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Uma tetracampeã soterrada

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Créditos da imagem: Jornal de Brasília

“Você viu? O Arlindo Cachaça está sendo cogitado no Real Madrid!!!”

“Grande porcaria. O Marco Antônio Zebu fechou com o Torino!!!”

Acreditem se puderem: o diálogo acima era verossímil nos anos 80. Jogador bom não ia simplesmente “pra Europa”. Tinha que jogar na Itália. Era onde estava o dinheiro. Era onde estava o futebol. Houvesse o Troféu da Fifa naquele tempo, o vencedor viria de lá. Platini estava na Juventus. Maradona, no Napoli. Rummenigge era da Internazionale. A Udinese ousou com Zico. A Roma tinha o Rei Falcão. Mais adiante, vieram os holandeses Gullit e Van Basten (Milan), além de Careca (Napoli) e o alemão Lothar Matthaus (Inter). As coisas foram mudando. Nas duas décadas seguintes, a Bota ainda era top, mas não o supra-sumo. Com os contratos de TV e regimes fiscais favoráveis, as ligas de outros países cresceram até vir o cenário inimaginável há trinta anos: o calcio virou Plano B. O dinheiro não está mais lá. E o futebol vai acompanhando este destino. Inclusive – ou principalmente – na seleção nacional.

Comecei a escrever esta coluna antes de a Azzurra decidir sua vaga na Rússia. Um resultado diverso da tragédia atenuaria a decadência, mas de leve. Nas duas últimas edições, a tetracampeã não passou da primeira fase. Jogou por terra até o temor inspirado por suas crises. Antes, quanto mais desacreditados estivessem, pior – como o Brasil sentiu em 1982. Agora de onde nada se espera é que não vem nada, mesmo. A raspa do tacho veio com o tetra de 2006, numa disputa tecnicamente fraca que o talento de Pirlo, Buffon e Cannavaro resolveu. E fim. Ou quase. Ainda com Pirlo dando as cartas, houve a campanha digna na Eurocopa de 2012, eliminando a freguesa Alemanha nas semifinais. Mas, quando se esperava que sua defesa complicasse o tiqui-taca espanhol, um atropelamento transformou a volta por cima em retorno à depressão. No desespero, passaram até a nacionalizar atletas, incluindo brasileiros de segunda linha. Não adiantou.

Em meio à expectativa pelo desastre, surgiram as esperadas teorias e culpados. Na América do Sul, quando Brasil ou Argentina estão mal a culpa é de fora. Os latinos originais não fizeram por menos. A influência estrangeira indesejável se chama Pep Guardiola. Segundo Chielini, o estilo com saída trabalhada refinou a técnica dos zagueiros com a bola, mas em detrimento do combate individual. A solução subentendida seria retomar o passado de muita defesa e ataque restrito à improvisação de dois ou três. Como se não fosse isso que a seleção e a grande maioria dos clubes italianos fazem. As exceções, como Juventus (onde joga o defensor) e Napoli, são justamente as que vão longe nas Copas europeias. Talvez fossem ainda melhor se, além de mais dinheiro, tivessem defensores melhor adaptados a jogar adiantados – lacuna pela qual os zagueiros italianos, mais que pelo toque de bola, têm sido preteridos por clubes que tomam a iniciativa dos jogos.

“Ah, mas você quer que a Itália imite as outras seleções? Depois do Bang Bang à Italiana, vem aí o Tiqui-taca spaguetti?”. Não, Pietro Bó. A Alemanha modernizou seu toque de bola e seu posicionamento sem copiar a Espanha. Nem Guardiola tentou isso no Bayern. Porém, certos conceitos precisam ser adotados, com ou sem a existência do técnico espanhol, que não está sozinho nesta mudança. Com a evolução física dos atletas, é preciso posicionar os jogadores para que não fiquem espaçados demais, ou serão facilmente desarmados. Também é imperioso ter o maior número possível de jogadores que não tremam com a bola. Completando o tripé, não dá mais para pensar em zagueiro-zagueiro, volante-volante e centroavante-centroavante. Fazer um time exige as três funções, mas não como uma linha de montagem em que cada um só executa uma coisa. Nesta toada, o futebol precisaria de quinze de cada lado para funcionar. Como todos sabem, o campo já está lotado com onze.

