São Paulo na Série B? Eu abandono!

Créditos da imagem: Revista Exame

EU VOU TE ABANDONAR!

Meu nome é Gustavo e não sou um alcoólatra. O que não consigo largar é jogo do São Paulo. Até viajando procuro um jeito de assistir, a ponto de acordar de madrugada e torcer pelo time – e pelo wi-fi do hotel. Por conta desta paixão, há quinze anos modero um fórum dedicado ao tricolor, em que o lema é torcer, porém sem distorcer. Procuramos debater o que acontece no clube e no futebol, sem populismos pra ganhar dinheiro em cima do time – pelo contrário, já que pagamos pra não termos rabo preso com ninguém. Mais que isso: defendemos que ninguém seja considerado menos são-paulino por não ir ao estádio ou não se submeter a patrulhamentos, especialmente daqueles que veem crítica como traição. Melhor ser chamado de corneta que de hiena.

Neste contexto, já em 2010 via como imperioso que o clube superasse o “juvecentrismo” – a crença de que Juvenal Juvêncio era o parâmetro absoluto na arte de entender o futebol. Como mencionei em outra coluna, nem o tricampeonato de 2008 escondia que alguns conceitos estavam superados. Mas, em vez do espaço ao novo, veio o golpe. Uma mudança estatutária que, tal como o Superman do primeiro filme (aquele dos anos 70), fez o mundo girar ao contrário para permitir um “segundo mandato” que, obviamente, era o terceiro. Imaginei que são-paulinos ilustres e jornalistas fossem desmascarar a farsa. Quebrei a cara. Gente que hoje se rebela, como Abílio Diniz, fez que não viu nada de errado. Um jornalista (infelizmente, ex-moderador do nosso fórum) foi além: estabeleceu que o golpe era um “mal necessário”.

A torcida comprou a péssima ideia. Achou que a falta de títulos era “uma fase” e que Juvenal logo recuperaria o olho clinico. Os anos passaram, a “fase” não. No máximo, uma medíocre Sulamericana, que só serviu para um ridículo “el campeón volvió”. Tanto que, no ano seguinte, veio a primeira ameaça real de rebaixamento. Mas havia esperanças, uma vez que o mandato maldito enfim se encerrara. Pois a esperança foi a primeira a morrer. Carlos Miguel Aidar, idealizador da manobra calhorda que reelegeu Juvenal, foi eleito com tropa de choque da TTI e tudo. No lugar de renovação, o traíra dos traíras. Tão traíra que, sob o pretexto de moralizar, passou a perna no ex-aliado. Com ele não houve risco de rebaixamento, mas sobraram confusão e negócios cada vez mais estranhos, culminando com o “Jack” das comissões e o caso Maidana – que só não rendeu punições porque, afinal, CBF é Brasil sem Lava Jato.

Caiu Aidar (literalmente) e, no lugar de um rumo distinto, voltou o juvencentrismo – curiosamente aumentado com o falecimento do mestre. Leco, preterido tanto no golpe quanto na escolha de Aidar como sucessor de JJ, mostrou não ter mágoa nenhuma e manteve a turma no poder. Com uma diferença: tal como na desastrosa passagem com MPG, abriu o cofre loucamente e precisou vender meio mundo para não estourar a dívida. Contou, é claro, com os jornalistas chapa branca para divulgar positivamente suas pedaladas orçamentárias. Assim foi reeleito. Assim, pela segunda vez seguida em sua presidência, o São Paulo se vê às voltas com o Z4. E há quem ainda fale em “soberano”, pense ser só “uma fase” e emende com “time grande não cai”…

Este certamente não é meu caso. Além do que faço no aludido fórum, participei de um dos poucos grupos que não aceitaram o terceiro mandato, o Contragolpe Tricolor. Procurei divulgar textos para abrir os olhos do torcedor, mesmo sabendo que seria chamado de corneteiro, corintiano e outras imbecilidades. Enquanto colegas de torcida se agonizam, estou tranquilo por saber que fiz e faço a minha parte. Tranquilo o suficiente para declarar que, caso o São Paulo seja rebaixado, não o acompanharei na segunda divisão. Como se diz hoje em dia, esse destino não me representa.

