Questões ambientais no caminho da Rio 2016

Se um jogo de futebol já é um acontecimento marcante e emocionante, imagine uma Olimpíada. E agora imagine uma Olimpíada e uma Paraolimpíada sendo realizadas pela primeira vez na América do Sul. E aqui no Brasil. Definitivamente, trata-se de um megaevento.

Em 19 dias (de 05 a 21 de agosto de 2016), 10.500 atletas, de 205 países, disputarão 306 provas com medalhas.

E para os céticos, lembro que o Pan-Americano realizado em Toronto, no Canadá, começou de forma morna, já que parte da população era contra os gastos destinados ao evento. Com as competições em andamento e com os turistas vibrando e torcendo, a situação se inverteu e até o final das competições o apoio popular apareceu.

O Brasil encerrou sua participação nos Jogos Pan-Americanos deste ano na terceira colocação no quadro de medalhas. Em 16 dias de competições, o país conquistou 141 medalhas, sendo 41 ouros, 40 pratas e 60 bronzes.

E nos Jogos Parapan o Brasil teve a melhor campanha da história. O time nacional conquistou 257 medalhas, sendo 109 de ouro, 74 de prata e 74 de bronze, o maior número absoluto e maior número de ouros. “Mais do que a vitória, esses números mostram um crescimento consistente. De 15 modalidades disputadas, o Brasil terminou em primeiro em 10”, destaca o presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), Andrew Parsons.

O que vem pela frente

Mas vamos aos números do próximo evento. Ao custo de R$ 7,4 bilhões, segundo dados oficiais do site do evento, falta um ano para a realização das Olimpíadas e Paraolimpíadas de 2016. O Rio de Janeiro foi escolhido sede dos Jogos Olímpicos pela assembleia do Comitê Olímpico, em Copenhague, Dinamarca, em outubro de 2009. O Rio venceu a rodada final de votação por 66 votos contra 32 da outra finalista, Madri.

Minha ideia com esse texto é apresentar informações básicas do evento e destacar as principais polêmicas abordadas pela mídia (até o momento) envolvendo duas questões específicas: a construção de um campo de golfe em área ambiental e a poluição da Baía da Guanabara (foto). Antes, porém, vamos destacar alguns dados disponibilizados pelos organizadores.

Para realizar os primeiros jogos olímpicos na América do Sul, serão mobilizadas mais de 160 mil pessoas, entre oito mil funcionários no Comitê Organizador, 85 mil profissionais terceirizados contratados e cerca de 70 mil voluntários.

Serão 42 modalidades olímpicas e 24 paraolímpicas.

Parte da verba será gasta nos serviços dos jogos: alimentação (quatro milhões de refeições para atletas, força de trabalho e voluntários), credenciamento (atletas, delegações, família olímpica e paraolímpica, mídia, força de trabalho e voluntários), seleção e treinamento (sete mil funcionários e 70 mil voluntários) e serviços médicos, segurança, limpeza, operações logísticas, uniformes e gestão operacional (para instalações de competição,e não competição). Nesse custo também estão incluídos gastos com tecnologia (sistemas e equipamentos), esportes e cerimônia, acomodações e transporte (deslocamentos do evento).

Poluição

Não é novidade para ninguém a histórica e lendária poluição da Baía da Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas, quase um esgoto a céu aberto. A Baía recebe 10 mil toneladas de esgoto por segundo, 865 milhões por dia ou 345 mil piscinas olímpicas por dia. Além disso, seriam necessários 66 caminhões para tirar o lixo que chega na baía em um mês. É nesse local que será realizada a competição da vela na Olimpíada do Rio de 2016.

Impassível, Nawal El Moutawakel, presidente do Comissão de Coordenação do COI sugeriu um mergulho coletivo: “Proponho que todos nós mergulhemos na Baía de Guanabara. Podemos mergulhar todos juntos”, convidou na entrevista coletiva quando os questionamentos sobre a poluição do local começaram.

Mesmo com todas promessas de despoluição por parte de autoridades do Rio de Janeiro para a candidatura aos Jogos Olímpicos, o governo já admite que não conseguirá cumprir a meta de tratar 80% do esgoto lançado na Baía de Guanabara e parte para soluções paliativas para o problema. Entre elas o uso de barcos de limpeza para a superfície e a colocação de barreiras nas raias olímpicas.

É preciso 14 dias para que metade das águas da Baía da Guanabara se renove com as que chegam do oceano Atlântico. Por isso, as praias da região são as mais poluídas do estado – ainda que praias como o Leblon, onde emissário submarinos transportam o esgoto até o alto-mar, apresentem qualidade baixa também.

Golfe para quem?

Outra polêmica envolve o golfe que volta aos Jogos Olímpicos depois de 12 anos ausente. O campo de golfe será construído na Reserva de Marapendi, na região da Barra, que concentrará o maior número de instalações dos Jogos Olímpicos Rio. E a construção de um campo em uma Área de Preservação Ambiental não podia ter outra consequência além das críticas e muita pressão dos ambientalistas e do Ministério Público.

O COI não quer saber de levar a culpa pela construção em local impróprio ou melhor, em local protegido pela legislação ambiental: “o COI não tem e não assume nenhuma responsabilidade” disse o diretor de comunicação do Comitê Rio 2016, Mario Andrada, ao ser questionado sobre o papel do comitê internacional em eventuais crimes ambientais decorrentes de obras construídas para atender às especificações olímpicas. Não bastasse o imbróglio, fica difícil entender a construção do novo campo sendo que o Rio de Janeiro já possui dois campos para a prática do esporte: o Gávea Golf Club e o Itanhangá, considerado um dos cem melhores do mundo pela revista Golf Digest. Mesmo assim, dois anos após a escolha do Rio para sediar os Jogos, a Federação Internacional de Golfe publicou um relatório alertando que os dois campos já existentes eram inadequados à prática olímpica.

Além da ausência de discussão pública sobre a obra, o legado social do campo de golfe também é visto com ressalvas. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) ressalta que, na verdade, o campo apenas tem acesso público. “O campo não é público, apesar de ter uma permissão de uso público que pode ser renovada”, diz o promotor Marcus Leal. E a cereja do bolo: segundo informações da própria prefeitura, o campo é apenas uma parte do empreendimento imobiliário, que tem ao todo 970 mil metros quadrados.

Não são questões simples, ao contrário, e para o sucesso do evento é necessário que as dúvidas sejam saneadas e a transparência, uma constante.

 

Com informações do site oficial do Rio2016, Agência Brasil, Carta Capital e Espn

5 comentários em: “Questões ambientais no caminho da Rio 2016

    1. Margareth não sou especialista no tema embora tenha especialização em gestão ambiental, mas creio que existem sim formas de despoluicao hídrica eficientes como ocorreu no Rio Tâmisa, um exemplo bem conhecido. Mas sei que leva tempo e passa por saneamento básico e zoneamento ambiental e econômico dos recursos hídricos que formam a baía da Guanabara. São processos que demandam estudos e investimentos e, acima de tudo, tempo. Em resumo, planejamento.

  1. Planejamento, boa vontade, honestidade… Coisas que, infelizmente, não temos visto no RJ e no Brasil.

    Que oportunidade estamos perdendo, não?

    Parabéns pela abordagem!

    1. Obrigada Vicente. Creio que o evento é mesmo grandioso apesar de vários problemas e de uma época conturbada que vivemos em escala global, mas quem sabe passando agosto, este mês tenebroso a gente consiga ser mais otimista?

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