Opinião: ser ídolo no futebol brasileiro é algo cada vez mais difícil

Créditos da imagem: Fox Sports

Como foi que nos tornamos tão insensíveis assim ao nosso futebol e nossos ídolos?

Ao ver Fred chorando na coletiva de imprensa do Fluminense, fiquei realmente triste pelo que nos tornamos. E possivelmente você esteja pensando “Mas eram lágrimas de crocodilo, saiu para ganhar mais dinheiro!”, e até o fato de eu ter ouvido muita gente boa falar isso também me deixou ainda pior.

Fred é um dos maiores ídolos da história do Fluminense, um grande clube mundial. Sob qualquer critério (números, representatividade, títulos, qualidade técnica, longevidade, etc.), o centroavante brasileiro da última Copa construiu, em sete anos vestindo a camisa tricolor, uma trajetória de destaque. Jogador marcante por ter a fama de bon vivant (que vivia e curtia o Leblon, o que combina com a tradição aristocrática do clube das Laranjeiras), chegou a ser “dono do clube” e provocar real idolatria.

Ao mesmo tempo, o duas vezes artilheiro do Brasileirão pelo Flu sempre reforçou sua ligação com o Pó de Arroz e nunca falou em sair do clube. Declarou publicamente o desejo de encerrar a carreira por lá.

Bastou um desentendimento estranho com o novo técnico Levir Culpi (a quem, pelo que sei, admiro como pessoa e treinador), que nada fez ainda pelo Tricolor e que mal sabemos se entra 2017 no lar atual, para que muitos reclamassem que o goleador se acha o dono do clube. Depois disso, ficou uma nuvem que só se dispersou com a transferência para o Atlético Mineiro.

Por mais que Fred tenha chorado na coletiva e dado a entender que não queria sair do clube, muitos apontam o dedo para ele e ainda dizem que ele saiu por uma melhor oferta salarial do Atlético. Eu, sinceramente, não acredito em ofertas milionárias (superiores ao alto salário que recebia nas Laranjeiras) neste contexto de crise econômica do nosso futebol e do país. Se não devemos “comprar” automaticamente a versão do atleta, tampouco devemos considerar os interesses dos clubes culparem os antigos ídolos pela “deserção”. Eu não acho que “cifras milionárias” só tenham aparecido agora, depois do choque com Levir. Para mim, certamente teve a ver com não se sentir querido no clube que ajudou a engrandecer na última década.

Para completar a melancolia, Fred ainda foi para o Atlético, o grande rival do Cruzeiro, clube que o projetou e do qual ele se dizia torcedor.

Paralelamente, comenta-se que o goleiro Cássio, ídolo histórico do Corinthians e um dos heróis do bicampeonato Mundial (o outro foi Guerrero, hoje no Flamengo, fruto de outra transferência polêmica), pode ser vendido. Subitamente colocado no banco de reservas, vem sendo tratado com um certo desdém pelo clube, torcida e imprensa. Diz-se que seu substituto, Walter, dá conta do recado (ainda que nunca tenha feito nenhuma defesa marcante ou sequer disputado uma final pelo alvinegro).

Além desses casos que envolvem os dois maiores ídolos de clubes brasileiros da atualidade, há pouco vimos a desastrosa escolha de Robinho por voltar ao país para defender o gastador Atlético, e não o Santos, onde tinha escrito uma linda história.

Soma-se a isso a já mencionada ida de Guerrero para o Flamengo, a quase “expulsão” de toda a opinião pública nacional de Neymar para a Europa (enquanto seguia progredindo sem parar por aqui, dizia-se que precisava ir para “a Europa” para evoluir, e chegavam a citar o mediano Lucas Moura que exemplo positivo. Hoje, que Neymar está realmente estagnado ou até em involução, ninguém o “manda” mudar de ares), os constantes questionamentos se Rogério Ceni não estava fazendo “hora extra” no São Paulo, etc.

Mas basta um Daniel Alves sair do Barcelona, ou um Gerrard encerrar sua brilhante trajetória no Liverpool, para rendermos as maiores homenagens e produzirmos belos textos e matérias sobre “o fim de uma era”.

Idolatria é “bacana”, mas algo nobre demais para que se possa cultivar neste oceano de espíritos de porco. Melhor deixamos para nos “emocionar” com o futebol europeu mesmo. Nós não merecemos.

2 comentários em: “Opinião: ser ídolo no futebol brasileiro é algo cada vez mais difícil

  1. Verdade. E o Robinho, como você bem escreveu, desperdiçou a relação bonita que ele tinha com os torcedores do Santos ao acertar com o Atlético Mineiro, que ofereceu a ele um salário maior… Já quanto ao Fred, tenho minhas dúvidas do que realmente aconteceu, mas parece que ele também foi embora por causa de grana, além de um possível mau relacionamento com o Levir Culpi. :/

  2. Quando Pelé decidiu ir para o Cosmos, fui encontrá-lo, depois de muita busca, treinando às 6 da madrugada, na Vila Belmiro. Às sete parava e ir para o escritório discutir o contrato. Perguntei se ele sabia o que o povo estava dizendo ((que não tinha disputado a Copa de 74 etc) e Ouvi? Quero que o povo…Se um dia eu ficar duro, o povo dirá que gastei tudo com bebida e loiras”

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