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Pai, me leva ao Maracanã

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Créditos da imagem: falandodeflamengo.com.br

Crescer nos anos 90 não foi exatamente fácil para os fãs de futebol. O período marcado por chacinas e guerra ao tráfico pode ser considerado o ponto de partida para essa violência urbana desenfreada que encontramos atualmente nas principais cidades do país. Nos estádios de futebol a situação também era terrível: a cada clássico, os jornais destacavam a selvageria e o vandalismo dos torcedores organizados, dentro, fora e longe do Maracanã. No Rio, o bicho pegava pra valer. Somente no último ano da década, então, que meu pai teve coragem de voltar ao “Maior do Mundo”. O ano de 1999 foi o derradeiro do Templo do Futebol como veio ao mundo e como se notabilizou. Logo começariam a reformá-lo para o Mundial da FIFA até o colocarem abaixo e construírem outro no lugar.

Pois bem. Com a minha mãe, meu pai me levou ao Maraca pela primeira vez em 20 de março daquele ano. A data carrega coincidências (ou destino) que descobri posteriormente: trata-se do Dia Internacional da Felicidade! Precisa dizer mais? Como se não bastasse, foi num 20 de março, 15 anos depois, que morreu o capitão Bellini, aquele cuja estátua serviu de ponto de encontro e referência de Maracanã durante muitos anos. Não, não precisa dizer mais.

Apesar de considerar minha memória privilegiada, por algum motivo que talvez a ciência (ou Freud) explique, não tenho grandes lembranças detalhadas da minha infância. Por exemplo, não lembro de antes, nem de depois do jogo. Mas está cravada na minha retina, para sempre, a imagem do pequeno garotinho de 10 anos, cabeça avantajada, vermelho e preto dos pés à cabeça como quem fosse entrar em campo, passando pelo túnel que dava acesso à arquibancada. Aquela fotografia do gramado, gigante e viva; a imagem daquela imensidão verde e distante. Era impossível não se encantar com a soberania e a magnitude do velho Maracanã. Ao mesmo tempo que ele engolia cada pessoa que entrava, acolhia como quem dissesse “Sinta-se em casa!”.

Junto comigo, a arquibancada que já não existe mais abrigava cerca de 40 mil integrantes da “Nação”, segundo consta na internet. Na minha memória (privilegiada?), entretanto, poderia jurar que o número não passava de 3 mil. Pouco me importava quem estava em minha volta. Eu estava lá, vendo e vivendo de perto o que já me fazia delirar pela televisão. E a partir daquele dia, o que era paixão virou amor infinito. Os 3 tentos do jogo não poderiam ser marcados por outro jogador: Romário, já meu ídolo desde a Copa de 1994 (e também por conta da semelhança com ele, que à época me atribuíam na rua, na escola, ou onde quer que eu fosse). O adversário daquele dia foi o Itaperuna, outro time de vermelho e preto, naquela tarde de branco por razões óbvias. Mais uma do destino: havia um Caio, o xodó, em campo. Precisamos admitir, tudo muito sincronizado para dar certo. Como se na festa de casamento fosse possível ter certeza de que a relação duraria até depois da morte.

Ao Maracanã voltei dezenas, mais que centena de vezes, com meus primos, irmão, amigos, muitos amigos, um bonde de amigos, até minha mãe ou mesmo sozinho. Com meu pai somente mais uma vez, também uma estreia: meu primeiro clássico, em 2000, uma vitória sobre o então campeão da Série C, com gol de falta de um tal sérvio recém-chegado e um presente do goleiro Zetti. Mas meu pai, como fez com a minha mãe em agosto de 88, havia plantado a semente.

Aquele “Dia da Felicidade” de 1999 fez do Maracanã a minha segunda casa. O vermelho e preto meu uniforme. E tornou o que era paixão, amor incondicional, daqueles que a gente pode até brigar, mas nunca separar. O futebol virou meu alimento, sem o qual não consigo passar sequer um dia, mesmo que às vezes enjoe de comer o de sempre. Mais do que gostar, é necessidade de ver a bola rolar.

Tenho plena conviccção que isso tudo só ocorreu graças à demorada, mas ainda oportuna atitude do meu pai. Vi pelo caminho alguns amigos de infância, perto do futebol como todo brasileiro, mas distantes do estádio por várias razões. O que acabou afastando-os do fanatismo (e tornando-os pessoas normais).

Posso apostar que para um pai fanático, como eu certamente serei, dificilmente algo pode ser mais gratificante do que passar para seu herdeiro o amor pelo clube, qualquer clube. E para essa passagem ser marcante e memorável, só há essa opção: levar o filho ao estádio. Apesar de alguns diversos problemas que podemos enumerar, não há dúvidas que a conjuntura está muito melhor do que na minha época. E se o velho Maracanã já não abriga a arquibancada de concreto, o gramado verde distante, o Romário e o Zetti, certamente ele acolherá os pequenos vestidos de vermelho, preto, verde, branco, azul ou arco-íris. Porque qualquer primeira vez no estádio é “Dia da Felicidade”.

Feliz dia dos pais! E obrigado ao meu!

Futebol: amor de pai para filho
Palpites da 17ª rodada do Brasileirão 2015

Escrito por:

- possui 71 artigos no No Ângulo.

Carioca, graduado em Direito e universitário de Jornalismo. Mas antes de tudo, um opinólogo profissional, cronista do cotidiano, comentarista do dia a dia e palpiteiro da rotina.


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Um comentário para “Pai, me leva ao Maracanã”

  1. Neto Furquim disse:

    Diogo Belezia Guilherme Oliveira


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Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Redator, repórter, pauteiro e editor-assistente da editoria de Esportes da Folha. Trabalhou também na Folha da Tarde, Agora São Paulo, BOL, AOL e UOL. Paulistano, acompanha de perto o futebol desde a época em que os camisas 10 dos grandes times paulistas eram Pelé, Rivellino, Gérson/Pedro Rocha, Ademir da Guia e Dicá.

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