Respeitável público – o futebol amestrado ladeira abaixo

Créditos da imagem: Djalma Vassão/Gazeta Press

“O CAP é um time de circo. Seu toque de bola fica manjado em quinze ou vinte minutos e a recomposição é lenta”. Para quem acha esta observação oportunista, saibam que foi proferida aos integrantes do site, via Whatsapp, durante o primeiro tempo contra o Grêmio. Sim, dias após eliminarem o SPFC da Copa do Brasil, em jogo elevado às alturas por comentaristas. Mesmo após meses de treinamentos, o time de Fernando Diniz mostrava falhas táticas gritantes. Era questão de perder um ou dois jogos para a queda de confiança fazer o resto. E não, o problema não está na ousadia e na proposta super-avançada. O ponto é que ele não sabe como executar isso. Seja com o elenco atleticano, seja se tivesse em mãos o Barcelona de 2011.

Passados mais de cinco anos do auge do time catalão com seu tiqui-taca, nem todos entenderam que não se resumia a posse de bola. Incluía, em mesmo grau de importância, sua recuperação. Guardiola aplica a “lei dos seis segundos” – pressionar o adversário logo que a bola é perdida, para retomá-la mais próxima do gol e longe da própria meta. É por isso que prefere a troca de passes com vários atletas no campo de ataque. Por mais preciso que seja o time, haverá erros e desarmes do adversário. Jogadores próximos da bola perdida tornam viável fazer esta pressão. Fica a pergunta a quem assistiu aos jogos do Atlético: quando eles fizeram isso? Simplesmente não fizeram. Quem fez – e faz – é o Grêmio. Tampouco os atleticanos montam duas linhas defensivas compactas, como Carille. É a lacuna que tem feito a festa dos adversários.

O futebol moderno de Fernando Diniz é como um livro que começa instigante, mas acaba abruptamente em vinte páginas. Falta o resto. Tem os triângulos, a saída de bola, o alto número de passes e… fim. Mesmo os poucos capítulos têm furos ignorados pela crítica especializada. A elogiada saída de bola dá chances ao adversário jogo após jogo. “Ah, mas é porque os jogadores são fracos!” – é a defesa com reflexo de simpatia e vista grossa a erros de treinamento. Entre estes erros, temos a colocação de jogadores na linha de fundo combinada com passes ao lateral de costas para o ataque. Na terceira jogada o oponente já pega o tempo para interceptar e mandar de primeira para o centroavante. Afinal, adivinhem, tem um atleticano grudado na bandeira de escanteio tirando o impedimento. Ideia interessante, só que mal concebida e mal executada.

Fala-se que Fernando Diniz tem problemas de relacionamento com comandados. Ainda que seja verdade, trata-se de uma tentativa de fuga ao tema – no caso, as inconsistências de seu modernismo. Tal rispidez é invariavelmente lembrada quando os resultados já estão descontentando. Como no rebaixamento do Audax no Campeonato Paulista, um ano após o vice-campeonato. Detalhe: o time começou goleando o SPFC de Rogério Ceni, como fizera com o tricolor de Bauza, em duas partidas desastrosas dos treinadores. Pode-se dizer que a incompetência são-paulina dos últimos anos acabou se tornando “cabo eleitoral” de Diniz. O Paulistão-2016 é uma propaganda permanente do que poderia fazer num clube maior. Mais: fez com que a mídia jogasse aos dirigentes a culpa por não “ousarem” com uma oportunidade a ele. Só se esqueceram de continuar acompanhando.

Outro desvio de tópico é dizer que Diniz deveria tentar coisas mais simples, de acordo com o nível individual de seus times. A assertiva chega a ser ingênua. Não perceberam que a ele interessa continuar com o perfil de gênio incompreendido. Assim, esquiva-se dos fracassos e fica com fama de fiel a seus princípios. Como o chef que só tenta pratos complexos, ocultando a incapacidade de fazer uma omelete. Não surpreende que tenha a admiração declarada de Muricy Ramalho e outros especialistas. Conhecem a história da roupa nova do rei? Pois é. Na fábula, os farsantes diziam que só os inteligentes eram capazes de ver o traje do soberano. Graças ao estratagema, ninguém tinha coragem de dizer que o rei estava nu. Tratando-se de Brasil, nem adiantaria a criança berrando no final. Seria colocada de castigo ou enviada a um abrigo especial. O rei seguiria desfilando as vergonhas por aí.