O São Paulo não tem o direito de cair e esperar solidariedade de quem não compactuou com sua autodestruição. O Morumbi não desabou. Não caiu (toc, toc, toc) nenhum avião com o time à bordo. Se vier o pior, será unicamente por conta de sua incompetência crônica e pela omissão de muitos perante a mesma. Não faltaram avisos. Aliás, se futebol e Justiça andassem de mãos dadas, o tricolor já teria sentido o gosto da queda. É muita falta de autocrítica e até de caráter, fora a soberba tradicional, para sair impune. Mas, se continuarem dando linha, um dia o rebaixamento virá. E, quando vier, não contem comigo para se reerguer. Torcer pelo SPFC na primeira divisão já é um desgosto com esta corja no comando. Na segunda, com o perdão do termo, seria sacanagem.

Se o leitor também não aceitou estas palhaçadas desde o começo, espero que se sinta encorajado a se juntar ao abandono, sem medo de patrulhas. Não se trata de deixar de ser são-paulino, e sim de lembrar que a vida precisa ser mais que um time de futebol. Um mínimo de amor próprio é necessário. Por outro lado, se você é um dos que acharam que era só “uma fase”, não se atreva a fazer o mesmo. Cúmplice também cumpre pena.

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23 comentários em: “São Paulo na Série B? Eu abandono!

  1. O texto, no início, demonstra um senso de paixão coletiva com o time enorme, admirável. Por isso mesmo não consigo entender um desfecho tão egoísta quanto ao fato do autor expressar que o “São Paulo não tem direito” a isso ou aquilo. O São Paulo é gigante por sua torcida e não pela corja que la se instala por conta de interesses obscuros. Onde seja que o querido tricolor esteja, meu coração estará sempre com ele.

  2. Perfeito! No ponto, eu concordo integralmente e também estou fora desse “apoio incondicional”, não sou mico amestrado.

  3. INACREDITÁVEL O NÚMERO DE TRANSAÇÕES QUE O SÃO PAULO FEZ ESSE ANO…

    FUTEBOL PUNE, AMIGOS…

    SE CAIR, SERÁ MERECIDO!

  4. Muito bom texto, mas acredito que o autor, caso o SP caia mesmo (o que não acredito), não conseguirá abandonar o Tricolor.

    Quando a gente ama não tem jeito, vai até o fim.

  5. A relação de um torcedor com o clube vai além de apoio incondicional, e tampouco algo racional como o texto sugere…
    Sou São Paulino desde que me conheço por gente, fui o criador da maior comunidade do SPFC no finado ORKUT com ais de 1 milhão de inscritos, e fiquei muito tempo tb segurando buchas e prestando um serviço gratuito ao time, inclusive tendo até prejuízo… então, não compactuo com a diretoria e suas atitudes ridículas e a total falta de planejamento desde o golpe do JJ ou aquele lance ridículo da Copa no Morumbi…
    Até por isso tudo, digo que o SPFC é maior do que todos eles, e mesmo rebaixado, se for o caso, não abandonarei, e não me considero miquinho nem foca…
    Essa corja cairá um dia, o São Paulo permanecerá, na divisão que for… o amor será o mesmo.

    Saudações Tricolores.
    Andrej

  6. Muito bom, Gustavo Fernandes! O seu texto deixa claro como um eventual rebaixamento de São Paulo não seria um episódio isolado, mas sim uma consequência nítida da decadência administrativa e de valores do clube, que contou com a cumplicidade de boa parte da torcida!

    1. Cumplicidade dos bandos de “organizados”, cumplicidade de muitos que idolatraram jj, cumplicidade dos que nunca tiveram um mínimo de senso crítico para jogar no lixo a tal ”soberania”, fazendo justamente o contrário, divulgando e defendendo essa bobagem…

    2. Emerson Gonçalves os muitos que idolatram jj e que tem cumplicidade, juntamente com o poder para mudar as coisas, são os conselheiros (que brigam por mesquinharias e trocam votos por interesses particulares) do clube. Generalizar a torcida nessa questão é não dar o devido foco aos que realmente merecem.

