, que viraram todos esses programas “ao vivo”, de horas de duração e uma bibliografia que todos, sem exceção, leram de fio a pavio. Várias vezes. Como um crente, que só tira a bíblia do sovaco, para lê-la, mais uma vez, antes de dormir na paz dos oniscientes..

Parabéns aos envolvidos e vida longa ao Velho Lobo.

13 comentários em: ““Melhor técnico” tem 13 letras

  1. Olivio Petit, concordo com as suas palavras. Todos os outros técnicos citados também são históricos e revolucionários, mas nenhum com uma história tão rica e vencedora como a do nosso Velho Lobo. Viva a nossa história e viva o futebol brasileiro! 😉

  2. Viva a polêmica, mas de jeito nenhum. Foi o revolucionário que até hoje não sabe como revolucionou. Excelente jogador, técnico com currículo e figura carimbada. Mas melhor técnico? No way.

  3. Não foi o melhor nem no Brasil. Campeão não é sinônimo de melhor. O Telê e o Luxa merecem esse destaque. Quanto ao Velho Lobo, respeito máximo pelo simbolismo. Porém, tampouco, seria ele, o melhor do planeta. Aliás, falar da copa de 70, sem mencionar João Saldanha, deveria ser um crime!

  4. Os nomes Zagallo e Luxemburgo não poderiam ser citados na mesma sentença. Isso deveria ser um crime futebolístico, impassível de fiança.

    Perto de Zagallo, o “manager” sem libertadores é um protozoário.

  5. Campeao como jogador, treinador e auxiliar tecnico, nenhum tem tanta historia como nosso velho lobo zagallo, o futebol brasileiro deve muito tbm a ele, outro injustiçado no nosso futebol.

  6. Vi uma entrevista do grande Riva e ele falou sobre o Zagalo. Ele é sem dúvida é uma lenda um dos melhores treinadores que o mundo ja teve. Sua visão de um futebol total em 70 é utilizado hoje com algumas inovações que o futebol atual exige. Temos a mania de acreditar que tudo o que é de fora é melhor esquecemos nossos idolos que tanro fizeram por este país carente.

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