O esporte pede mais que um banco

Créditos da imagem: Reprodução / www.gamesbras.com

Creio que os debates sobre a legitimidade de um banco público, no caso a Caixa, patrocinar equipes de futebol nunca estiveram tão em voga quanto agora, o que talvez possa ser explicado pelo atual momento político-econômico do país. Em vista disso, usarei este artigo para passar minha visão sobre o assunto, tentando me abster totalmente de eventuais opiniões de cunho político.

Inicialmente é importante que fique claro que a iniciativa da Caixa vinha sendo muito mais uma compra de mídia do que propriamente um patrocínio, o que, aliás, é o que costuma acontecer no mercado brasileiro, ou seja, as empresas entram buscando basicamente a exposição de marca, deixando de usufruir os diversos benefícios que o investimento poderia proporcionar.

Diante desse cenário, sugiro explorarmos dois questionamentos que nos ajudarão na reflexão sobre o tema central:

  1. Por que as empresas privadas não têm se interessado por esses espaços?
    Seria uma questão de valores? Seria por não acreditar nesse tipo de patrocínio ou, na visão de muitos, nesse tipo de “publicidade”? Seria por não terem confiança nos gestores dos clubes, afinal, o nível de endividamento da maioria denota que, pelo menos no passado, não foram geridos de forma eficaz?

    Qualquer que seja a resposta, não me parece razoável que a Caixa estivesse certa em suas convicções e um grande número de empresas estivesse/esteja errado.

  2. Como era a visão de médio e longo prazo do banco a respeito do futebol?
    A escolha dos clubes que receberam as verbas da Caixa e a diferença entre esses valores levavam em consideração uma suposta maior popularidade desses times. No entanto, essa mesma “suposta popularidade” tem sido responsável por outra defasagem em relação às receitas: a distribuição de cotas de TV.

Podemos assim inferir que a participação do banco estatal contribuía ainda mais para que se aumentasse o desequilíbrio entre os clubes, de forma que a competitividade –um dos principais fatores de atratividade de um evento esportivo– ficasse comprometida, o que pode trazer reflexos negativos tanto na audiência, como na presença nos estádios e até nos números de fãs da modalidade, visto ser bastante monótono assistir uma competição em que os favoritos não são ameaçados.

Será que a Caixa se atentou para a sustentabilidade da modalidade?

Não parece, vide as declarações que eram dadas pelo banco para justificar sua presença massiva no futebol, as quais apontavam majoritariamente para a necessidade de a Caixa estar competitiva no mercado em que atua. Tais argumentos denotam uma visão limitada e sem viés estratégico, pois, se a Caixa olhasse o esporte como um agente de formação, teria total interesse no fomento de várias modalidades, as quais atrairiam direta ou indiretamente crianças e jovens que, influenciados pelos princípios e valores inerentes do esporte, teriam maiores chances de se tornarem melhores cidadãos.

Essa melhor formação contribuiria para diminuir os índices de desemprego e, consequentemente, traria vantagens para a própria Caixa, dado que, além de solidificar seu posicionamento de empresa com forte visão social, também auferiria ganhos quantitativos através do incremento de depósitos do FGTS, fundo do qual possui o monopólio.

Há espaço ainda para se discutir os investimentos que o banco faz nas modalidades olímpicas, já que muitos criticam o uso de verba pública para o esporte de alto rendimento, o que tendo a concordar por achar que, diante de tanta carência de recursos para saúde e educação, o esporte de iniciação deveria ser prioridade, até porque, esse contribui de alguma forma para minimizar as carências citadas acima.

No entanto, não podemos ignorar que uma das condições para a atratividade de uma modalidade é que ela esteja na mídia, que o desempenho em competições internacionais seja bom e que tenha ídolos. Portanto, creio ser válida a iniciativa de focar o alto rendimento, desde que, é claro, a iniciação esteja contemplada e haja todo um planejamento com foco no futuro.

Por fim, penso que toda essa discussão poderia ser minimizada caso a iniciativa privada acreditasse na força do esporte. Colaboraria para isso que as organizações esportivas fizessem sua parte e fossem geridas de forma séria e competente.

Um comentário em: “O esporte pede mais que um banco

  1. Existem exemplos de bons patrocínios no brasil para além de exposição na camisa? Em outros esportes, talvez?

Deixe sua opinião e colabore na discussão