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Os times precisam de ídolos ou de “donos”?

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Créditos da imagem: IG

O desentendimento entre o artilheiro Fred e o técnico Levir Culpi escancara novamente um tipo de relação bastante frequente nos clubes de futebol: o ídolo que se torna uma espécie de “dono” do time.

Aparentemente insatisfeito com a perda de “autoridade” para opinar em questões técnicas e dar broncas nos companheiros, após a chegada do novo treinador, Fred colocou a diretoria do Fluminense na parede: “ele ou eu!”.

Considerado um treinador firme, com comando, Levir diz não entender o que acontece com o jogador, mas fincou duas frases óbvias: 1) “ninguém é mais importante do que o clube, nem treinador nem atleta”; 2) “técnico treina, jogador, joga”.

Não é a primeira vez que ocorre esse tipo de trombada na história dos clubes. A carência de talentos faz com que, nos últimos tempos, mais craques assumam o perfil de “donos” de seus clubes. Dão ordens, muitas vezes derrubam treinadores e escalam companheiros. Como ídolos da torcida, têm um salvo-conduto para impor suas vontades.

O caso mais destacado de liderança inconteste foi o do goleiro Rogério Ceni no São Paulo. Para muitos foi um comando positivo. Os títulos reforçam essa ideia. Mas houve episódios em que ele fez valer sua opinião de forma dura, especialmente nas saídas do técnico Ney Franco e do diretor Adalberto Baptista. Recentemente, a TV exibiu a cena em que Ganso se preparava para cobrar uma falta quando Rogério, sem nenhuma cerimônia, tirou a bola de suas mãos e tratou de fazer a cobrança. As caras de desconcertado de Ganso e a de irritado de Ceni deixaram claro quem mandava ali naquele momento.

Outro episódio famoso foi a reação de Neymar contra Dorival Júnior, há alguns anos no Santos. Ainda garoto, o hoje craque do Barcelona peitou o chefe de forma espalhafatosa. Muitos criticaram, outros defenderam. Acuado, o técnico decidiu afastá-lo do time. Resultado: foi demitido.

Nos anos 90, o Corinthians vivia sob intensa influência de Neto. Um comando compartilhado com Ronaldo. O meia está marcado para sempre na história do clube, de onde saiu antes do goleiro, que manteve seu comando até a chegada de Wanderley Luxemburgo. Na volta de uma viagem do time, o goleiro teria demonstrado irritação com decisões do novo técnico. Acabou encerrando ali sua longa e vitoriosa passagem pelo Corinthians.

É importante também fazer uma consideração sobre o papel dos craques. Nem sempre ídolo é sinônimo de dono ou líder. Só para citar um caso bem emblemático, o grande Santos dos anos 60 tinha em Pelé sua fonte de inspiração e termômetro. Quando o camisa 10 estava bem, dificilmente o time perdia. Mas quem viveu aquela época diz que o verdadeiro líder da tropa era o volante Zito, cujos gritos em campo chegavam a ser ouvidos nas arquibancadas. Situação que os dois repetiam inclusive na Seleção Brasileira.

Já Zico foi ídolo e líder do Flamengo. Com ele em campo, o rubro-negro dificilmente era batido.

Sócrates, com suas ideias modernas, liderou a criação da Democracia Corintiana, e comandou uma das melhores equipes já montadas no Parque São Jorge.

Falcão guiou o Internacional na conquista do tricampeonato brasileiro, nos anos 70. E depois se tornou o “Rei de Roma”.

Na Seleção, o último a assumir de forma marcante o papel de líder foi Dunga. Depois de ter sido usado como símbolo da falta de talento na Copa de 90, a chamada “era Dunga”, ele deu a volta por cima em 94, como capitão do time campeão. Mas foi uma liderança rude com alguns companheiros e extremamente grosseira com a imprensa –mágoa que ele deixa clara até hoje.

Técnicos de personalidades fortes gostam de mostrar autoridade logo que chegam. A relação com os donos dos times varia de acordo com a inteligência de ambas as partes. Se há abertura de canais para um relacionamento respeitoso, todos ganham. Quando não há, cabe às diretorias optarem por um dos lados. Mas é difícil para os clubes abrirem mãos de ídolos, mesmo os mais mimados. A torcida geralmente não aceita a saída do craque. Além de que, o ídolo, ao se tornar “dono” da equipe, assume boa parte das responsabilidades nos insucessos. Serve de anteparo para os diretores.

Leia também: Que Fred e Levir Culpi demonstrem grandeza de espírito na véspera da final da Primeira Liga

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Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Redator, repórter, pauteiro e editor-assistente da editoria de Esportes da Folha. Trabalhou também na Folha da Tarde, Agora São Paulo, BOL, AOL e UOL. Paulistano, acompanha de perto o futebol desde a época em que os camisas 10 dos grandes times paulistas eram Pelé, Rivellino, Gérson/Pedro Rocha, Ademir da Guia e Dicá.


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9 respostas para “Os times precisam de ídolos ou de “donos”?”

  1. Muito bom, Emerson. Esse trecho retrata muito a realidade e a forma com a qual os nossos dirigentes pensam: “o ídolo, ao se tornar ´dono´ da equipe, assume boa parte das responsabilidades nos insucessos. Serve de anteparo para os diretores”. No caso específico do Flu, tomara que Fred e Levir (ambos competentes em suas funções) se entendam e permaneçam no clube, pois ambos são homens maduros e conscientes de sua representatividade. Ou pelo menos deveriam ser. 😉

  2. Manoel Silva disse:

    Um desse eu não queria no meu time nunca

  3. Fred deveria ser posto numa estatua la pros caras !!!
    Tecnico vai e vem

  4. Fred? Ainda entra em campo? Jogar já parou ha muito tempo.

  5. Os clubes precisam de jogadores. Os clubes devem ser o mais popular o possivel, com bastante socios e muito amor. Mas clubes precisam de jogadores. Os idolos surgem de bons trabalhos. Donos nunca.

  6. Edu Lima disse:

    Fred podia trabalhar no trânsito de são Paulo de cone

  1. […] – Os times precisam de ídolos ou de “donos”? […]


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Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Redator, repórter, pauteiro e editor-assistente da editoria de Esportes da Folha. Trabalhou também na Folha da Tarde, Agora São Paulo, BOL, AOL e UOL. Paulistano, acompanha de perto o futebol desde a época em que os camisas 10 dos grandes times paulistas eram Pelé, Rivellino, Gérson/Pedro Rocha, Ademir da Guia e Dicá.

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Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, não resiste a um bom debate sobre esportes, desde futebol até curling. São-paulino, é fundador e moderador do Fórum O Mais Querido (FOMQ). Não esperem ufanismos e clichês. Ele torce, mas não distorce.

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Jornalista há 19 anos, já cobriu Copa do Mundo, NBA, Nascar, Pan, Mundial de vôlei, Copa do Mundo de ginástica, Libertadores e as principais competições do futebol nacional. Começou no A Gazeta Esportiva, passou pelo site do Milton Neves, Agência Estado, Agora São Paulo, Terra, ESPN e está na TV Gazeta. A trabalho, conheceu 8 países, 18 estados do Brasil e mais de 100 estádios.

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