Sobre o impacto do constrangimento mundial no futuro da rivalidade dos sul-americanos

Créditos da imagem: Reuters / Stringer

Encolhendo mitos a jato

Com a final da Libertadores em campo neutro, a imprensa argentina afirma que perdem todos no país. Incluam entre os perdedores a rivalidade entre os finalistas. Aquela que, há alguns dias, atraiu atenções mundiais. A que seria a maior do futebol em todos os cantos. Os traços épicos ganharam contornos patéticos. Como podem ser maiores rivais dois times que sequer conseguem entrar em campo perante suas torcidas? Claro que haverá quem ache o máximo. São os mesmos que, quando artistas atrasam duas horas ou entram bêbados no palco, chamam a palhaçada de “atitude roquenrol”. O que só torna tudo ainda mais patético.

Rivalidade é um termo que, essencialmente, implica respeito. Ainda que os competidores não sejam amigos, mal se suportem e eventualmente se trombem na disputa (traduzindo: Senna x Prost antes de fazerem as pazes), restringem a rixa ao campo, à quadra ou ao grid. Sempre foi entre eles e só entre eles. O papel de seus torcedores nos espetáculos é torcer. Não é jogar tachinha na pista pra furar pneu. Quando o lado de fora quer se tornar o centro do show, só pode dar no que deu. No caso do futebol argentino, isso começou a acontecer quando, por incompetência de todos os envolvidos, um juiz tirou a torcida adversária dos clássicos. No lugar de tolerância, segregação total. O pior: a ideia foi exportada para o vizinho. O que faz deduzir que, mais cedo ou mais tarde, será entre times brasileiros a próxima rivalidade a cair no ridículo.

Mesmo que o jogo finalmente ocorra, os danos já foram feitos. A final que todos queriam ver será aquela cuja repetição ninguém mais desejará. Fã de gambiarras, provavelmente a Conmebol reeditará a proibição de clubes do mesmo país realizarem decisões. Todo o resto pagará pela cretinice de dois e suas torcidas. Não esqueçamos que, a despeito de hoje ser vítima, o Boca foi responsável por avacalhação anterior, em 2015. Outra consequência geral será o desinteresse de fora. Mesmo que por certo gosto pelo exótico, a imprensa e o público de outros continentes estavam acompanhando a disputa – que ocorreria quase no mesmo horário de um respeitável Atlético de Madrid x Barcelona, com Messi e tudo. Agora, que viram como as tribos se matando não tem graça, vão ficar com suas “chatices” locais. Na próxima vez que ouvirem falar em River x Boca, pensarão em circo (de horrores), não futebol.

Haverá quem diga que o ponto positivo é justamente a vergonha dos argentinos, que poderia levar a uma nova postura. Devo recordar que diversos alcoólatras e viciados sentem vergonha no dia seguinte, mas nem por isso buscam tratamento. Faço a triste comparação porque a situação do futebol argentino (em breve, a nossa) quanto a torcidas é essa: uma doença causada pelo uso indiscriminado de intolerância. A ponto de se perder o controle e confundir rivalidade com inimizade. Mesma situação viveu a Inglaterra. Por décadas aceitou os hooligans e tentou apenas paliativos. Só na enésima tragédia os governantes tiveram a coragem de não apenas punir, como combater a causa da moléstia. O ódio e a agressão deixaram de fazer parte do jogo. Tanto lá quanto aqui, há quem lamente isso, porque estariam excluindo o “verdadeiro torcedor”. A resposta: dane-se o verdadeiro palerma.

A consequência de não tentar tal postura, mostrando o quão imbecil é quem odeia e agride torcedor de outro time, será a constante autodestruição do que se construiu num século. Num dia, os grandes rivais do planeta. Noutro, bobos catando os cacos do vexame. Até o próximo. E o próximo. Há tempo para mudar. Mas e a vontade? E a consciência de que, se não mudar, seremos todos (falando espanhol ou português) iguais em desgraça?

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