Pelé foi o único para quem fiz concessões

Créditos da imagem: Rosan/Arquivo Pessoal

Quando tocou o celular, achei que era trote. A secretária dizia que Pelé estaria na fisioterapia por volta das 14 horas.

Era 1999, quando ele tinha 59 anos. Havia feito uma artroscopia nos EUA com o Dr. James Andrews, na articulação do joelho.

Quando ele entrou na minha sala, confesso que deu vontade de pedir um autógrafo!

Disse que não poderia vir todos os dias, eu disse: ok!

Também não poderia vir nos horários estipulados, eu disse: ok!

Como não conceder certos privilégios ao “Rei do Futebol”?!

Pelé é unanimidade quando analisamos o que fez dentro das quatro linhas. Foi e sempre será o maior jogador de futebol de todos os tempos.

Alguém que se chama Edson, porque seu pai quis fazer uma homenagem ao inventor da lâmpada elétrica, Thomas Edison, só podia ter o talento dos gênios.

Alguém que faz mais de 1280 gols ao longo da carreira, continua como o maior artilheiro da Seleção Brasileira com 95 gols, campeão mundial com apenas 17 anos, tricampeão no México aos 30, bicampeão mundial de clubes com o Santos, cantou com Elis Regina, interrompeu uma guerra civil na África, foi Ministro dos Esportes etc. Não havia como contrariar sua agenda.

Não me deixou medir sua altura, o que me intrigou, mas relevei.

Fiquei impressionado com sua musculatura aos 59 anos. Disse-me que ganhara apenas 4 quilos desde sua última partida como profissional pelo Cosmos. Apesar da cirurgia, havia um atrofia mínima na coxa, quase imperceptível.

No mais, foi exemplar. Executou o protocolo à risca. Sempre gentil com os atletas que davam o famoso “migué” para passarem na fisio somente para vê-lo.

Certo dia, ele deitado na maca, com a perna envolta em fios e aparelhos, jogaram uma bola em sua direção repentinamente, ele mesmo deitado, matou-a no peito, fez inúmeras “embaixadinhas” com a cabeça e devolveu a bola, provocando espanto entre os presentes. Seu Zito comentou comigo: – Quem sabe não esquece, se sou o treinador, coloco para jogar amanhã, soltando gargalhada. Retruquei que ele ainda não estava apto, no que de imediato o seu Zito mandou: – Coloco ele no gol, só vai usar as mãos!

Enfim depois de muitas histórias lembradas e contadas, chegou o dia final da reabilitação. Eu disse a ele que para ter alta definitiva, teria que se submeter a uma avaliação isocinética. Mostrei o equipamento, expliquei como seria, e caí na besteira de falar que seria uma honra ter seus dados em meu acervo de atletas.

Ele disse: “Não! Volto daqui 15 ou 20 dias, vou me preparar primeiro”.

Tentei insistir, mas foi em vão! Pensei com os meus botões, perdi a chance de ter os números do Rei em meu banco de dados.

Duas semanas depois, Pelé apareceu, realizou a avaliação e me fez um pedido: que o resultado não fosse divulgado enquanto ele vivesse.

Era 21/10/1999, data do seu nascimento, embora ele goste de comemorar no dia 23, que foi o dia do seu batizado.

Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, é desses seres que possuem uma áurea, você sente isso de imediato.

Parabéns , ontem, hoje, amanhã e sempre ao “Jogador de Futebol do Século”.

2 comentários em: “Pelé foi o único para quem fiz concessões

  1. Que belo texto, Luiz Alberto Rosan! É uma pena que boa parte dos brasileiros não saiba valorizar esse verdadeiro monumento que temos aqui, entre nós. Ainda mais ele, que até já disse publicamente que se for para ser homenageado, quer que seja em vida!

    E graças ao privilégio de poder, inclusive, fazer concessões a ele, hoje você pode nos presentear com este texto. Mais uma mostra da linda trajetória que você construiu no esporte!

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