Seleção não é só momento, é confiança e aposta

Créditos da imagem: Pedro Martins / MoWA Press

Um dos esportes favoritos dentro do futebol é o exercício da polêmica. O que deve ser feito com respeito na colocação de pontos de vistas. Assim, tomo a liberdade de dar alguns pitacos em relação ao texto “Cuidado, Tite!”, que o colega Fernando Prado publicou aqui em No Ângulo sobre as convocações feitas pelo técnico Tite. Fernando apontou outros nomes de jogadores que poderiam ser utilizados pelo treinador da Seleção e alertou para que não se feche o grupo antecipadamente sob o risco de insistir nos mesmos nomes e enfraquecer o time da Copa.

Tem muita lógica seus argumentos. Realmente, há entre os jogadores brasileiros muitos que poderiam fazer parte do grupo de selecionados. Se o técnico da Seleção fosse Abel, Muricy, Dorival, Cuca ou outro qualquer, as listas possíveis teriam certamente muitas diferenças.

Isso se deve ao fato de termos em Neymar nosso único supercraque, para os padrões atuais. Nos times de 58, 62 e 70, a identificação dos craques era mais natural. Havia um grupo de nível muito acima do geral. Em 1958, por exemplo, dez times ofereceram os nomes para o selecionado. Em 62, foram apenas sete. Em 70, voltamos aos dez. Em 1994, foram 16. E em 2002, 18. Isto só para ficarmos nos que venceram copas.

Não fiz um levantamento rigoroso, mas arrisco afirmar que apenas Brasil e Argentina podiam, nas épocas antigas, pulverizar os convocados em várias equipes. Os europeus, em geral, usavam a base de muito poucos times. Com a internacionalização cada vez maior do futebol, os jogadores são têm sido de vários times diferentes. A atual convocação de Tite, antes da suspensão de Daniel Alves, tem jogadores de 20 times, de três continentes. Não se pode dizer que não seja representativa.

Em 1974, lembro de ter visto, aos 12 anos, entrevista do argentino Doval, jogador já falecido, famoso por ter atuado muito tempo no futebol carioca. Ele dizia que o Brasil teria dificuldades na Copa da Alemanha porque, ao contrário de 1970, não havia unanimidades em todas as posições da Seleção. Acertadamente, ele alertava que, como as opções eram mais parelhas, seria difícil montar rapidamente uma equipe.

Isso já havia acontecido em 1966, quando Vicente Feola, técnico campeão em 1958, convocou 47 jogadores para a fase de preparação. Demorou para definir os 23 da Copa e tivemos um fiasco com Pelé, Tostão, Garrincha, Jairzinho e outros craques em campo. Se existe a armadilha de fechar o grupo antes, também há o risco de abrir demais o leque e não fechar uma equipe.

Tite está mantendo a atitude que o fez reconhecido por jogadores, mídia e torcida. É coerente e valoriza o mérito. Tem uma estrutura formada por jogadores de sua confiança e investe nela. Acredito que Daniel Alves, Miranda, Marquinhos, Marcelo, Casemiro, Paulinho, Renato Augusto, Neymar, Philippe Coutinho e Gabriel Jesus só sairão do grupo e do time titular se caírem demais de produção ou se aparecer alguém em fase muito melhor.

Acho essa postura positiva. Evita que se coloque um Bernard para substituir Neymar, como Felipão fez na Copa de 2014. Aliás, ele disse à Folha que faria tudo de novo se tivesse na mesma situação. Ainda bem que não é capitão de navio ou comandante de avião acidentados.

Tite tem seus homens de confiança. Não se trata de barrar um Pelé para chamar um nome qualquer. Não há esta diferença entre a média dos jogadores brasileiros, com exceção de Neymar. Portanto, a tendência é que Tite seja cada vez mais conservador daqui até a Copa. Afinal, falta um pouco mais um ano para a estreia na Rússia.

4 comentários em: “Seleção não é só momento, é confiança e aposta

  1. Muito bons os exemplos das Copas dos anos 60 e 70, especialmente o de 66!

    Concordo com o seu texto, mas também concordo com o do Fernando Prado. Acho que é basicamente usar a confiança e a aposta para formar a base, como o Tite está fazendo, mas não ficar preso a ela – que é o receio revelado pelo Fernando – como ficaram Dunga e Felipão, levando para a Copa jogadores por mera “gratidão” pelo que fizeram anteriormente no grupo da Seleção.

    Ou seja, manter a base, mas renovar as “beiradas” e manter o dinamismo sempre com base na meritocracia…

    1. De acordo. Penso que deveria ser feita uma base com os jogadores de confiança do Tite, mas com alguns eventuais retoques (substituições) na lista final, para que nela constem jogadores em bom momento, na “ponta dos cascos”.

      Basicamente, o desafio é encontrar o equilíbrio entre a cumplicidade treinador/atleta e o momento técnico do jogador.

      Não é algo simples de se fazer, ainda bem que estamos em ótimas mãos!

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