Sobre a sina de Paquetá e outros jovens armadores brasileiros

Créditos da imagem: FOX Sports

Meio-campistas brasileiros – se correr o bicho pega; se ficar…

Leio que o técnico do Flamengo, por conta da crise técnica e tática, poderia adiantar Lucas Paquetá. É por isso que o melhor para este último parece ser, assim que surgir uma boa alternativa no exterior, dar no pé. Ou, então, todo o processo de evolução pode ser prejudicado, quando não interrompido, para tentar salvar a pele de um técnico novato e de uma diretoria que torrou dinheiro em jogadores discutíveis. O jogador pode até resolver em dias inspirados. Em outros, não. Paquetá não tem explosão e agilidade para atuar na frente. No fim, será a maior vítima. Tanto por se afastar de seu melhor papel, quanto porque será estigmatizado de vez como “jogador irregular”.

Já mencionei uma observação que Tostão faz há anos. No futebol nacional dividido entre volantes e meias-atacantes, desde a base os treinadores brasileiros escalam potenciais armadores como meias-atacantes. Com isso, atletas que poderiam ter sido excelentes se tornam instáveis. Diz o campeão mundial e colunista que, se surgissem aqui, Xavi, Iniesta e Kroos (já podemos incluir Modric*, Pogba e Rakitic nessa) fariam parte da lista de desperdícios. Nem como segundos volantes poderiam jogar, pois o perfil amado por técnicos daqui é o que conduz a bola e se apresenta para finalizar – vide Ramires, Elias e Paulinho. O surgimento quase espontâneo de Arthur sugere um início de mudança, mas vejo Renato Gaúcho como exceção. Ele jamais teria feito a burrice de colocar o atual barcelonista no lugar de Luan, em eventual ausência deste. Muitos colegas colocariam.

Vários jornalistas torcem o nariz quando ainda se fala do 7 a 1. “Já foi superado!” – decretam. Discordo. Só poderemos enterrar o desastre quando suas causas forem anuladas. Uma delas é esperar que a Europa resolva o que não é feito no país. Reparem que, no primeiro parágrafo, falo em “boa alternativa” no exterior. É um grande desconhecimento achar que, em qualquer time de fora, o atleta atuará onde convém. Muitos clubes, por razões que vão da disparidade financeira até filosofia, não jogam de forma compatível com seu futebol. Se escolher apenas pelo contracheque, pode ser que Paquetá fique isolado na frente, numa equipe retrancada. Ou, mesmo jogando no meio-campo, tenha que correr mais atrás da bola que trocar passes. O mercado é reduzido quanto a destinos favoráveis e a concorrência é grande. Portanto, não dá para contar sempre com os outros.

Por que tanta preocupação com o meio-campo? Porque é, especialmente em termos de quantidade, o ponto fraco do nosso futebol de hoje. Mesmo na Europa, nos principais clubes temos apenas um brasileiro como titular da função de meio-campista: Coutinho. Ainda assim, até alguns meses o pequeno Couto era titular na parte ofensiva. Apenas com a saída de Iniesta está no meio-campo. Mas sua escalação deixa justamente Arthur no banco – já que Rakitic está em alta. A maior chance de pronta titularidade do ex-Grêmio é o compatriota voltar ao ataque, no lugar de Dembelé. Ou seja: de um jeito ou de outro, o Brasil seguiria com um único titular no “box to box”. Não é, com certeza, a posição que faz os dirigentes do Velho Continente olharem para a América do Sul. Basta ver a carência nas outras seleções sul-americanas para entender por quê.

Então, ao contrário do que eu mesmo pensava antes de começar a escrever a coluna e raciocinar com todos os fatores, o conserto tem que acontecer em terras brasileiras. Casos como o de Arthur, ou mesmo de uma eventual escolha feliz de Paquetá, serão excepcionais. Ou fazemos a nossa parte, ou continuaremos nesta mediocridade que não apenas mantém o desnível do futebol brasileiro em relação ao europeu, como prejudica a Seleção Brasileira. Vai que Arthur e Paquetá têm problemas em 2022. Vamos de Paulinho (ou cópia) outra vez? Depois não adianta reclamar de outro hexa transformado em ressaca.

* durante a Copa, vários comentaristas (em especial o sofrível Edmundo) analisavam o croata como se fosse meia-atacante, inclusive vendo partidas “apagadas” quando, na verdade, cumpria sua função com louvor.

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