Um balanço azedo do futebol em 2018 (com só um legado positivo)

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Como observador do esporte mais popular do mundo, 2018 foi um ano que não me trará saudade, especialmente pelo nosso futebol doméstico.

Talvez minha análise seja um tanto quanto amarga, mas consigo enxergar apenas um legado positivo para nosso futebol no ano que se encerra: o inédito e bem-sucedido rodízio de atletas implantado por Felipão no Palmeiras, campeão brasileiro com um pé nas costas após a chegada do experientíssimo treinador.

Mas até mesmo a facilidade com a qual o Palmeiras, um digno campeão brasileiro, mas longe de ter qualquer diferencial -conforme as normais eliminações para Cruzeiro e Boca Juniors, outras equipes absolutamente comuns entre as de bom nível, expuseram-, conquistou o Brasileirão, com direito à maior sequência de invencibilidade da história dos pontos corridos (que sabe-se lá quando terminaria, não fosse pelo fim da competição), é ilustrativo da péssima situação que vivemos.

Se em 2017 tivemos o surgimento de equipes modernas como não víamos nos últimos anos, como foram o Grêmio de Renato e o Corinthians de Carille, em 2018 elas se desmantelaram (no lado gremista, pelas lesões e venda de seu jogador mais especial, Arthur; pelo corintiano, pelo inexplicável desmanche e troca de treinador) sem substituição à altura. Os surpreendentes trabalhos realizados por Tiago Nunes no Atlético Paranaense e Odair Hellmann no Inter ainda carecem de uma maior confirmação em 2019.

Seguimos perdendo jogadores para centros absolutamente periféricos do futebol mundial. Até mesmo o “milionário” (para nossos padrões) Palmeiras perdeu o então titular Keno para o Egito, e vive com a eterna sombra de perder o ídolo Dudu para a China. Já não conseguimos mais manter nem mesmo os goleiros-ídolos, como a iminente saída de Marcelo Grohe para a Arábia Saudita demonstrou.

Um burocrático Cruzeiro -que se habituou a atuar na falha do adversário mesmo podendo fazer muito mais- venceu a Copa do Brasil, em uma final desparelhada contra um lamentável Corinthians. Final esta, que, aliás, contou com erros absolutamente surreais por parte do VAR, e que não renderam a revolta merecida. Pelo contrário, um deles, o gol absurdamente anulado de Pedrinho, ainda contou com “comentaristas de arbitragem” atestando que houve falta de Jadson em Dedé.

Aliás, se pensarmos apenas nas nossas principais competições, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, desde 2015, apenas quatro clubes se alternaram nas conquistas: Palmeiras (Brasileirões 2016 e 2018; Copa do Brasil 2015), Grêmio (Libertadores 2017 e Copa do Brasil 2016), Corinthians (Brasileirões 2015 e 2017) e Cruzeiro (Copas do Brasil 2017 e 2018).

Para finalizar a lamúria sobre nossos campos, estamos cada vez piores dentro do Continente. Grêmio e Palmeiras, nossos melhores times, foram não apenas eliminados, como claramente superados futebolisticamente por River e Boca, respectivamente. Nas últimas cinco Libertadores, tivemos apenas um finalista, contra cinco da Argentina; das vinte vagas nas semifinais de 2014 para cá, somente cinco foram brasileiras.

Falando em Libertadores, a indefinição sobre a realização da finalíssima, justamente na final mais aguardada da história, foi algo simplesmente deplorável. Depois, com linhas tortas, tudo acabou saindo melhor do que a encomenda e a eletrizante decisão chamou a atenção do mundo. Só que o papelão do River contra o Al Ain na semifinal do Mundial de Clubes -ratificando que as melhores equipes sul-americanas estão realmente no mesmo nível que as melhores dos outros continentes periféricos– foi o mais cruel anticlímax imaginável.

Falando em Mundial, o Real foi tricampeão, outro feito inédito na história do futebol, que comprova a concentração exacerbada que está havendo. Na final da Champions, que apresentava um Liverpool dominando os merengues, e que poderia consagrar Salah como um “melhor do ano” que realmente ofuscasse Messi e Cristiano Ronaldo, o egípcio simplesmente se machuca e sai da partida, os reds morrem em campo, e o destino parece ajudar o gigante espanhol a garantir o quinto título seguido para o país na competição. Até mesmo na Liga Europa, nesse mesmo período, as equipes espanholas abocanharam quatro das cinco taças disputadas.

Entre seleções, tampouco vi motivos para animação. Nossa Seleção novamente foi como favorita para a Copa (como em todas as edições de 2006 para cá) e foi despachada pelo primeiro europeu que encontrou pelo caminho em jogo de vida ou morte. Europeus que, aliás, monopolizaram até as semifinais. Já conquistaram as últimas quatro Copas (feito inédito na história), e não há nada que indique que isso possa mudar.

Neymar sofreu um lesão em data ingrata, disputou a Copa longe das condições ideais e virou o “inimigo público número um”. Parece sempre precisar matar um leão por dia, e agora vem sendo cada vez mais usado (injustamente) como contraponto negativo ao seu companheiro Mbappé. Enquanto isso, a Bola de Ouro foi empurrada para Modric, pondo fim -para mim, de maneira forçada- ao monopólio da dupla Messi e Cristiano Ronaldo.

Mas apesar de tanto azedume destilado neste artigo, espero que o ano de 2019 nos reserve agradáveis surpresas, com a volta de uma maior competitividade e rotatividade de campeões no futebol mundo afora, e um aumento de nível e maior entendimento do jogo atual nas nossas fronteiras.

Um excelente 2019 a todos nós!

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