    3. Rafael Campos Se você acompanhou a postura da imensa maioria de torcedores no estádio, nas redes sociais e comentários de notícias, não tem como não ter visto o que escrevi. Os são-paulinos em geral preferiram, pois sim, acreditar que tudo era questão de fase. Mais que isso: procuraram desesperadamente boas notícias durante todo este tempo, para continuarem acreditando. E não faltaram jornalistas, blogueiros e donos de site chapa-branca pra fomentar esta alienação. Só que, há muito tempo, os tricolores já deveriam ter sacado o quanto se iludiam intencionalmente. No lugar disso, muitos continuam achando que crítica é coisa de modinha. Reitero o que falei no texto: eu estou há anos, ao lado de uns poucos, apontando os erros dentro e fora do campo. Afinal, não ganhei, não ganho e não ganharei nada adestrando hienas. Portanto, estou com a consciência tranquila. Enquanto tantos gritavam “o campeão voltou” por conta de duas vitórias, eu fazia o melhor que podia para abrir os olhos de meus colegas de torcida. Então, se cair, não tenho rigorosamente nada a ver com isso e não pretendo perder um minuto vendo o time na série B. É bem capaz de, se e quando isso acontecer, eu não resistir e rasgar o que escrevi. Mas serei um idiota se fizer isso.

    4. Gustavo Fernandes Cara, vc ta generalizando a torcida e quer pautar o comportamento da mesma: diz que não quer ser chamado disso ou daquilo, mas chama os outros de iludidos e etc. A torcida faz o clube e cada um, como vc disse no texto, não pode se considerar menos ou mais por ter atitude x ou pensamento y, e muito menos ser culpada por essa atual fase do time. Quem faz a desgraça acontecer no tricolor são os dirigentes/conselheiros mesquinhos que pensam no próprio umbigo e ignoram o coletivo. E vc, Gabriel, agindo dessa maneira, se iguala a eles nessa questão por um egoísmo paradoxal com o início do seu texto. Abs

  7. Que radical!!!! Se todo mundo fizesse isso, vários clubes já teriam acabado!!!! E aí, como ficaria nossa história????? Assim é fácil e muito comodo ser torcedor, só fica com a parte boa!!!!!!!!!!!!!!!!!

  8. Com diferenças de forma, veículos e um pouco no conteúdo, vivi o mesmo processo que o Gustavo. Cansei de levar porradas – felizmente só virtuais, mais caras viradas – por criticar Juvencio, ainda hoje idolatrado por muitos, o que só demonstra a capacidade que tem o ser humano de ser cego e surdo ao extremo. Se o São Paulo for rebaixado eu espero, primeiro, que Leco, seus eleitores e apoiadores sejam defenestrados do Morumbi, mas não da história do clube, pois deverão permanecer como exemplos do que é a capacidade de destruição que tiveram. Infelizmente, poré m, tenho certeza que comprarei o ppv da B, verei os jogos pela tv e irei ao Morumbi ver alguns jogos e torcer. Digo infelizmente porque, racionalmente, deveria seguir o que disse o Gustavo, mas… O coração tem razões que a razão desconhece.

  9. Grande Ary, me perdoe mas caso o desastre s3 confirme em dezembro, não tem cabimento abandonar o time na Série B. Tem que apoiar muito e iniciar ao.mesmo tempo uma pressão absurda para tirar essa diretoria incompetente do poder. Mas abandonar o time? Jamais! Abração

    1. Se cair mesmo, eu duvido que o fraco do Leco siga no comando. Vai ter mudança radical. E se não cair, tem que pressionart para mudanças radicais na estrutura de futebol do clube. O que não pode é ficar do jeito que está

    2. Caro Marcelo, eu estou há anos dizendo que não pode ficar do jeito que está. No fórum em que escrevo, nunca postei “nação do maior do mundo” pra defender diretoria. Enquanto até o Sr. Abílio Diniz se aproveitava das vantagens de ser amigo de JJ, silenciando no golpe, eu me unia a uma minoria pra esclarecer as coisas aos torcedores. Mas preferiram acreditar que era só uma fase, que o campeão voltou, etc… Então espero que respeite minha opção de, pois sim, abandonar o time na série B. Desse filho feio eu, definitivamente, não serei pai. E se você faz parte dos que também não caíram nessa em momento algum, sugiro que ao menos pense na hipótese de seguir meu exemplo. Se, é claro, o pior acontecer. Porque com certeza torcerei para que o castigo merecido por outros não afete o SPFC e os que não fizeram parte desta tragicomédia.

    3. Sem problemas, Gustavo, acho que é uma opção perfeitamente aceitável e compreensível. Mas acho que ainda há uma chance sim de escapar. Será MUITO difícil, mas vejo sinais de evolução. Em 2013 estava ainda pior. Abs

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