Sobre a prisão de Nuzman e as variações na indignação dos brasileiros

Créditos da imagem: O Globo

A ojeriza que já foi simpatia

É curioso o clima de “ah, eu já sabia!” com a prisão de Carlos Arthur Nuzman, autoproclamado Imperador do COB, por evidências de corrupção que incluem a compra da escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica de 2016. A curiosidade está em indagar “desde quando você já sabia?”. Mais que isso: dependendo da resposta e da função de quem responder, a pergunta passa a ser “por que não falou – ou fez – nada a respeito?”.

As evidências saltavam aos olhos muito antes da eleição carioca. Confesso que uma delas passou batida por mim. Meu alterego Danilo Mironga zombou da visita das autoridades olímpicas ao Rio, em pleno feriadão. Na verdade, já era uma forma de dar parecer positivo sobre o trânsito da cidade, num dia sem movimento. Mas não foi o primeiro sinal de algo podre no Império. Tal posto coube à classificação do Rio de Janeiro entre os finalistas, com uma protocolar nota cinco, muito abaixo da obtida pelos demais. Neste contexto, um desavisado poderia presumir que os cariocas trabalharam duro para elevar o nível do projeto. Nem tanto. Mesmo com o dinheiro torrado nos Jogos Panamericanos (supostamente um cartão de visitas), o Rio de Janeiro tinha menos de um terço das instalações prontas. Enquanto isso, a concorrente Madri tinha mais de 70 % construído. Deu a lógica – invertida.

No lugar de se perguntarem como o inacreditável aconteceu, após seguidas candidaturas frustradas (logo teríamos o slogan “A gente sempre tenta – Rio 2040”), público e até autoridades brasileiras preferiram celebrar. No caso do então Presidente da República, provavelmente dirá que não sabia de nada (talvez sua falecida esposa soubesse). O público acreditou não ser mais o “povo sofrido que luta, mas é feliz!”. Era o apogeu do Todo Poderoso Brasil, imune a crises, bombado pelo pré-sal e rumo ao topo do mundo. E a imprensa? Grande ou pequena, calou-se para não estragar o “momento histórico”. Era lindo a maior emissora do país chorar pelo repórter que deu a vida investigando traficantes no morro. Com político e dirigente, não era bem por aí. “Pensemos no progresso do país!” – devem ter dito os editores dos jornais. Era hora de Bonner e Fátima comandarem a euforia, ampliada pela cara de tacho do Rei da Espanha. Nada mais republicano…

Hoje existe um aparente predomínio da repulsa à corrupção, mas aqueles eram oooooutros tempos – como diria um locutor. Tal como o torcedor que ignora os podres do técnico quando o time ganha, os brasileiros não tinham paciência para discutir o tema. Faziam cara de enfado, como dizendo “puta coisa chata esse negócio de ética”. Foi preciso o time começar a perder de goleada para as coisas mudarem. O magistrado hoje aplaudido seria o pentelho-mor de 2009. “Por culpa desse almofadinha, vão acabar tirando a Olimpíada e a Copa do país” – sentenciariam alguns (não poucos). Não eram dias de indignação, mas de cinismo. Quem ousasse reclamar era visto como alguém que não entende p… nenhuma de Brasil. Acreditava-se, com incrível sinceridade, que o país tinha criado uma fórmula mágica em que todos, honestos e corruptos, seriam contemplados. Só mais tarde, quando o ilusionismo acabou, perceberam que o prêmio ficou nas mãos – e contas – de uns poucos, como o herói Nuzman.

Cabe ressaltar que o Senhor, Mister e Monsieur Olimpíadas não foi o único adulado. Hoje a revista Isto É ataca a corrupção, mas em 2007 elegeu Ricardo Teixeira, então ser supremo da CBF, o homem do ano. Motivo: trazer a Copa do Mundo para o Brasil – sem concorrentes. Foram necessários anos e um escândalo mundial para que a Rede Globo finalmente se encorajasse a criticá-lo, bem como seu ex-sogro Havelange. Antes disso, a saída de Teixeira da CBF mereceu homenagens do JN, que só chegara a mostrar matéria comprometedora num sábado, dia em que estão todos comendo pizza. E nem tudo é apenas passado. Neste exato momento, temos diversos outros dirigentes esportivos que assaltaram dinheiro público e clubes, mas seguem jantando nos melhores restaurantes, nas melhores mesas e sem espera.  Só serão execrados no dia em que também forem presos. Antes disso, todo mundo já sabia, mas sabe como é…

Não há país que resista desse jeito. Não se pode adotar o lema de Al Bundy e dizer que “só é trapaça quando você é pego”.  Muito menos se pode ficar contra a ladroagem apenas quando a economia vai mal e, quando a situação melhora, voltar a achar que Brasil é assim mesmo, a gente faz tudo errado e acaba dando certo. Há quem ainda trate o corrupto melhor, ainda por cima se achando o sabidão (“vai que sobra algum pra mim”). Você celebrou os poucos ouros do Brasil em 2016 – a esta altura nem deve lembrar de quem foram. Pois o ouro destas medalhas está descascando, já que até isso conseguiram avacalhar. Já o das barras de Nuzman está luzindo. Em parte, graças a você, que sabia de tudo e talvez só esteja indignado agora porque está na moda. Por enquanto.

5 comentários em: “Sobre a prisão de Nuzman e as variações na indignação dos brasileiros

  1. Maravilha de texto, como sempre! É exatamente isso, em 2009 parecia que estávamos em um caminho inexorável rumo ao sucesso, e quem reclamasse de qualquer coisa era “inimigo da pátria” (e o presidente na época era quem mais estimulava essa postura).

    Ao menos a situação surreal do Del Nero é ridicularizada por todos. Não sei se o país mudou ou se a situação que é fácil demais, mas é um belo contraste com a Isto É dando prêmio para o Ricardo Teixeira…

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