Verdade inconveniente – a Copa do Mundo não é mais aquela (e não é de hoje)

Créditos da imagem: UOL Esporte

Pesquisas mostram que nunca foi tão reduzido o interesse do público brasileiro a tão poucos dias da Copa. Várias razões são procuradas. A mais aludida é a situação do país, que praticamente não vive sensação de calmaria desde o 7 a 1. Mas o Brasil já teve outras crises e nenhuma delas, nem mesmo a tensão dos anos de chumbo, desviou a atenção nas semanas anteriores ao Mundial. Copa do Mundo era prioridade. Não é mais. Talvez não apenas do brasileiro. Talvez, aos poucos, as pessoas estejam se dando conta de que, ao contrário dos Jogos Olímpicos, é uma ilusão acreditar que verão o melhor do esporte em quatro semanas. Muita coisa mudou e nem tudo fez bem à maior competição do planeta.

Com poucas exceções (incluindo o futebol), esportistas têm o apogeu planejado para as Olimpíadas. Mundiais são importantes, mas secundários. Mesmo o basquete masculino norte-americano só cogita enviar os maiores astros da NBA na disputa olímpica. Isto implica toda uma programação física para que os competidores estejam em suas melhores condições no momento das provas olímpicas. Pode-se imaginar que a Copa do Mundo causa a mesma estratégia com o futebol. Neste caso, a imaginação é realmente fantasia. É preciso ser muito desavisado para não ver que o período de preparação é, acima de tudo, um pisar em ovos torcendo para que nenhum quebre antes da Copa – sabendo que, ainda assim, alguns quebrarão durante a mesma. No lugar do famoso polimento olímpico para dar o melhor nos jogos, os jogadores da Copa farão o melhor que der – se der.

Como isso aconteceu? Essencialmente, com o inchaço do calendário europeu. Décadas atrás, era ficção científica um jogador de um clube da Europa fazer mais de cinquenta partidas no espaço de um ano. Hoje vários beiram ou atingem as setenta. Ainda jogam menos que aqui, mas em diferença muito menor. A antiga Copa dos Campeões não tinha primeira fase. Era disputada – adivinhem – apenas por campeões nacionais. Hoje consome seis datas a mais – fora o qualificatório. Com as datas FIFA e Copas locais, são raras as semanas inteiras para treinar – velha desculpa dos técnicos brasileiros. Nem mesmo os elencos maiores têm permitido poupar os principais jogadores, ante a busca por marcas e também pelos valores. O futebol inglês é o campeão do exagero. Duas Copas locais e jogos entre Natal e ano novo. O público adora. Os atletas, nem tanto.

Jogando mais que antes, com planejamento clubístico para darem a raspa do tacho nas semanas finais, grande parte dos jogadores se apresenta às seleções com os corpos bastante desgastados. Mesmo com pouco tempo até a estreia, as sessões precisam ser dosadas. Coletivos diários entre titulares e reservas, como em épocas passadas, nem pensar. Para desespero dos comentaristas histriônicos (“esse time não treina!”), folgas ocorrem com frequência. Só assim poderão aguentar as sonhadas sete partidas no intervalo de um mês. Não estarão, contudo, em suas melhores condições. Apenas nas melhores condições possíveis. Poderão fazer bons – eventualmente, ótimos – jogos, mas muito dificilmente algum entrará no top 10 de suas atuações da carreira. O torcedor, ainda que no subconsciente, vai entendendo disso.

Não é apenas a percepção que não verá os ídolos no auge que reduz o interesse. As transmissões de todos os campeonatos, por TV a cabo e internet, tiveram um efeito colateral: poucas novidades e surpresas. A Copa do Mundo costumava ser o evento em que, finalmente, os espectadores conheceriam o que cada seleção tinha a oferecer. Mesmo os mais falados eram pouco vistos, de modo que a curiosidade só seria satisfeita de quatro em quatro anos. Hoje, num ano, você pode ver Messi e Cristiano Ronaldo mais do que teria visto Maradona em toda a sua vida. O colega Émerson Figueiredo me relatou que, antes de 1974, só se conhecia Cruyff pelos jornais. Se jogasse hoje, saberíamos até seus eventuais cacoetes. Já pensaram, ainda nos anos 1990, na curiosidade por um atacante egípcio tido como craque? Agora não só conhecemos, como até entendemos a revolta mundial com sua lesão.

Sem a expectativa para ser apresentado aos grandes nomes, bem como sabendo que provavelmente não repetirão o que jogam nos clubes (agora para o delírio dos comentaristas histriônicos), a tendência é que o torcedor perca interesse Copa após Copa. A não ser que as técnicas evoluam a ponto de permitir recuperação recorde de potencial em reduzidas semanas. Existe também uma esperança para a Copa de 2022, pois esta ocorrerá no meio da temporada europeia – portanto, com os jogadores ainda na ponta dos cascos. O caminho pode – ate deve – ser esse. O certo é que, se o cenário não mudar, as novas gerações ainda pensarão “ih, lá vem aquela chata da Copa do Mundo” – para desespero dos tiozões.

6 comentários em: “Verdade inconveniente – a Copa do Mundo não é mais aquela (e não é de hoje)

  1. É desanimador, principalmente para quem viveu intensamente as outras copas (principalmente a de 70 – Tri com TV a cores).

  2. Tecnicamente você tem toda a razão, mas eu só vejo a Copa ganhando mais espaço e faturando cada vez mais!!!!! E também tem muita diferença entre o torcedor viciado em futebol, que acompanha tudo o ano inteiro, e o poder que a Copa tem de fazer os desinteressados acompanharem, e isso não deve mudar!!!!!!!!!

  3. Na Copa passada o discurso era “não vai ter Copa”, mas da semana de estréia até o jogo da Alemanha o clima foi de festa e empolgação. A partir de hoje começa a Copa e naturalmente vem junto a empolgação do brasileiro.
    Apesar dos clubes europeus investirem bilhões de dólares para monopolizar o futebol mundial, a Copa do Mundo continua sendo o torneio mais importante de todos. Ainda bem!

  4. Apesar dos clubes europeus investirem bilhões de dólares para monopolizar o futebol mundial, a Copa do Mundo continua sendo o torneio mais importante de todos. Ainda bem! (2)

  5. Nada quem gosta gosta 4em 4anos so as fera reunida oportunidades di algumas pessoas verem varios jpgadondiferente responsaa na eleicoes q ten q interese kkkkkkkkkkk

  6. O problema é que a copa atrai a atenção de muitas pessoas que não acompanham o futebol com regularidade. E como sabemos o brasileiro não gosta de futebol, mas sim de ganhar e por anos o Brasil foi tido como o melhor time do mundo só que com a globalização e a consequente abertura do mercado europeu para os jogadores principalmente no início dos anos 2000 esse intercâmbio de fez com as seleções europeias ( continente que recebe jogadores de todos os cantos do mundo) ficassem mais fortes como consequência o Brasil hoje já não é mais tão superior e para aquele torcedor de copa que so gosta de vencer isso é um problema sério.

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