Outros tempos: capitão era escolhido por sua natureza, não para ter mais responsabilidade

Créditos da imagem: Bruno Kelly/Reuters

Tenho um colega que nunca viu Arthur Friedenreich jogar – parou em 1935 -, mas o escala em sua Seleção Brasileira de todos os tempos. Tenho outro que viu Leônidas da Silva em ação três vezes, quando tinha seis anos de idade, levado por um tio, no campo da Floresta, conta. E o escala igual.

Eu tinha idade para estar lá, mas não era um dos “garantidos” 200 mil felizardos – que, contados todos os que afirmam ser um deles, seriam 20 milhões – estavam no Maracanã na triste tarde de 16 de julho de 1950, quando o capitão – li muito sobre, e conversei com ele depois – Obdulio Varela comandou o Uruguai à vitoria por 2 a 1 sobre o Brasil, na final da Copa.

Tinha idade, estava aqui, mas não estava na Rua Javari, quando Pelé marcou o famoso gol encobrindo uma série de adversários. Ninguém gravou o lance, na Rua Javari cabem menos de 10 mil pessoas, mas pelo menos 100 mil juram que estavam lá. E dão detalhes.

Há mais de uma centena de grandes jogadores que poucos, de verdade, viram atuar – porque não eram nascidos, porque eram crianças de colo, porque não jogavam no Brasil, porque os campeonatos europeus ainda não eram transmitidos para cá. – mas que são a todo instante colocados na relação de gênios dos torcedores. Nada contra, apenas penso diferente: Se não vi, não posso afirmar. Posso dizer que “segundo li, segundo ouvi…”.

Numa tarde, um repórter perguntou ao Dodô, bom artilheiro de muitos times, qual o melhor atacante ele tinha visto jogar e Dodô respondeu que era Zico. O repórter, um tanto bravo, mandou. “Mas, Dodô, e o Pelé?”. Tranquilo, como era na área, Dodô respondeu que tinha apenas 22 anos. Não tinha visto Pelé em campo.

Disse eu, de passagem, lá em cima, que o Uruguai venceu o Brasil comandado pelo capitão Obdulio Varela. É que sou do tempo em que capitão não era escolhido por ser o melhor, o craque, o mais rico, mas por sua personalidade, sua postura em campo, pelo respeito que merecia dos companheiros, não por ser bravo, por gritar, por ganhar no grito etc. Era, por sua natureza.

Pelé era o cracão do Santos, mas Zito era o capitão, que não o poupava, quando necessário. Bellini não foi escolhido em 58 por ser bonitão. Nem Mauro, o Martha Rocha, foi em 62. Carlos Alberto, Dunga, Cafu, nem eram tão galãs assim, mas, que se saiba, ninguém tirou farinha com eles. Nunca algum zombou de uma orientação que tivessem dado em campo. Outros tempos.

Assim como penso sobre apontar craques que não vi jogar, nada contra esses novos tempos. Outros tempos. Às vezes, em times, vejo técnico dando a tal braçadeira para o jogador mais rebelde, como – imagino – um jeito de passar a ele responsabilidade. Ou seja, insinuar que um comandante, um capitão, não pode fazer bobagem. Grande bobagem. Capitão está cada vez mais o encarregado de ver o sorteio para escolha do campo e para a troca de mimos antes do jogo…

Um comentário em: “Outros tempos: capitão era escolhido por sua natureza, não para ter mais responsabilidade

  1. Belíssimo texto, não so na escrita, mas por mostrar como eram escolhidos os capitães. É inadimiscivel a explicação do porque se colocar Neymar como capitão!

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