O profético 2019 no Morumbi – entre o upgrade e a frustração

Créditos da imagem: Reprodução / Twitter @saopaulofc

Após outra temporada de mais baixos que altos, a diretoria são-paulina encerra o ano com a melhor sensação de competência dos últimos tempos, por conta de um autêntico Sábado de Aleluia. No mesmo dia em que se livrou do problema Rodrigo Caio, trouxe uma solução de eficácia já comprovada com o retorno de Hernanes. Uma junção tão forte que retira da memória, ao menos por algumas semanas, as bobagens que também foram cometidas em 2018 – incluindo terem escondido que o próprio Hernanes seria devolvido aos chineses no começo do ano. De todo modo, o Profeta volta com merecido status de jogador que mudará o padrão do time. Resta entender como isso pode acontecer.

Existe uma diferença entre se destacar lutando contra o rebaixamento e disputando um título. Em 2005, Edmundo foi decisivo para salvar o Figueirense e voltou ao Palmeiras como se tivesse caído na fonte da juventude. Houve tricolores inteligentes que acharam absurdo o então campeão do mundo não ter ido atrás dele. Não demorou para os palmeirenses sacarem as coisas. Em SC, Edmundo era o que chamo de cabeça-de-sardinha. O time todo se fechava e corria para que ele, sem se mexer muito, fizesse sua parte na fuga. Ser campeão é outro papo, que o animal não conseguia mais pronunciar. O que difere para a situação de Hernanes é que este não teve privilégio nenhum em 2017. Pelo contrário. Correu bem mais do que esperava. Chegou pensando que ficaria na frente e logo estava bancando o onipresente, chegando a ser volante e meia no mesmo jogo.

O caso de Hernanes, assim, é inverso ao do pouco móvel Edmundo. Para ser bem sucedido, o SPFC deverá proporcionar um futebol em que ele só precise fazer uma função. Se vierem com aquela de ele ser pau pra toda obra, como na década passada, serão três milhões de euros e um grande salário desperdiçados. Com 33 anos, ou ele se contundiria, ou logo perderia rendimento. Já escrevi anteriormente que a multifuncionalidade foi responsável por ele não ter atingido o estrelado mundial. Tivesse sido preparado apenas como meio-campista, otimizaria seus talentos na melhor posição. Só que agora, pela idade e pelo calendário brasileiro, sua tarefa não deve ser a armação. Deve usar seu poder de finalização para ficar perto do centroavante, buscando jogo apenas a seu redor como um ponta-de-lança. Algo similar ao que Luan fez no Grêmio em seus melhores dias.

Isto traz consequências no planejamento. Hernanes veio para aprimorar o encerramento das jogadas (assistência ou gol), não a criação delas. Mais: sua titularidade deve colidir com a de Nenê. Já vi comentaristas assegurando que os dois e Pablo podem jogar juntos. Ouso prever que Caio Ribeiro dirá que Diego Souza pode se juntar aos três. Parece a piada do árabe no leito de morte, irritado porque nenhum dos filhos ficou tomando conta da loja. Traduzindo para o futebol: nenhum time ganha nada marcando com sete, muito menos seis. Os dois veteranos da última temporada terão que aceitar o banco e a participação quando os titulares forem poupados, como aconteceu no Palmeiras com Felipão. Por isso é fundamental que Jardine – e até Raí – conversem com os dois para sentir o comprometimento. Havendo sinal de rebeldia, melhor que saiam. Aborrecimentos não tornam o time mais competitivo.

Conclui-se que a vinda de Hernanes é grande oportunidade de queimar etapas em nova reconstrução, desde que feitas as adaptações. Ainda será recomendável mais um atleta com capacidade de distribuir jogo – só se tem Liziero, que pode sair. Os medalhões de 2018 precisarão, como dito acima, aceitar serem medalhinhas. Fora as lacunas sem relação com o Profeta. Faltam a lateral-direita (Bruno Peres marca mal e nem ataca grande coisa) e outro zagueiro confiável (que não, não seria Rodrigo Caio). Sem tais ajustes (e contando ainda com o sucesso de Pablo), dificilmente o São Paulo aproveitará os acertos do dia 29 de dezembro. Serão apenas outra resolução frustrada de ano novo, com o clube obeso e sem ânimo de recente costume.

Deixe sua opinião e colabore na discussão