O novo do velho – José Mourinho e o tempo que parou

No fim da temporada europeia de 2003/2004, o improvável título continental do Porto (na improvável final com o Mônaco), o futuro do futebol parecia passar pelo cérebro de José Mourinho. O ex-auxiliar de Bobby Robson logo chegou ao Chelsea e mais adiante, na Internazionale, conquistou sua segunda Champions League em 2010. Mal sabia ele que, meses depois, teria início uma série de fatos que mostrariam, de forma cruel, que estava fadado a ser o último sopro de atualização de um futebol que ficou datado. Assim como o colega Rafa Benitez, é um exemplo de engenhosidade, porém num cenário que envelheceu mal.

O primeiro baque foi uma goleada de 5 a 0 contra o Barcelona de Guardiola – o mesmo vencido por ele na Champions. O Real Madrid contava com Mourinho para desafiar a hegemonia rival. O retorno foi uma temporada frustrante. Mesmo a vitória na Copa do Rei não apagou outro passeio rival, desta vez na semifinal da Champions League. Isso numa disputa em que os merengues se retrancaram em casa – inutilmente. Com os primeiros sinais de oscilação do Barcelona, o Real beliscou um título espanhol no ano seguinte. Porém, mais duas eliminações em semifinais europeias custaram seu emprego. Surgia, inclusive, um novo incômodo chamado Jurgen Klopp. O alemão e Guardiola seriam a dupla que ressaltaria o estancamento do antipático luso – que já nem tinha a simpatia do compatriota Cristiano. Este seria seu problema paralelo: a indisposição com as estrelas dos elencos.

Fora da Espanha, Mourinho dava como certa a sucessão de Alex Ferguson, seu ídolo pessoal, no Manchester United. Preterido, aceitou voltar ao Chelsea e parecia dar a resposta aos críticos. No primeiro ano, um terceiro lugar na Premier League e outra semifinal na Champions. Na segunda veio outro título inglês com futebol até vistoso – fruto da presença de Fàbregas no meio-campo. Eis que outro drama se fez presente: a batizada síndrome da terceira temporada. Muitas brigas, nenhum título, outra demissão. Mas a sorte ainda lhe sorriu, porque enfim o United resolveu lhe dar a chance sonhada. Repetiu-se a História, porém com menos brilho. Ganhou uma Liga Europa, mas se tornou freguês de carteirinha do rival City e do Liverpool – treinados justamente por Guardiola e Klopp. Não foi de espantar que a demissão tenha vindo após outra derrota para o segundo.

Os fatos são conhecidos e notórios. Resta saber o que concluir. Como um técnico tão promissor soa como ultrapassado tão rapidamente? Mourinho tem apenas 55 anos. Muito cedo para ser rotulado desta forma. Telê Santana, por exemplo, teve sua melhor fase depois dos 60, calando quase todos os críticos no SPFC. Mas o “special one” é o único culpado por tal situação. A razão básica é a mesma que, no Brasil, é associada à decadência de Vanderlei Luxemburgo. O ego gigantesco o impede de assimilar os métodos dos colegas. Não apenas dos estilos diametralmente opostos, como de outros defensivos. Afinal, só entendendo a proposta inversa para enfrentá-la melhor, em vez de simplesmente colocar o time para jogar por uma bola. Mourinho tem preferido insinuar que os rivais ganham porque seus clubes gastam mais. Como se ele, Mourinho, treinasse apenas equipes franciscanas. Beira o ridículo.

Além deste bloqueio prepotente, existe o mencionado choque de vaidades com os jogadores. Pode-se argumentar dizendo que um técnico chato é, muitas vezes, aquilo do qual um jogador precisa para dar seu melhor. O ponto é que nenhum destes conflitos resultou em ganho de rendimento do atleta. Pelo contrário. Portanto, se o objetivo da abordagem for esse, Mourinho tem uma das piores orientações psicológicas do meio. Então é mais provável que esta conduta de diva seja apenas fruto de um temperamento ruim. Juntando o histrionismo gratuito com a teimosia em ver méritos alheios, restou ao United buscar outro comandante para salvar a temporada. Não deve ficar somente nisso. A repetição de insucessos fechará portas em outros clubes grandes. Na Europa, não me parece haver Mourinetes como os Vanderletes – finalmente ameaçados de extinção.

E agora, José? Este colunista sugeriria mudar para técnico de seleções. Por força da falta de tempo e do desgaste físico, o padrão de Copas do Mundo ainda é mais atrasado que em competições de clubes. A França usa uma tática relativamente conservadora. Por outro lado, ao lembrarmos que o destaque Pogba foi preterido nas escalações do Manchester, constatamos que a condição indispensável de uma retomada é enterrar as picuinhas. Difícil é convencer o escorpião a não matar o sapo antes de atravessar o rio. A probabilidade atual é que, no lugar de ser lembrado pelo que venceu, Mourinho entre para a História como o “pai” do ônibus estacionado na grande área. Melancólico, mas ninguém mandou se sabotar tanto. Ora pois.

Deixe sua opinião e colabore na discussão