Sobre a continuação da generosidade jornalística com o técnico do Brasil

Créditos da imagem: Super Esportes

Tiiiiteeeeeee mão-de-pilão – diria o saudoso Marco Antônio…

Acompanhei, por alguns minutos, a convocação e a entrevista de Tite. Suportei até o momento em que o treinador falou “tínhamos chego”. Se continuasse assistindo, estaria gritando por sua saída. E talvez, apego pelo vernáculo à parte, não fosse tão má ideia. Não por causa dos convocados, mas pela continuidade do cenário de adoração. Pensava-se que a eliminação daria senso crítico aos repórteres. No lugar disso, seguimos com o jornalismo “Bruno Rezende” (ou Ricardinho, ou Maurício, conforme preferência). Não há questionamentos. Há, pois sim, bolas levantadas para o técnico cravar. E. nessas horas. ele é uma versão – falsamente culta – de Wallace. O “macho-alfa”, nas palavras do discípulo de Marco, Rômulo Mendonça.

A entrevista até abriu com ares de sabatina, com uma pergunta sobre o que o treinador considerou erro na preparação e durante a Copa. mas foi engana-que-eles-gostam. A resposta foi digna de debate político, com a vantagem de não ter réplica. Como se perguntassem a certo candidato do passado sobre a Paulipetro, ele respondesse falando do PAS e fim de papo. Depois disso, só deu Bruninho na quadra. Antes da fala em que agrediu a língua portuguesa, Tite recebeu votos de sucesso total em seu novo ciclo, seguido da indagação sobre os… acertos. Jornalismo brasileiro, não só no esporte, tornou-se isso aí. Capaz de participar de uma selfie gigante com a presidente da República a quatro meses de seu impeachment. Quando o assunto é futebol, o grau do patético aumenta. Pior: com a desculpa de que isso é importante para não perder a fonte. Vende-se integridade por bananas.

A sequência é previsível. O Brasil jogará contra duas galinhas mortas. Situação propícia a gerar avaliações generosas demais dos estreantes, se aproveitarem as facilidades com alguma competência. Pedro parece promissor, mas há vinte anos o centroavante cruzeirense Fábio Jr, vice-campeão brasileiro, foi visto como um possível reserva de Ronaldo. Será não apenas deprimente, mas preocupante se o oba-oba voltar cedo. Os leitores que acompanham minhas colunas sobre o SPFC sabem que não suporto crítica histérica ou apoio incondicional, mas a primeira tem preferência num clube grande. Quanto mais na seleção pentacampeã mundial, porém já numa fila incômoda de eliminações para equipes europeias. Também se deve destacar que uma coisa é o torcedor se empolgar e não prestar atenção nos problemas. Outra é ocorrer o mesmo com quem ganha para informar.

Tite não deveria se dar por feliz neste cenário. Conviver com perguntas difíceis fez falta, principalmente quando o assunto era sua suposta coerência. Fosse tão coerente assim, não teria começado o ano se declarando contente porque, no Barcelona, Coutinho estreou e permaneceu atuando aberto pela direita. Isso para depois deslocar o jogador para uma função diametralmente oposta e recuada, tendo ainda a incumbência de marcar o lateral. Era evidente que perderia rendimento, tal o desgaste. Ninguém, contudo, apontou a contradição na Rússia. Assim como foram tímidas, quando muito, as indagações sobre Paulinho. Neste caso, juntaram a admiração por Tite com a preguiça, pois ficavam repetindo que o meio-campista “arrebentava” no mesmo Barcelona, quando na verdade era banco desde janeiro. A crítica poderia ter mudado rumos. A ausência dela manteve um curso de colisão e manterá outros.

A nova lua-de-mel pode acabar se o Brasil não vencer a Copa América em seu território – o que não aconteceu até hoje. Os adversários também ajudarão. Enquanto a seleção brasileira passa por um contexto de aperfeiçoamento, rivais como Uruguai e Argentina precisam se reconstruir. Algo parecido com a edição de 1999, em que só o Brasil foi com seus principais nomes. Foi campeão e, em seguida, iniciou uma subida ao Calvário nas eliminatórias, com três técnicos diferentes. Nenhuma destas lembranças, como de costume, deve influenciar na análise. O guru continuará doutrinando deslumbrados com microfone. Ah, sim, em 2002 o Brasil foi pentacampeão mundial depois de todo aquele sofrimento. Mas com outro cara… Que ao menos Tite recorde este detalhe.

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