Não culpemos os técnicos estrangeiros. Mas que também não aliviemos

Créditos da imagem: Montagem do No Ângulo

Sou um entusiasta da contratação de técnicos estrangeiros para o futebol brasileiro. Inclusive, gostaria que o treinador da Seleção fosse o Guardiola. Simplesmente não vejo nenhum sentido em separar treinadores entre “brasileiros” e “estrangeiros”, como se representassem categorias absolutamente distintas. A nacionalidade não interfere na qualidade do profissional, mas aqui no Brasil ainda tem muita gente injustificadamente resistente a entregar o comando técnicos das equipes a quem nasceu em outro país.

Mas como toda ação provoca uma reação, como consequência, teve início outro movimento: o da supervalorização e simpatia pelos técnicos gringos. Como há esse boicote nos meios mais conservadores do nosso futebol (especialmente os dirigentes, mas também técnicos corporativistas e até parte da imprensa), e a nossa “autoestima futebolística” está no fundo do poço, apostar em estrangeiros passou a ser visto como “ser moderno”.

Por exemplo, após a saída de Muricy, o São Paulo definiu que o próximo treinador seria estrangeiro, e entre vários nomes cogitados, o colombiano Osorio foi contratado. Eu concordo com a decisão do tricolor do Morumbi: num momento em que não há boas opções de técnicos no mercado brasileiro, faz todo o sentido buscar alguma solução lá fora. Ainda mais que a escolha pareceu ser muito criteriosa. Só que, feliz ou infelizmente, até agora não está rendendo frutos.

Antes, o Inter investiu no uruguaio Diego Aguirre. Inicialmente muito contestado por não formar uma equipe titular, passou a colher bons resultados (título gaúcho e semifinal da Libertadores) e foi utilizado por boa parte da imprensa nacional como exemplo de “mentalidade mais avançada do que a dos brasileiros”. Nessa época, ninguém ousava dizer, por exemplo, que o Inter não mostrou um futebol convincente contra o Atlético Mineiro nas duas partidas pelas oitavas-de-final da Copa Libertadores, e que sua classificação foi um tanto quando circunstancial. Mas agora, com a categórica eliminação contra o Tigres do México, a campanha abaixo da crítica no Brasileirão começa a pesar.

Não sou do tipo que tem por princípio a defesa da manutenção dos treinadores: várias vezes vejo total sentido na troca de comando. Como exemplo, acho absurdo que ainda hoje muita gente diga que o Palmeiras teria os mesmos resultados caso tivesse mantido Oswaldo de Oliveira e não contratado o excelente Marcelo Oliveira. Mas apesar disso, defendo que os estrangeiros de São Paulo e Inter sejam mantidos, pois enfrentam problemas que fogem da alçada de um treinador: enquanto o colombiano tricolor chegou no meio da temporada e teve que encarar perda de atletas e salários atrasados, o uruguaio colorado conta com muitos atletas lesionados e teve a parada da Copa Libertadores em função da Copa América que prejudicou muito a mobilização dos jogadores. Só não dá para querer perfumar e dizer que o que foi mostrado até agora é bom, porque não é, seja o profissional nascido aqui, em outro país ou em Saturno.

Como nós brasileiros costumamos ser muito imediatistas, já prevejo uma onda de “cadê os estrangeiros que iam salvar o nosso futebol?”, “não é só colocar um estrangeiro de técnico que está tudo resolvido?” e por aí vai. Por isso, acho importante mantermos a serenidade e não criarmos “facções”. Osorio e Aguirre não têm nada em comum e devem ser vistos isoladamente, assim como os recentes fracassos de Felipão não impediram que seu contemporâneo e compatriota Levir Culpi fizesse o fantástico trabalho que vem realizado no Atlético Mineiro.

E que não usemos Gareca, Osorio e Aguirre como parâmetro para o Guardiola na Seleção. O catalão é simplesmente o treinador mais revolucionário das últimas décadas do futebol mundial. Ele está para os citados mais ou menos como o extraordinário e genial Messi está para o ótimo Lucas Pratto.

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