Sobre a tal “força de bastidores”

Créditos da imagem: Onefootball

De Bastidores, bastava a música – com Cauby cantando…

Em meio ao festival de histeria com o absurdo cartão vermelho a Dedé, coube a Galvão Bueno escancarar o que há de mais duvidoso no caráter nacional. Sua queixa: a falta de “força de bastidores” do futebol brasileiro na Conmebol. Traduzindo: se fosse tudo a favor dos clubes brasileiros, maravilha. O problema não é haver tramoias e maracutaias. É não fazer parte delas. Como quando a pessoa explica aos parentes que o colega ganha mais porque “é do esquema”, para que sua própria família o recrimine por ficar de fora. “Quem manda não ser esperto?” – ainda completam.

Está disseminado em tudo. Não é comum me perguntarem se conheço um bom advogado. Porém, quando o fazem, é quase certo que a pergunta seguinte será “e você sabe se ele conhece alguém lá em cima?”. No lugar de se indignar com as ilegalidades e imoralidades, passou-se a aceitá-las como inevitáveis. E que se danem os advogados e tantos outros profissionais que se valem “apenas” da alta capacidade. O resultado todo mundo vê: um país com Direito, engenharia e tantas coisas cada vez piores, já que a tal esperteza prevaleceu nas escolhas. Aí uma obra demora anos pra ficar (mal) pronta e ninguém sabe por quê. Mas, se algum amigo ou parente se deu bem nessas histórias, sem problemas. Como quando político corrupto vai ao restaurante e recebe a melhor mesa. E o dono ainda confidencia: “vai que o cara gosta de mim e me inclui no próximo trambique”. Parabéns…

Além do deplorável em si, existe uma enorme burrice nisso tudo. Ao contrário do que pensa, o brasileiro não é esperto. Dizia o Casseta & Planeta: se para cada malandro precisa haver uma pá de trouxas, o Brasil só pode ser o país dos otários. No futebol, dá para perceber isso há décadas, principalmente enfrentando os “hermanos”. Quase toda vez que o brasileiro tenta trapacear em cima do argentino, o árbitro percebe a sutiliza paquidérmica e expulsa. Se raramente* levou a melhor neste quesito, qualquer pessoa sensata pensaria: “já que não vai na safadeza, o jeito é brigar pra moralizar”. Mas a falta de autocrítica nacional também existe nesta parte. Preferem continuar tentando o escuso. É por isso que os clubes brasileiros nunca se unem. Vai que um deles arruma um jeito de entrar no próximo trambique.

Alguém pode responder que, ao falar na força de bastidores, o locutor quer apenas que os brasileiros se protejam de safadezas. Vindo de quem, mais de uma vez, bradou que é “booom” ganhar da Argentina de qualquer jeito? Poupem-me. Se um dia um brasileiro for campeão contando com um grave erro e Galvão apontar isso no final, podem estar certos de que me penitenciarei. Por enquanto, deixo o terço na gaveta. Mas não quero dizer, com isso, que seja ele o responsável por disseminar algo que já se consolidava muito antes que fosse o número 1 da Globo. Contudo, ao focar a questão sob tal ângulo, ele perde a oportunidade de falar outra coisa. Algo como “os clubes brasileiros têm que exigir uma competição limpa pra todo mundo”. Ou vai estar legal se brasileiros não forem garfados, mas colombianos, venezuelanos, peruanos, etc… sim?

Nosso país está cada vez mais encrencado justamente porque, por cinismo ou ingenuidade, acreditaram que essa coisa de ética não é com a gente. Toda vez que alguém leva um favor lá de cima, o resto paga a conta (incluindo o próprio esperto, cobrindo outro aproveitador). O futebol não é exceção. Sem o senso coletivo, a maior parte das individualidades se lasca. Não se muda isso esperando fazer parte dos poucos que “se dão bem”. Precisamos de vontade de conseguir as coisas sem ajudinha de cima. No lugar de ir atrás dos “bastidores”, que se lute para que ninguém leve vantagem que não mereça. Pessoas honestas não faltam. Falta não ter vergonha da própria honestidade.

*só consigo lembrar a matada de Túlio com o braço, na semifinal da Copa América de 1995.

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