Quarta-feira de chamas – ou não – em Madri

Créditos da imagem: libero.pe

PSG x Real Madrid é o confronto mais interessante destas oitavas-de-final da Champions League. Uma disputa emblemática entre um clube cuja grandeza mundial dispensa apresentações e outro que, há tempos, busca relevância continental. Paralelamente, temos o aspecto que encanta boa parte da imprensa brasileira e torcedores: o duelo entre Cristiano Ronaldo e Neymar, com seus reflexos na Bola de Ouro. Procure outro colunista quem quiser ler sobre este tema. Aqui proponho falar de futebol, esporte coletivo com protagonistas, mas também tudo o que os rodeia.

Na última edição, os desempenhos foram extremamente opostos. O Real Madrid conquistou o bicampeonato da UCL e desbancou o Barcelona na liga local. O PSG foi superado pelo Monaco na Ligue 1 e, na Champions, entrou para a História pela virada sofrida dos catalães. A arbitragem do jogo é discutível até hoje, mas não apaga a tremedeira incompatível com altas pretensões. Foi a gota d’água para que o clube decidisse gastar uma Torre Eiffel para trazer os responsáveis pelos reveses. Além de Neymar, veio o atacante Mbape, do campeão francês. Por sua vez, os madrilistas optaram por manter a base, desfazendo-se apenas de reservas. Valeram-se do chavão de que em time (titular) que está ganhando não se mexe. Foi o suficiente para bater o ponto e levar mais um campeonato mundial. Por outro lado, não vem bastando no mundo que realmente interessa – o Velho.

Com exceção dos jogos da Supercopa espanhola, a equipe de Zinedine Zidane está desequilibrada. Mostra dificuldades táticas, físicas e até técnicas para manter a performance por noventa minutos. Foi o que aconteceu no superclássico do primeiro turno na Liga. Teve mais oportunidades no primeiro tempo, mas no segundo foi vencido sem dificuldades, perante uma torcida mandante constrangida. Na primeira fase da Champions, o Tottenham aproveitou as inesperadas facilidades. Além de uma possível piora no preparo, os adversários aprenderam a se posicionar contra o 4-4-2 vitorioso (Isco no lugar de Bale e Cristiano centralizado como ponta-de-lança). Encontram espaços que Casemiro, sozinho, não dá conta de cobrir. Para complicar, coadjuvantes de alta qualidade estão devendo bastante, casos de Isco e – principalmente – Benzema.

Enquanto isso, em Paris, o upgrade foi imediato. Liderança nacional disparada e primeiro lugar na chave da UCL, desbancando o Bayern. É verdade que, no primeiro encontro (que decidiu a ponta no saldo de gols), os alemães estavam à deriva. Mas é inequívoco que se tornou uma equipe mais agressiva e, apesar de defensores acima de trinta anos, em condições de manter a intensidade. Com o futebol fluindo, as polêmicas dizem respeito ao ambiente e o comportamento de sua estrela. Todavia, não há sinais de que as futricas e fofocas estejam afetando o desempenho técnico. O temor psicológico concreto está no passado nada distante. Não apenas o fantasma da “remontada”, como o de eliminações anteriores – como aquela em que Thiago Silva cometeu um pênalti ridículo. Impossível não levar isso à disputa. Sempre haverá alguém, contra ou a favor, para lembrar.

Com todos estes fatores, o PSG chegará a Madri entre a confiança pela campanha e a memória recente. Pode-se dizer, por outro lado, que Neymar não será influenciado pelo trauma. Afinal, é causa deste. Contudo, mesmo a advertência inicial não me impede de lembrar que, para o jogador e seu staff, o prêmio individual importa muito. A pressão desta expectativa já o atrapalhou antes. Após ser artilheiro da UCL em 2015 e subir nas cotações, o craque deu vexame mental na Copa América. Duas semanas depois do espetacular desempenho contra seu atual clube, outra expulsão infantil. Resta saber se, agora como favorito destacado, controlará os nervos contra provocações. Para sua sorte, quem marcará suas inserções pelo meio será Casemiro, companheiro de seleção. Não será surpresa se, em caso de classificação francesa, jornais madrilenhos lamentarem a saída de Pepe.

Pelo mandante merengue, Zidane tem um dilema. A goleada sobre o Real Sociedad sugere uma blitz para liquidar a fatura antes do intervalo. Em compensação, se o gol não sair, pode faltar gás. Além disso, estará com um lateral improvisado no setor em que ronda Neymar. Então os espectadores podem se ver às voltas com dois cenários. Ou times abertos, dignos dos filmes de Rocky Balboa (erguer a guarda não está no roteiro), ou uma luta amarrada. Os treinadores tiveram meses para estudar, mas sabem que podem levar bomba em questão de segundos. Num jogo desses, até o polvo Paul preferiria jejuar. Mas o colunista arrisca um palpite: deve passar o time que conta com jogadores falando espanhol, português e francês. Podem me cobrar depois…

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