Não adianta procurar: não há treinador para o Flamengo – Parte I

Créditos da imagem: Gilvan de Souza/CRF

E foi anunciada a saída de Muricy Ramalho do Flamengo. O hipercampeão treinador vem com problemas de saúde que devem abreviar sua carreira para uma merecida aposentadoria. Particularmente, a figura do Muricy me agrada. Como treinador, nem tanto, motivo pelo qual não me surpreendeu seu trabalho (ou falta dele) nessa passagem fraca pelo rubro-negro.

Resolvido o impasse de Muricy, cabe ao Flamengo pensar em um técnico. É o momento da temporada em que o trabalho é revisto e normalmente, acontece duas ou três vezes ao ano no clube. Houve muita coisa errada na montagem do elenco rubro-negro, começando pela manutenção de jogadores que simplesmente não deveria mais estar no clube (tema de algumas das minhas colunas esse ano). Há problemas na direção (ou falta dela), com um presidente aparentemente com pouco conhecimento da causa, vices perdidos e dirigentes profissionais apresentando péssimo rendimento. Ou seja, tudo errado na Gávea, inclusive a escolha do treinador. E o Flamengo escolherá novamente um. Mais uma escolha errada.

“Ué? Mas já cornetando, Caio?” Sim, já cornetando. Acompanho o Flamengo há muito tempo para saber o tipo de treinador que dá certo no clube, o tipo de técnico querido pelos torcedores e o comandante ideal para o rubro-negro. E vos digo que essa figura não existe. Não há técnico para o Flamengo. Quer ver? Vamos fazer um exercício.

Neste século, o Flamengo conquistou quatro títulos nacionais. Na Copa dos Campeões de 2001, o treinador era Zagallo, que também colocou seu nome no tricampeonato estadual de 2001. Ora, um vencedor de carteirinha, não obstante as críticas que sempre recebia. Não era unanimidade, mas era o Zagallo. Passados 15 anos, o Velho Lobo é um ancião fora de combate. Saúde a ele!

Foram duas Copas do Brasil. Em 2006, metade do trabalho foi do Waldemar (aquele), que saiu para dar vaga ao Ney Franco, que se sagrou campeão. Teve seus méritos e ainda ganharia o Carioca de 2007. Mas Ney Franco deixou a Gávea de forma péssimas, após deixar o time na parte debaixo da tabela e retornou ao Flamengo anos depois pior ainda. O mineirinho é capaz de ser agredido (não por mim, registre-se) se passar na porta da Gávea. Mesmo com dois títulos.

A Copa do Brasil de 2013 é o mesmo caso do Brasileiro de 2009: treinadores não-treinadores especialistas em Flamengo. Em 2009, Andrade foi campeão brasileiro, mas o título é lembrado pelas atuações de Adriano, Petkovic e cia, que pareciam saber o que estavam fazendo mesmo que Andrade, por um acaso, não soubesse. O Flamengo de 2009, para muitos, ganhou apesar do ídolo comandando o time. O que ficou provado depois, com a demissão de Andrade no meio da Libertadores seguinte, após decepcionante primeira fase.

O roteiro se repetiu com Jayme, que assumiu em 2013 um time morimbundo e o transformou em campeão da Copa do Brasil. Dessa vez, entretanto, menos a qualidade de jogadores como Elias e Hernane (e Cadu!) e mais a mística e a camisa se sobressaíram ao trabalho do técnico. A Copa do Brasil de 2013, afinal, também foi ganha APESAR de Jayme. O que também se provou após uma Libertadores patética no ano seguinte, ainda que o treinador tenha levado o polêmico carioca de 2014.

