Money changes everything – or not

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

“Com tanta grana é fácil!” – é o comentário padrão de torcedores anti-madridistas nesta leva de títulos. Incluindo, incrivelmente, torcedores do igualmente bilionário Barcelona, que investiu tão ou mais que o rival nos últimos anos – só que em fiascos. Mas nem precisa comparar este Real com os outros. Basta fazê-lo com si mesmo. Na década passada, o maior clube do mundo acumulou seguidos fracassos com seu time de “galácticos”. Por que funcionou agora e, mesmo com Ronaldo, Figo, Zidane e Beckham juntos (fora Raul, o querido local), só fez sucesso na venda de camisas? Respostas: 1 – entender que elenco não é apenas soma, mas combinação com o que se quer jogar; 2 – a tal da “jerarquia”.

Vou começar pela segunda resposta. Não há problema em ter mais de um protagonista. O problema começa quando todos estes protagonistas conseguiram, em seus clubes previamente vencedores, o privilégio de não participar do sistema de marcação. No máximo, apertam a saída de bola e guardam posição (vulgo “dar migué”). O Real Madrid, já campeão com Zidane, Figo e Raul, quis continuar a leva com Ronaldo, Beckham e Owen – ainda pintou Van Nilsterooy na turma. Apenas o galã inglês ainda marcava, mas sem suar como nos tempos em que mais famosa era sua mulher. Acreditaram que bastaria um volante marcador para que o resto desfilasse em campo. Não rolou. Já nesta década, especialmente após as dificuldades de Kaká, o Real Madrid decidiu ter um grande protagonista acima dos outros. O único que disputará Bola de Ouro. O resto, por mais badalado que seja, não tem salvo conduto defensivo. Vão ter que ralar.

Assim, vemos jogadores como Kroos, Modric, Bale e até o centroavante Benzema sabendo que terão que compor linhas, sem essa de serem poupados. Algo parecido acontece no Barcelona. Foi o clube catalão, aliás, que deixou claro este critério. Primeiro com Ronaldinho, depois com Messi. Neymar, mesmo em sua melhor fase, tinha que acompanhar o lateral. O mesmo ocorre com Coutinho e ocorrerá com Griezmann, caso deixe o Atlético de Madri. Neste ponto, o planejamento dos rivais é idêntico. A diferença está na primeira resposta. Enquanto o Real Madrid trouxe jogadores que se encaixam na filosofia de jogo, o Barça foi atrás de atletas com imensa dificuldade de se ajustar ao time de toques curtos e leveza. Resultado: enquanto um protagonista tem que fazer menos coisas, o outro é cada vez mais explorado. Não precisa dizer quem chega mais descansado e apto a decidir na parte final. Se é que precisa decidir – vide a última final.

Mas deixemos o Barcelona de lado, porque o tema da coluna é a comparação com os galácticos. Tomemos apenas este encaixe acima citado para explicar a primeira resposta. Já falei, em outras colunas, de minha irritação sobre comparações individuais de elenco. Não é, registre-se, incômodo exclusivamente meu. Tostão, talvez o melhor analista da nossa mídia esportiva, há muito explicita seu descontentamento com esta visão pobre. Não basta escolher os melhores. Há que se buscar os melhores que, jogando juntos, propiciem que cada um obtenha seu rendimento habitual – se não superior. Não era o caso, seguramente, daquele Real Madrid. Numa época em que o esquema vigente era o 4-4-2 com meias abertos, atuavam Figo de um lado e Zidane do outro, com Beckham centralizado. A dupla de ataque jogava enfiada, com Ronaldo no centro e Raul flutuando. Na teoria, funcionava. Na prática…

Embora ambos fossem meias, os estilos de jogo de Figo e Zidane não poderiam ser mais opostos. O português era mais ponta que meia-atacante clássico. Dificilmente fechava. Já o francês dificilmente ficava fixo e, ao fechar, “marcava” o repertório de Beckham. No ataque, embora não fosse centroavante, Raul estava habituado a ser o definidor principal, o que obviamente não ocorreria com Ronaldo em campo. Como o espanhol não tabelava e Zidane tinha a vida dificultada, o brasileiro acabava isolado na frente. Com tanto talento, ainda obtinham algumas jornadas memoráveis. Porém, no conjunto, eram superados por equipes tecnicamente mais modestas, porém fluentes no ataque e equilibradas na defesa (pois não marcavam apenas com 7 ou 6). Nas comparações do Globo.com, o Real Madrid bateria todos eles. Na vida real (sem trocadilhos), a história terminava bem menos feliz.

Portanto, não é apenas questão de ter dinheiro – como também vimos no único mata-mata em que o Real venceu os dois confrontos, contra o PSG. Por maior que seja a bufunfa, vai quase tudo (ou tudo) pelo ralo quando não se sabe utilizá-la. Se já é assim com clubes fidalgos, imaginem com quem possui orçamento modesto e não planeja suas ações. Até um pouco antes dos galácticos, vimos times dos sonhos virando pesadelo no Brasil, pelas mesmas razões apontadas: muito cacique pra pouco índio e jogadores que não combinariam entre si nem com uma junta de treinadores. Controlar bem esta parte da gestão profissional é tão importante quanto ter um cracaço na equipe. Sem a primeira parte, este último vê a desejada consagração entrar numa fria.

5 comentários em: “Money changes everything – or not

  1. Perfeito! Acho que não tem prova maior do que isso do que o James Rodriguez ter saído e um cracaço como o Bale estar na reserva do Isco.

    O Real Madrid de antigamente já teria tirado Modric e Kroos por não serem tão badalados…

    1. Acho o James muito bom, mas o estilo de jogo dele não se encaixa nesse Real.
      Zidane queria a permanência do James, James é que quis sair pra ser titular.

  2. Antes era circo pra ficar excursionando e conseguir fãs na Ásia. Agora é um dos grandes times da história do futebol!!!!!! Simples assim!!!!

Deixe sua opinião e colabore na discussão