Muricy? Marco Aurélio Cunha? Raí? Leonardo? Resgate ou sebastianismo no SPFC?

Créditos da imagem: UOL

SPFC esperando D. Sebastião ou Godot?

Um dos sinais clássicos de desespero em clube grande é recorrer ao passado vitorioso. Trata-se de uma espécie de sebastianismo* que, na grande maioria das vezes, gera frustrações. Os são-paulinos chegaram ao ponto em que já estão tendo que requentar Sebastiões. Até o grupo denominado Resgate Tricolor fala em Muricy Ramalho para o cargo de coordenador técnico, não sem receber sugestões de Marco Aurélio Cunha como alternativa. Ninguém sabe exatamente qual a função recém-aventada, mas é mesmo um nome da hora. Serviu até para Zagallo (um Dom Sebastião da amarelinha) posar como tetracampeão em 1994, quando foi fundamental indicando quantos jogos faltavam. Em tempos de internet incipiente, era preciso evitar que os jogadores se confundissem e comemorassem o título contra EUA, Holanda ou Suécia. Fundamental, mesmo…

Ironias à parte, Muricy e Marco Aurélio Cunha são mais festejados que propriamente qualificados para seja lá o que este cargo for. O ex-técnico nunca deu qualquer sinal de alguma preparação para o extra-campo. Mesmo como treinador, já vinha sofrendo com desatualização. O pragmatismo não rendia mais títulos e a suposta reciclagem, com o tal “estágio” de uma semana no Barcelona, estava sendo um fiasco no Flamengo. Já Marco Aurélio Cunha é um exemplo bem acabado do que faz o marketing de eficiência. Sua função básica como superintendente (outro baita nome de cargo) consistia em ir aos programas de TV tirar sarro do Corinthians. Foi assim que ganhou a torcida e pegou carona na política – na qual, inclusive, apoiou o prefeito que ajudou a tirar o Morumbi da Copa do Mundo. Em termos de participação em decisões, seu feito mais notório foi ter recomendado Carlos Alberto em 2008. Não se faz mais Sebastiões como antigamente.

Um pouco menos cotados são Raí e Leonardo, camisas 10 dos Mundiais de 1992 e 1993. Raí vem estudando para se tornar dirigente de futebol, mas nunca exerceu cargo nenhum (apenas na base, há mais de dez anos, tendo saído após se desentender com Cilinho) e, a esta altura, correria o risco de se queimar como já aconteceu com Rogério Ceni. Quanto a Leonardo, a imagem de culto, poliglota e cara de conteúdo tem o reforço de duas passagens como dirigente, por Milan e PSG. No clube italiano, era tão importante que, na primeira oportunidade, foi colocado como técnico interino e depois mandado embora. Na França, só foi notícia ao ser suspenso por agredir um árbitro. Alguém pode responder que leu entrevistas e o achou muito esclarecido. Dica importante: qualquer um pode passar esta impressão. Basta falar alguns clichês, fazer cara de conteúdo e contar com um jornalista amigo fazendo as vezes de Ricardinho ou Bruninho. Tem que ser muito grosso para não cravar tanta bola levantada na pinta.

O que todos eles teriam a oferecer, de líquido e certo, é a famosa “sacudida no ambiente”. Nada que não tenha sido feito com os retornos dos próprios Muricy e Marco Aurélio, respectivamente em 2013 e 2016. A diferença é que, na sua profissão natural e ainda em condições médicas de treinar seu mencionado pragmatismo, Muricy conseguiu um modo de jogar suficiente para fugir, até com folga, do rebaixamento. Marco rendeu apenas algumas matérias pré-fabricadas que se desmoralizaram poucos jogos depois. No fim, foi a promoção desesperada de David Neres, contando com uma partida historicamente desastrosa de Gum, que começou a salvar o ano das “derrotas dignas” – herança de Bauza. Ou seja: o acaso e uma dose de renovação conseguiram o que o sebastianismo deixou só na esperança.

O São Paulo não precisa de resgate. Precisa voltar a ir atrás do novo, com gente nova e novas ideias. Tem que se desprender deste apego cada vez mais doentio às glórias do passado. Aquele modelo bem sucedido se foi e há que se buscar outro. Muita coisa mudou desde 2008. Mesmo se Muricy voltasse como técnico e tentasse refazer o que deu certo em 2013, muito provavelmente daria com as mulas n’água. É o que acontece pelo menos em quatro de cada cinco retornos de heróis passados, sendo que a cota positiva já foi preenchida com Hernanes. No lugar de requentar o passado, o tricolor paulista deve dar passos à frente. De preferência, longe da direção do abismo…

* Se não sabe o que é, vai estudar! Pelo menos procure no Google…

5 comentários em: “Muricy? Marco Aurélio Cunha? Raí? Leonardo? Resgate ou sebastianismo no SPFC?

    1. Assustador, Emerson Gonçalves! Ainda mais porque ele só diminuiu de tamanho desde que se afastou a primeira vez do clube, e parece que vai ganhando moral inercialmente. Difícil uma prova maior desse saudosismo sebastianista relatado pelo Gustavo Fernandes, hein…

  1. Gustavo Fernandes, que maravilha de texto, dá gosto ler!

    Assino embaixo! É assustador como o São Paulo continua olhando para trás, auto-referente em relação ao sucesso. Se passou a fracassar, em vez de perceber o que os adversários agora bem sucedidos têm feito, para aprender, cai na arrogância de só olhar para si mesmo, em um contexto completamente diferente, e fica tentando melhorar o wi-fi colocando bombril…

    PS: seja muito bem-vindo ao time. Reforço de peso!

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