Mesmo que a ilusão finalmente acabe, haverá quem peça chances a ele num grande clube. Lembrarão que tantos medalhões as têm e que, com o revolucionário quixotesco, ao menos apostarão no novo. Mas aposta deixa de ser aposta quando não tem chance de ser vencida. Enquanto não escrever as páginas que faltam e repensar as existentes, Fernando Diniz pode até ganhar os prêmios da intelectualidade, mas seguirá sendo um charlatão das letras. Ou um dono de circo mambembe com ar de Soleil.

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16 comentários em: “Respeitável público – o futebol amestrado ladeira abaixo

    1. Não tem discussão. O Atlético-PR está jogando e concordo com muito que está escrito. O que escrevi e dizendo que eu gosto de caras como o Fernando Diniz que tentam fazer algo diferente em um momento em que todo mundo tenta fazer a mesma coisa. Mas como eu disse, ele precisa rever algumas coisas. Abraços a vocês do No ângulo, ao Bruno Prado e ao Gabriel Rostey. E gostei do termo debate e não discussão.

    2. Diniz tem as ideias dele e como toda proposta tem oscilações e momentos de resultados ruins e baixa confiança. Ele precisa acertar coisas, mas não precisa e acho que nem deve fugir das ideias dele. Ele precisa achar alternativas de evitar contra-ataques e pode fazer isso sem mudanças radicais e sim com alguns ajustes.

    3. Eu me considero (e sou visto como) um “defensor” do Fernando Diniz, mas concordo com boa parte do texto, especialmente em como o time dele se comporta sem a bola!

      Realmente acho que ele há tempos merecia uma oportunidade como esta, no CAP. Também acho que nesses dois anos desde que ele se destacou na campanha do vice-paulista pelo Audax, o futebol brasileiro evoluiu taticamente, principalmente com o Grêmio do Renato (citado no texto) e o Corinthians do Carille.

      Também concordo que há uma simpatia exagerada por ele, pela proposta rara que ele pratica, então muita gente acaba tendo uma visão acrítica dele por isso. Por outro lado, também acho que tem gente que exagera nas críticas a ele, por birra justamente disso. Enfim, é um profissional raro, em evolução, com um trabalho ainda no início e que vem obtendo resultados de médios pra bons. Mas eu continuo achando que ele tem tudo para dar certo ao longo da carreira. A conferir…

    4. Mas, para dar uma opinião mais clara, mesmo com essas coisas a melhorar, ainda o acho melhor e mais promissor do que a imensa maioria dos treinadores brasileiros!

      E abraços para vocês, Humberto Peron e Bruno Prado, acho que concordamos todos! Obrigado pelas contribuições.

  1. Acho esse treinador prepotente arrogante mascarado e acredita ser a cereja do bolo. Quanto ao tique taca do Barça vi um time no Brasil que era espetacular Flamengo de Zico , um tapa só na bola outros tempos outro tipo de marcação. Mas time nenhum no mundo , conseguiu fazer a pressão e a retomada de bola que a Holanda fazia. Parecia peladeiros , todos os jogadores correndo pra bola e tirando dos adversários toda opção de passe. Voltando a Fernando Diniz foi superestimado pela midia paulista. Uma mala que não vai a lugar algum .

  2. É o bolo visto apenas pela fôrma; Desconsidera as minúcias do preparo e seus ingredientes.
    É inegável que existe uma idéia… um conceito, porém é visível em sua aplicação que ela desconsidera aspectos fundamentais, o que a faz improdutiva.

  3. É por isso que o Guardiola tem que escolher jogador. Não adianta ter essa proposta de jogo com jogadores que não tem as características necessárias para a aplicação. Uma coisa é Piqué, Busquests, Boateng, Xabi Alonso fazendo a saída de bola, outra coisa bem diferente é Paulo André e Thiago Heleno. A idéia é ótima, mas ninguém faz pavê de chocolate se só pode usar carne moída.

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