Dito isso, a análise prática mostra que até existem defensores capacitados (incluindo Chielini) e meio-campistas para organizar o jogo italiano (como Verratti). Mas, quando se chega no ataque, o cenário é vesuviano. Tudo bem que sempre pensaram primeiro em defender, mas também tinha Riva, Rossi, Baggio, Vieri, etc… Hoje mal se consegue achar alguém do nível de um Jô. Os atacantes de apoio também são limitados. Só há um jeito de melhorar isso: pela base. Além da citada Alemanha, a Inglaterra ensaia uma nova geração que traz o bom problema de buscar espaço aos garotos nos times principais. Algo com que os italianos ainda não precisam se preocupar, vide os desempenhos pouco relevantes de suas seleções amadoras. Paralelamente, é hora de estudar meios de fortalecer economicamente os clubes, para que disputem nomes fortes do mercado europeu. Grandes jogadores inspiram. Refugos só transpiram – quando muito.

Mas talvez a principal mudança precise acontecer nos tifosi. Um amigo meu, de origem italiana e infelizmente falecido, falava que seu sonho era ver a Itália campeã empatando todos os jogos. Foi-se desta vida sem ver o dia em que sua pátria mamma ficou fora da Copa porque empatou em casa. Resta saber o que farão aqueles que ficaram para ver o vexame. Se embarcarem na onda “raiz” sugerida por Chielini, haverá mais tragédias num país acostumado a transformar ruínas em atração turística. Duro será achar interessados em pagar por um futebol em escombros.

Dedicada a Daniel Milani, o Mooca (xingando muito direto do Além)

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- possui 30 artigos no No Ângulo.

Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, não resiste a um bom debate sobre esportes, desde futebol até curling. São-paulino, é fundador e moderador do Fórum O Mais Querido (FOMQ). Não esperem ufanismos e clichês. Ele torce, mas não distorce.


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4 respostas para “Uma tetracampeã soterrada”

  1. Vicente Prado (Coluna do Leitor) Vicente disse:

    “Pietro Bó”.

    HAHAHAHA,SENSACIONAL!

  2. Jorge Mendes disse:

    Eu não lamento não, viu? Timinho feio demais!

  3. Bruno Silva disse:

    A itália sempre liberou a utilização de estrangeiros nos times, sem limite praticamente. A Inter chegou a ser campeã italiana/europeia sem nenhum italiano no time titular. Isso sempre foi apontado como prejudicial para a seleção, os times investirem em jogadores de fora e não tem atletas italianos atuando nos times grandes da Itália. Mas depois da crise, degringolou tudo. Tanto os times passaram a contratar mal (Gabigol por ex) como faltou dinheiro pra contratar e manter o nível dos times italianos diante dos demais. Com exceção da Juventus que conseguiu se estruturar um pouco melhor, o nível do campeonato Italiano tá pendendo pra um Francês/Holandês.

  4. “Grandes jogadores inspiram. Refugos só transpiram – quando muito.”. Fantástico, Gustavo Fernandes!

    E concordo inteiramente com todo o texto! Essa visão compartimentada do futebol, como da “linha de produção” que você comentou, é a coisa que mais condena a maus resultados atualmente!

    Vou falar uma coisa sem a menor base, talvez eu esteja absolutamente enganado, mas fico pensando se o triunfo da Inter contra o Barcelona em 2010 não deve ter feito o futebol italiano dobrar a aposta e ter perdido todo esse tempo até hoje se ver nesta essa crise de identidade…


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Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Redator, repórter, pauteiro e editor-assistente da editoria de Esportes da Folha. Trabalhou também na Folha da Tarde, Agora São Paulo, BOL, AOL e UOL. Paulistano, acompanha de perto o futebol desde a época em que os camisas 10 dos grandes times paulistas eram Pelé, Rivellino, Gérson/Pedro Rocha, Ademir da Guia e Dicá.

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Jornalista há 19 anos, já cobriu Copa do Mundo, NBA, Nascar, Pan, Mundial de vôlei, Copa do Mundo de ginástica, Libertadores e as principais competições do futebol nacional. Começou no A Gazeta Esportiva, passou pelo site do Milton Neves, Agência Estado, Agora São Paulo, Terra, ESPN e está na TV Gazeta. A trabalho, conheceu 8 países, 18 estados do Brasil e mais de 100 estádios.

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