Saudade define. Garrincha faria 85 anos hoje, dia 18/10/2018

Créditos da imagem: Imortais do Futebol

O futebol irreverente de um gênio que driblou tudo, menos a morte

Levado pelo ex-jogador Arati, Garrincha chegou ao Botafogo em 1953, com 19 anos. Arati foi apitar um jogo em Pau Grande, distrito de Magé, e lá descobriu um moleque franzino, de pernas tortas, mas de drible fácil. Gentil Cardoso não acreditou muito na descoberta de Arati, mas deixou o garoto – que tinha como apelido o nome de um pássaro – treinar. Apesar de meio desacreditado – em 1948 tentou, sem sucesso, no Vasco e no Fluminense; e depois estava diante do melhor lateral esquerdo do país, Nilton Santos – Garrincha não se intimidou e seus dribles impressionaram a todos. Aprovado, Garrincha foi contratado.

Sobre a tentativa, sem sucesso, no Vasco e Fluminense, seguem os detalhes: o primeiro teste de Garrincha em um time grande aconteceu em 1950, às vésperas de completar 17 anos, quando foi levado ao Vasco por um diretor da América Fabril. Com vergonha de levar a chuteira velha e rasgada, apareceu descalço na peneira e foi impedido de treinar pelo argentino Volante, um ex-jogador. Poucos meses depois, com os amigos Diquinho e Arlindo, tentou o São Cristóvão. Jogaram só dez minutos e foram dispensados sem sequer comerem o sanduíche que os clubes tradicionalmente davam. Depois, tentou o Fluminense e o técnico Gradim nem ao menos o colocou para treinar.

Voltando ao assunto em questão, a sequência de sua carreira, dizer o que de quem fez a torcida gritar pela primeira vez “olé” dentro de um estádio de futebol? E nem era a torcida do time dele, o Botafogo, mas sim mexicanos que assistiam a uma das exibições do Glorioso pelo mundo.

Como marcar Garrincha? Não havia mesmo nada a fazer diante desse gênio. Assim como não há como defini-lo. Era imprevisível e dono de um futebol que jamais se enquadrou em esquemas táticos. Seu amor pelo espetáculo não significou, em momento algum, que Mané não fosse um atleta obcecado pela vitória. Nenhum outro jogador foi tão querido por todas as torcidas como MANÉ GARRINCHA, O “ANJO DAS PERNAS TORTAS”, como bem definiu o poeta Vinícius de Moraes, foi incomparável.

Em quase 13 anos no Botafogo, em que conquistou os títulos cariocas de 1957, 1961 e 1962, e o Torneio Rio-São Paulo de 1962 e 1964, fez 612 jogos e marcou 242 gols. Pela Seleção Brasileira, jogou 60 partidas e marcou 16 gols, sendo 50 oficiais e 11 gols. O detalhe é que perdeu apenas um jogo defendendo o Brasil, que por coincidência foi sua última partida pela Seleção, nos 3 a 1 para a Hungria, na Copa do Mundo de 1966. E quando jogou ao lado de Pelé, o Brasil nunca foi derrotado. Um retrospecto inacreditável.

Os estragos que fazia com a camisa botafoguense, ele repetia com a da Seleção. Mané foi bicampeão mundial e, para muitos, se não fosse ele o Brasil teria saído da Copa do Chile, em 1962, mais cedo. Com Pelé machucado, coube a GARRINCHA jogar por ele, pelo Rei e deixar o mundo espantado. Foram dribles, passes perfeitos e gols até de cabeça e de perna esquerda. Nas quartas de final, após a derrota de 3 a 1 para o Brasil, o técnico da seleção inglesa desabafou: “Preparei um time quatro anos para enfrentar times de futebol, mas não esperávamos um jogador como GARRINCHA”. Coube, porém, ao jornal chileno El Mercúrio, em manchete, a melhor definição sobre esse Charles Chaplin do futebol: “De que planeta viene GARRINCHA?”.

Em 1965, os problemas crônicos com os joelhos já o impediam de jogar e Manuel Francisco dos Santos, que nasceu em Pau Grande, distrito de Magé, em 18 de outubro de 1933, despediu-se do Botafogo e praticamente do futebol. Ainda tentou jogar por Corinthians – 13 jogos e 2 gols, Flamengo – 12 jogos e 4 gols, e Olaria – 10 jogos e 1 gol.

Em 1977, cansada de suas farras, Elza Soares abandonou Garrincha, que se entregou ainda mais à bebida. O fim inevitável chegou na madrugada do dia 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos, após mais um coma alcoólico. Congestão pulmonar, pericardite, esteatose hepática e pancreatite hemorrágica. A isso foi reduzido o gênio do futebol pelo atestado de óbito.

Esse foi o capítulo final do homem apelidado “Alegria do Povo” que desafiou a medicina para dividir as honras de melhor do país com o Rei Pelé.

Nota: após alguns desencontros sobre a data de seu nascimento, a equipe de reportagem do Jornal dos Sports, em 2003, foi fundo na investigação para encerrar de uma vez por todas a polêmica sobre a data correta, no livro de registros do cartório do 6º distrito de Magé, que teve o dia 18 de outubro de 1933 – e não o dia 28 do mesmo mês – reconhecido a sua autenticidade pela titular do cartório.

O que eles disseram

“Garrincha era, à sua maneira, um gênio. Se Pelé personificava a perfeição (chutava, driblava, cabeceava, passava, tudo de forma irretocável), Garrincha era a consagração do imperfeito: tordo, anti atlético, individualista, uma jogada só, mas um gênio a desmoralizar lógicas, a desafiar o imponderável, a transformar o previsível – sempre o mesmo drible – em irresistível. A tragédia está em que sua história não teve o final feliz que merecia. O homem que não podia dar certo – e deu – não teve fôlego para correr os dois tempos de sua curta existência (tinha 49 anos quando a morte o levou). Ao perder o brinquedo, começou a perder o gosto pela vida. Faltaram-lhe pernas para um último arranque pela direita: o drible na própria tragédia.”

(João Máximo, jornalista)

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