Tanto Jayme quanto Andrade nunca mais treinaram ninguém, pelo menos, nenhum trabalho relevante. Assim como Carlinhos, que na geração anterior, dava títulos ao rubro-negro, mas não ganhava nas poucas vezes que saía da Gávea. “Ah, Caio, então, a solução é a prata da casa! Jayme, Andrade, Carlinhos…”. Talvez seja. Mas só em caso de não-solução. Afinal, os três acostumaram-se a cair do céu. Os três são ou foram treinadores que só eram lembrado em caso de incêndio. Começar um trabalho com eles era pensar pequeno. Pelos três, em comum, muita gratidão. E só.

No meio desses treinadores com sangue rubro-negro, passaram por aqui Abel Braga, Luxemburgo e Cuca, que levaram títulos e fizeram seus nomes na história do futebol, mas pelas bandas da Gávea não são exatamente bem lembrados pelos seus trabalhos.

Isso sem falar, claro, nas apostas. Passaram por aqui, nomes brindados na imprensa hoje como novidades, casos de Ricardo Gomes, Dorival Júnior e Jorginho. Isso sem falar em outros que foram promissores, como PC Gusmão, Cristóvão Borges, Caio Júnior e Silas. E claro, os que vieram com peso no currículo, onde entram Celso Roth, Valdir Espinosa, Osvaldo de Oliveira e Mano Menezes, e agora, Muricy.

Nenhum deixou saudades, ainda que alguns tenham tido trabalhos razoáveis e outros, nem tanto. Talvez a única exceção de treinador quando se fala de Flamengo seja Joel Santana. O jeitão bonachão, a maneira antiquada de ver futebol, o personagem folclórico, mesmo sendo isso tudo, o treinador teve boas passagens pela Gávea, com títulos e bons resultados. Está entre os seis que se sustentaram no ingrato cargo de treinador do Flamengo em, pelo menos, 200 jogos. Desses, é o terceiro com melhor aproveitamento, atrás de Claudio Coutinho e Fleitas Solich, lendas do clube. E à frente de Zagallo, Carlinhos e Flávio Costa, três também no panteão de comandantes rubro-negros. O flamenguista, mesmo aquele que não admite, no fundo gosta de Joel. É grato por ele, sabe que ele fez bons trabalhos, em que pese a forma de jogo que nem todos gostam. O problema é dizer isso em público, por conta do personagem que Joel se tornou. Além disso, o treinador andou com a saúde debilitada e já é um senhor de 67 anos.

Conseguem contar quantos treinadores eu citei? Provavelmente muitos você quer no seu time. Mas no Flamengo, a coisa é diferente. Há alguns fatores visíveis. Não só a pressão de ser o clube com mais torcedores do país. Entram em campo, também, a eterna desorganização administrativa do clube, só agora sendo resolvida; a agressividade da imprensa carioca, que sabe sabotar um ambiente como nenhuma outra; e claro, a impaciência de uma torcida que se acostumou com títulos, e mesmo com eles, não se satisfaz.

As críticas à incerteza da diretoria e à forma como gere o futebol são justas e merecem ser publicadas. Mas há de se registrar: a coisa não é fácil como parece. Qual a solução? Não tenho a menor ideia. Mas no Flamengo, parece que ela chega sozinha.

Abaixo, a lista de treinadores do Flamengo desde 2001. Registre-se: os maiores campeões foram Zagallo, Ney Franco e Jayme de Almeida, com dois títulos cada, sendo um nacional e um estadual:

