Ronaldinho: o gênio que não saiu da lâmpada

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Há 36 anos, nascia um guri em Porto Alegre. Daqueles que passam o dia todo num campinho de areia.  Mais um apaixonado por futebol. Mas que, com a bola nos pés, jamais foi só mais um. Era Ronaldo de Assis Moreira. Ou melhor, era Ronaldinho.

Talvez se eu não tivesse testemunhado sua história, não tivesse tido o prazer de vê-lo jogar, começaria esse texto com um reza a lenda. É difícil de acreditar que o garoto que, com oito anos, perdeu o pai, não perdeu as esperanças para realizar seu sonho. Sonho compartilhado por muitos meninos, os quais agora o têm como referência em seus devaneios. No entanto, para seus marcadores, aquele jovem franzino virou pesadelo. Quando ele pisava no gramado e encostava na bola, todos que assistiam tinham a nítida sensação de estarem delirando. Perguntavam se aquilo era real. E, de fato, era.

Contudo, mais complicado do que acreditar, é encontrar adjetivos que expressem sua genialidade. Posso render-me ao inefável. Assim como já me rendi a seu talento.  Todavia, merece que tentemos transmitir um pouco dos sentimentos que despertava nas pessoas. Como faz um verdadeiro artista. Dos que pintam e bordam. Dos que fazem shows e levantam o público. Artista que encanta o mundo com sua magia. A qualquer hora ele pode tirar um coelho da cartola. Ao mesmo tempo, seu vasto repertório o transforma em malabarista. Digno dos famigerados espetáculos circenses. Mas suas jogadas, na verdade, são coisas de cinema. Num filme em que sempre foi protagonista, e já sabíamos o final. Só que, a cada vez, havia uma surpresa durante os 90 minutos de sua duração.

Com seu jeito alegre e peculiar, já rodou o mundo. Saiu do Grêmio, novo, após atuações de gala. Dizem que o Dunga continua o procurando até hoje por lá. Foi passear na França, no PSG. Pois era isso que fazia em campo; passeava. De lá se transferiu para a Espanha, onde viveu seus melhores anos, seu auge atuando pelo Barcelona. Onde foi eleito o melhor do mundo por duas temporadas consecutivas. Onde foi aplaudido de pé pela torcida rival em seus domínios, em pleno Santiago Bernabeu, após ceifar o Real Madrid. Só Maradona tinha conseguido esse reconhecimento. Ser ovacionado passou a ser prosaico para Ronaldinho. Depois foi para a Itália, vestir a camisa do Milan até decidir voltar ao Brasil. Em seu regresso polêmico, o astro era disputado por três grandes clubes. O Grêmio cometeu um erro inadmissível quando o assunto é o craque. Precipitou-se. Esqueceram que sua cria era imprevisível. Festa pronta para recebê-lo, mas ele fez o que sempre foi sua marca. Driblou. E parou no Rio de Janeiro, acertando com o Flamengo. Em breve, estaria conquistando a América pelo Atlético-MG. Até aí já tinha conquistado o mundo todo com seu futebol. Inclusive os mexicanos, que o receberam no Querétaro. Mesmo no estádio Azteca os torcedores do América se curvaram a seu potencial. A história se repetiu. Até que, mais uma vez, pousou em terras cariocas. Mobilizou a torcida tricolor para vê-lo com a camisa do Fluminense no maior templo do futebol. E agora busca outro rumo.

Um rumo que já fez muito zagueiro perder. Tudo fruto de suas decisões. E a isso ele estava acostumado: a decidir. Entretanto, sempre será aquele que precisou de oito minutos para sair do banco e marcar dois gols. Sempre será aquele que encontrou espaço onde parecia não existir, muitas vezes, entre pernas alheias. Sempre será quem deu três balões seguidos no mesmo jogador. Sempre vai ser quem samba antes de marcar um gol em plena Champions contra o Chelsea. E mesmo sabendo disso, somos incapazes de compreendê-lo.

Afinal, mesmo que ele olhe para um lado, seu passe pode ir pro outro. Esqueça suas atitudes. Não tente decifrá-lo. Ronaldinho é tão complexo quanto sua feérica jogada contra o Atlhetic Bilbao. Não busque explicações, apenas contemple. Até hoje, revendo o lance torço para que a bola entre. Parou na trave, mas ele sorriu.  Sorriu porque gostava do que fazia. E nós gostávamos de vê-lo em campo.  O improvável se materializava. Até mesmo na foto oficial do clube. Ficava registrado. Era memória. Ninguém vai esquecê-lo.

No Mundial, deixaram-no descalço. Os jogadores do Raja abraçavam e tietavam o ídolo. Ajoelharam-se diante da sua figura. Ele não era seu Deus. Nunca teve vocação para santo. Mas era quem deu uma nova alma ao futebol. Foi sem chuteira que tudo começou. Assim que o talento se personificou.  De Porto Alegre para o mundo. E mesmo sem algo material, tenho excelentes recordações. Estas que transmitirei às novas gerações. Contarei o privilégio que foi ter visto Ronaldinho.

Passes magistrais, dribles desconcertantes, gols antológicos, domínios inacreditáveis. De onde veio, só podia ser imortal. Parabéns, gênio! Quando parar, fará falta. E quando fala em falta, é especialista. Por baixo da barreira ou por cobertura. Nunca foram apenas pra inglês ver, como em 2002. Os anos passam, mas o mundo sempre se lembrará do que fez, nem que seja sonhando.

12 comentários em: “Ronaldinho: o gênio que não saiu da lâmpada

    1. Acho válida essa discussão. Embora não tenha citado nomes e optado por evitar comparações, também não acho que ele tenha sido o melhor que vi jogar, apesar dos meus 19 anos. Mas, certamente, sempre foi diferenciado e possuía uma intrepidez para inovar, além de muito talento. Preferi não abordar o jogador polêmico, suas escolhas que influenciaram na sua carreira, pois aquele Ronaldinho do Barcelona, sobretudo, encantou todo mundo e fez bem ao futebol. E é fato que ele ficará marcado na história. Não é todo dia que alguém é idolatrado em cada lugar que vai e aglutina um contigente significativo de fãs. Pelo menos em minha opinião, prefiro ficar com as lembranças positivas desse craque.

  1. Arrebentou novamente Rodrigo Castro …!! Ronaldinho passeia no campo e Você passeia e faz malabarismos fantásticos com as palavras envoltas em lindas emoções. Parabéns pelo olhar emocionado e pela capacidade de transformar o abstrato em concreto para o nosso deleite. SHOW!!!

  2. Uma pena que deu no que deu no fim, mas foi um mágico; não o maior, mas um mágico. Imagino esse cara com a mentalidade de um Cristiano Ronaldo, estaria arrebentando até hoje. Bom, pra mim Messi é seguido de perto por Zidane o melhor que vi jogar, mas nunca vamos esquecer da alegria de Ronaldinho nos bons tempos.

  3. O seu momento no Barcelona foi mágico. Merecia um final de carreira diferente do que está ocorrendo. O “saber parar” é algo dificílimo para alguns jogadores.

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