O dia em que um cartola me convidou para ir às compras

Créditos da imagem: Telecine

Peço licença para contar mais três coisinhas sobre a vida de repórter, que me encanta. Rapidinho, e todas ligadas a Tostão. Na primeira vez que fui entrevistá-lo em Houston, Texas, ele não queria falar com ninguém. E acho que com total razão. Vivia dias de incerteza sobre continuar a carreira. O diretor da revista mandou que ligassem para Tostão no hospital,  e ele não atendeu. Contratou um repórter local e nada feito. Então o diretor me escalou. Tinha voltado de uma viagem e pedi para que mandasse outro. A resposta foi “não, ele não pode se fu…”. Perguntei: “e eu posso?”. A resposta foi sim.

Até hoje, quando me sinto “mau”, coisa raríssima, penso que o diretorzão gostaria mesmo que eu me fu… Quando me acho “bom”, o que acontece praticamente o tempo todo, vejo como um elogio.

Perguntei ao chefe o que deveria fazer caso não conseguisse falar com Tostão e ouvi que deveria mostrar como o povo de lá via e sentia o drama de um ídolo do nosso futebol. Houston, Texas, antes de Pelé chegar no Cosmos. Deu para imaginar, né?

Voltando ao hospital (lembra-se da coluna anterior?), depois do diálogo duro, cheio de acusações e promessas de ir à Justiça,  o presidente do Vasco, ao levantar-se, olhou para mim e só então se tocou. Quando pensou perguntar se eu era jornalista, já respondi que sim. Ficou pálido e indagou se eu conhecia o maravilhoso shopping de arte e decoração da cidade. Informei que não e ele convidou-me três vezes para acompanhá-lo. Eu iria gostar, garantia. E quatro vezes ouviu a mesma resposta: “deixa como está, presidente…”.

Voltei a Houston um tempinho depois, quando Tostão foi fazer novos exames e saber que devia parar com a bola. O diretor mandou que eu levasse máquina e fizesse as fotos. Argumentei que não sabia fotografar e ele disse que o Lemir Martins me ensinaria. Ouvi os ensinamentos e, ao final da aula, pedi ao Lemir para segurar uns minutos a máquina e os filmes, enquanto eu ia pegar passaporte, dinheiro e passagem, dois andares acima. De lá desci direto. Sempre achei que quem fotografa e escreve por um salário só, pode estar tirando trabalho de alguém.

Em Houston, fui ao jornal, que já conhecia, e contratei um fotógrafo. Papo e fotos foram no apartamento do médico mineiro Abdalla Moura, que havia operado e cuidava da vista de Tostão.  Acho que o diretor não gostou de alguma coisa, porque não me escalou para a Copa da Alemanha-74.

No início de 82, a Seleção estava concentrada na Toca da Raposa, em Belo Horizonte. Eu estava em férias e, por minha conta, resolvi tentar entrevistar o agora doutor Eduardo Andrade, que continuava gostando de futebol, mas não dava entrevistas. Peguei o busão, hospedei-me num 5 estrelas – uma na porta, quatro no céu – perto da rodoviária. Marquei e fui conversar com o amigo Gérson Sabino (irmão do escritor Fernando), apaixonado e profundo conhecedor do futebol. Gérson contou tudo e algo mais. Na manhã seguinte, sábado, dei plantão no Hospital Santa Lúcia. Doutor Eduardo não demorou a aparecer. Estranhou me ver e perguntou o que eu queria. Disse. Conversamos uns 15 minutos, sem compromisso. Sobre a vida… Disse que ia conversar com  a família e me ligaria no hotel. Ligou. Perguntou se a entrevista me ajudaria a melhorar na revista, ir para novo emprego, algo assim. Se fosse, estaria me esperando. Caso contrário, pedia para ser liberado. A resposta foi não. Menti e minto muitas vezes, mas naquele caso não. Era mais do que uma reportagem. Era…

Peguei o busão de volta, arquivei o papo com Gérson Sabino e deixei Tostão seguir viagem para Mataízes, litoral do Espírito Santo, onde tinha uma casa de praia, que conheci em janeiro de 1970, quando fui entrevistá-lo para a Edição de Esportes do Estadão.

8 comentários em: “O dia em que um cartola me convidou para ir às compras

  1. “Sempre achei que quem fotografa e escreve por um salário só, pode estar tirando trabalho de alguém.
    Em Houston, fui ao jornal, que já conhecia, e contratei um fotógrafo”. Zé, por essas e outras que, quanto mais o conheço, mais o admiro. 😉

    1. Sei que não é tão simples. Sei que às vezes é preciso engolir sapos. Todos temos compromissos a cumprir, responsabilidade – ainda mais quando se é casado de novo e tem três filhos crianças…Mas quando é possível…Por aquelas e outras, em 74, o chefe me chamou à sala dele, um domingo à noite e perguntou se minha mulher me havia falado alguma coisa sobre a Copa. Ela não havia. Me conhecia e sabia ser melhor nada falar. Respondi que não e ele me disse que eu não estava na equipe que cobriria a Copa na Alemanha. Claro que fiquei p, mas sempre me preparei para todas as situações. E aí, disse a ele-“é isso? Sem problema. Meu contrato não exige. Trabalharei aqui. Com licença” E fui terminar o serviço…rssss

    1. Acho normal. Poderia ter tido sim ao Tostão e trazido uma bela reportagem, num momento em que ele se negava falar com qualquer pessoa sobre futebol. Mas me sentiria mal. Era um momento difícil, em que uma boa reportagem poderia me ajudar. Mas, por outro lado, talvez eu não acabasse sendo demitido – quando fui chamado para trabalhar na Copa de 82, pela Globo. Saí da revista e fui para o Estadão e a Globo. Troquei seis por 17. abss

  2. Obrigado, Alex. Na vida somos duas coisas. Para os outros, somos o que os outros acham. Para nós, somos o que achamos ser. Às vezes coincide, o que é bom. Às vezes não coincide, e devemos ficar com o que achamos ser. abração

  3. Esse fato é maravilhoso e retrata fielmente a sua importância, senhor José Maria, para a classe jornalística. Credibilidade é tudo!

  4. Pelo que coloquei (escolhi) Ademir, três momentos diferentes, situações diferentes, todos refletindo as lições que aprendi ainda em Miracema, nossa santa terrinha, moleque de pé no chão, sem a menor noção do que seria o amanhã. Não agredi, de forma alguma, o cartola que queria me presentear e, sei, me calar de coisa que já tinha decidido não contar (coluna anterior). Respeitar os colegas, cada um na sua, sem atropelar, fazer do outro escada. Ali estava um que fotografava e escrevia – muito mal, por sinal. e a consciência de que o que vale não é o que acham e pensam de você, mas o que você sente e acha que é. Como disse em uma resposta acima, se eu tivesse feito a reportagem, talvez não tivesse saído – demitido, com orgulho, pois sei a razão – e não teria tido uma porta fechada e logo duas, bem mais largas, abertas. A revista já estava… abraçãop

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