2001 – Zagallo (Carioca e Copa dos Campeões) e Carlos Alberto Torres
2002 – João Carlos, Lula Pereira e Evaristo de Macedo; além de Carlos César e Marcos Leme que foram interinos
2003 – Evaristo de Macedo, Nelsinho Baptista, Osvaldo de Oliveira e Waldemar Lemos, além de Marcos Paquetá como interino
2004 – Abel Braga (Carioca), PC Gusmão, Ricardo Gomes e Andrade, que também foi interino
2005 – Júlio César Leal, Cuca, Celso Roth, Andrade e Joel Santana, com Liminha comandando um time alternativo e Andrade também interino
2006 – Valdir Espinosa, Waldemar Lemos e Ney Franco (Copa do Brasil), com Adílio em um time alternativo e Moacir Pereira de interino
2007 – Ney Franco (Carioca), Joel Santana
2008 – Joel Santana (Carioca) e Caio Júnior
2009 – Cuca (Carioca) e Andrade (Brasileiro)
2010 – Andrade, Rogério Lourenço, Silas e Vanderlei Luxemburgo, com Toninho Barroso de interino
2011 – Luxemburgo (Carioca)
2012 – Luxemburgo, Joel Santana e Dorival Júnior, com Jayme de Almeida de interino
2013 – Dorival Júnior, Jorginho, Mano Menezes e Jayme de Almeida (Copa do Brasil)
2014 – Jayme de Almeida (Carioca), Ney Franco, Luxemburgo
2015 – Luxemburgo, Cristóvão Borges e Osvaldo de Oliveira, com Jayme de Almeida e Deivid de interinos
2016 – Muricy Ramalho

Leia também:

– Não adianta procurar: não há treinador para o Flamengo – parte II

– Flamengo e Fernando Diniz: tudo a ver

9 comentários em: “Não adianta procurar: não há treinador para o Flamengo – Parte I

  1. Uau, belo levantamento, Caio Bellandi! Realmente, o Flamengo é meio bizarro em relação a treinadores…

    Minha opinião é que com este elenco, pode ser o técnico que for, que o Flamengo não deve conseguir nada demais. Diante disso, eu já apostaria em algum nome fora do comum, pensando principalmente na próxima temporada 😉

  2. Belo post.
    Seu Ramalho teve a faca e o queijo na mão… O elenco não era fraco…dava pra fazer um time menos sem vergonha, mas…acredito que algumas derrotas para nosso coirmao Vasco segunda, deixaram o elenco abalado e logo depois vem o fortaleza e nem deixa o telefone. Seu Muricy Ramalho ralou, mas o clube fica.

  3. Aí está a prova de que o problema não está nos técnicos, e sim no time que é medíocre e na diretoria que é incompetente…
    Muricy ganhou quase tudo na carreira e é o melhor treinador do país após a desfalência de Luxemburgo, Dorival fez e faz ótimo trabalho no Santos que não tem um time acima dos três grandes da capital, Luxemburgo também venceu muito na década de 90 até 2004, Oswaldo de Oliveira ainda tem certo prestígio no futebol, Cuca é um dos treinadores mais cobiçados do futebol brasileiro no momento e Waldir Espinosa tem sua história…. Se nenhum deles deu jeito nessa barca é porquê o problema está na diretoria e nos jogadores, eles são técnicos e não mágicos….
    Agora quanto a Andrade, Jayme, Ricardo Gomes, Cristóvão Borges e esse outros aí citados, não tem como um time almejar ganhar alguma coisa contratando essas merdas….

    1. Desculpe-me mas o “MULACY” é um péssimo treinador. Completamente desatualizado, retranqueiro, em resumo, MEDÍOCRE. O Flamengo tem que dar Graças a Deus.

    2. Flamengo foi Campeão com o Andrade em 2009
      Copa do Brasil com Jayme,
      Esses dois são os treinadores dos últimos títulos do seu time, e vc vem me falar uma merda dessa ?

    3. Então contrata de novo e põe pra treinar o time Rafael Duff…. Rapaz, título pra se medir competência de treinador é o Brasileiro e a Libertadores… Falar em Copa do Brasil e Carioca? E outra, o Andrade deu cagada de ganhar aquele título, e foi em 2009, de lá pra cá nem emprego essa merda arrumou mais… É por isso que o Flamengo se tornou um time medíocre que sequer consegue ganhar do Vasco que disputa a segunda divisão do nacional…. Flamengo já foi grande um dia, hoje em dia ninguém respeita mais….

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