O Fantástico Mundo de Casagrande. E mais

Créditos da imagem: Globo Esporte

“Use your illusion” – ou “uma dupla nada dinâmica”

Cristiano Ronaldo e Zidane devem estar felizes. Não por causa do troféu breguice da FIFA, que já era favas contadas. O motivo da alegria é ficar sabendo que o Corinthians não é tão assombroso como preconizava Casagrande. Há cerca de dois meses, o comentarista garantiu que o time de Carille poderia vencer o bicampeão da Champions League, salientando que “talvez” o Real Madrid fosse favorito. Não foi a primeira vez que seu entusiasmo viajou na maionese. Em 2015, após um jogo da primeira fase de Libertadores (contra o pior time do grupo), decretou que o time treinado por Tite tinha condições de ser semifinalista de Champions League. Vai ver, o problema foi mesmo jogar a competição errada, já que não chegou sequer às quartas-de-final daquele ano. Agora o comentarista aposta numa virada palmeirense contra o ex-Bayern de Itaquera. O Palmeiras tem com que se preocupar.

É difícil haver alguém que não simpatize com Casagrande. Adorado por corintianos, bem quisto por são-paulinos (jogou bem no tricolor, no segundo semestre de 1984) e respeitado por palmeirenses, o ex-atacante tem a torcida de todos na luta diária – e assumida – contra as drogas. Como jogador, não era apenas um fazedor de gols na banheira. Pelo São Paulo, foi ponta-de-lança e deixou o consagrado Renato no banco. No Torino, chegou a atuar como líbero, posição insólita para quem sempre jogou do lado oposto do campo. Sua carreira televisiva começou animadora por conta da independência. Mas vamos encarar os fatos: parou por aí. Não evoluiu nada em relação à primeira vez que esteve diante do microfone. Suas observações táticas são rasas, o que torna surreal a informação de que, em 2003, foi sondado pelo SPFC para substituir Osvaldo Oliveira. Tudo bem que veio a reconhecer que teria sido um erro gigantesco se aceitasse. Seria melhor ainda se tal autocrítica resultasse num crescimento profissional.

Não será a Rede Globo, sua empregadora, que cobrará aprimoramento. A emissora está bastante satisfeita com ele e Caio Ribeiro, o homem capaz de pisar em dúzias de ovos sem quebrar nenhum. Caio não foi sombra do jogador Casagrande, em bola ou carisma. Mas, como o colega de “centroavância”, também consegue circular por todos os torcedores, até porque nem foi ídolo no São Paulo. Era um centroavante promissor que deixou o Morumbi cedo, justamente quando se firmava, para rapidamente sumir do mapa relevante. Na TV, procura fazer o tipo “ponderado brasileiro”. Mesmo as críticas usualmente utilizam o termo “um pouquinho”. Seu outro predicado seria dar ao telespectador a profundidade tática que Casagrande não tem. Isso se profundidade tática for brincar com a mesa virtual, pedir a saída de um volante quando o time estiver perdendo, ou soltar pérolas como “tem que acabar essa história de que atacante deve acompanhar lateral” – dias antes de a seleção sub-17 tomar um gol decisivo, porque o atacante não acompanhou o lateral…

Vale destacar que este colunista não está confirmando a “Lei de Globwin”, citada em coluna anterior, sobre tudo ser culpa da Globo. Na concorrência da TV aberta é pior ainda. Todos se utilizam do que batizo como “mascotes” – comentaristas que mais latem que analisam, sob a justificativa de serem “autênticos que falam o que pensam”. Há vinte anos, o apresentador Ratinho profetizou: “quem quiser qualidade, que assista TV a cabo”. Dito e feito, embora nem seja tão boa a qualidade das emissoras fechadas. PVC, o mais prestigiado dos comentaristas, tornou-se um auto-escravo das estatísticas. Seu rival Noriega às vezes descreve jogos mais fictícios que correspondentes ao que está em campo. Ainda assim, é inequívoco que tentam e não se satisfazem em fazer a mesma coisa, ano após ano. E ganhando menos que os companheiros do grande público. Quem está no topo se acomoda. Até porque, nos veículos brasileiros, estar no topo significa permanecer nele por dez, vinte ou trinta anos. Mesmo que haja gente muito melhor à espera de uma oportunidade.

Quem perde com tudo isso é o fã do esporte, à mercê da desinformação a serviço da audiência. É mais fácil ter esperança ouvindo que seu time mal das pernas precisa melhorar só “um pouquinho”. Ou que seu time bem na tabela pode desafiar Real Madrid, Barcelona e quem vier numa boa. Nem ligam quando o time “ousado” que tirou o volante leva mais um gol. Ou se, de uma hora pra outra, o padrão Champions League nem vai ganhar o pior Campeonato Brasileiro da História. Logo virão novas fantasias sustentadas por Caio e Casão. Galvão Bueno está errado. Torcedor brasileiro não vive de emoção, e sim de ilusão.

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Vamos falar o de sempre? Eba!!!!! Só que não…

14 comentários em: “O Fantástico Mundo de Casagrande. E mais

  1. “Quem está no topo se acomoda. Até porque, nos veículos brasileiros, estar no topo significa permanecer nele por dez, vinte ou trinta anos. Mesmo que haja gente muito melhor à espera de uma oportunidade.”

    Nada é mais verdadeiro! É assustador isso, não importa o quanto outros profissionais se mostrem melhores, é como se não existisse concorrência. Do Casagrande ao Faustão o padrão é sempre o mesmo.

    Só discordo quanto a usar a má fase/fracasso de times outrora elogiados para invalidar o passado. Em que pese exageros, o Corinthians que o Casagrande elogiava era o que fazia a melhor campanha de um turno na história do Brasileirão. Ainda que tenha os mesmos jogadores, o momento é outro, não diminui o que fez naquele período. Assim como, mal comparando (é só para ilustrar, hein!) o Barcelona que tomou 7 no placar agregado contra o Bayern, em 2013, tinha os mesmos jogadores, mas não era o mesmo do Guardiola, sempre apontado como um dos melhores times da história do futebol.

    1. Nem em sua melhor fase este time do Corinthians enfrentaria o Real Madrid de igual pra igual. Assim como o de 2015 não tinha bola pra ser semifinalista de UCL. Minha crítica a Casagrande não significa que menosprezei o time corintiano. Mostro que, pois sim, houve um tremendo exagero no elogio. Nada contra enaltecer um time que vinha batendo recordes, mas o que ele fez foi delírio.

  2. O CAIO É MAIS ALMOFADINHA, MAS GOSTO DELE. DE UNS TEMPOS PRA CÁ TEM SE POSICIONADO MAIS E SAÍDO DO MURO.

  3. O NORIEGA COMPÕE, AO LADODO MILTON LEITE, A MINHA DUPLA DE TRASMISSÃO FAVORITA NA ATUALIDADE.

    NÃO QUE NÃO ERREM, MAS ELES TÊM QUÍMICA E SÃO MUITO AGRADÁVEIS DURANTE O JOGO.

  4. Eu gosto do Casão, ele erra como todos erram, mas é gente boa e acompanha bastante futebol! Essa coluna está mais ácida que o Mauro Cezar Pereira! kkkkkk

    1. Eu disse que ele não é gente boa e que não acompanha futebol? Apenas penso que, como tantos outros, ele não aprende com a experiência e se repete em afirmações descompensadas. Só que, ao contrário de muitos destes tantos outros, ganha – e muito bem – pra isso. Abs

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