W3vina.COM Free Wordpress Themes Joomla Templates Best Wordpress Themes Premium Wordpress Themes Top Best Wordpress Themes 2012

Vermelho, vermelho… Vermelhão (da Serra)

04D2156_MOV_Still020

Créditos da imagem: estadiosrs.futblog.com.br

Onde nasci, algumas pessoas falavam “encarnado” para definir a cor vermelha e confesso que gostava da palavra, me soava algo forte, profundo, visceral, em carne viva.

Assim, foi a cor da camiseta de forma emblemática e aleatória o motivo principal para eu torcer (na infância) pelo 14 de Julho de Passo Fundo, arquirrival do Gaúcho, que usava um uniforme – para mim – verde e sem graça.

E da minha casa, que ficava em uma parte elevada do terreno coroado por grandes ciprestes e araucárias plantadas por minha mãe (inexplicavelmente derrubadas com a complacência da prefeitura local) eu subia no alto de um cipreste antigo e via as arquibancadas e o estádio do 14 de Julho, onde hoje está localizada a rodoviária da cidade e ao lado do rio que nomeia a cidade. Hoje um córrego poluído, onde ensaiamos alguns banhos, temendo a forte correnteza. Adorava aquela movimentação de gente nos domingos ensolarados.

Mas futebol no interior não é para os fracos. As dificuldades são muitas e a sobrevivência dos clubes, uma loteria.

Às vezes passa, pasmem, pela fusão de antigos rivais. Segundo o historiador Marco Antônio Damian, o 14 de Julho de Passo Fundo nasceu a partir da fusão com o extinto Grêmio Esportivo em julho de 1922, quando passou a se denominar Grêmio Esportivo 14 de Julho, substituindo as camisas brancas por uma nova camisa, vermelha e branca.

Quase 60 anos depois, a história se repete e, em 10 de janeiro de 1986, foi fundado o Esporte Clube Passo Fundo, resultante da fusão dos dois clubes da cidade de Passo Fundo: o 14 de Julho e o Gaúcho.

Confesso que me incomodou esta fusão, pois como imaginar dois rivais unidos num só time? Isso em uma cidade que a rivalidade era imensa e não só no futebol.

Imagine Grêmio e Internacional transformados em um só clube, ou Palmeiras e São Paulo, Flamengo e Fluminense ou, ainda, Ponte Preta e Guarani? Acho meio esquisito, parece que existe nessa junção uma espécie de traição às nossas crenças, assim como a separação dos pais. Sei lá, uma espécie de quebra do imaginário infantil. Como ter que fazer as pazes depois de brigar feio com alguém.

O futebol como pacificador é tema de pesquisa do médico psiquiatra, escritor e cineasta passo-fundense Jorge Alberto Salton, filho do patrono do S.C. Gaúcho, Wolmar Salton, nome do principal estádio da região. Ele buscou na história fatos para discutir o futebol, os homens e as suas rivalidades.

“O que fez Passo Fundo depois de ser dividida ao meio pela maior guerra civil do Brasil? A metade era Federalista, os maragatos, liderados por Prestes Guimarães. A outra metade, Republicana, os chimangos, liderados por Gervásio Annes (bisavô de Jorge Salton). A metade com as cores verde e branca dos Republicanos, a outra metade com as cores vermelhas dos Federalistas, com o famoso lenço vermelho. O que fazer com o ódio acumulado? Com o desejo de vingança? A cidade era pequena, pisava-se os mesmos lugares, o mesmo cemitério. Gervásio Annes e Prestes Guimarães, estão enterrados a dez passos um do outro no Cemitério da Vera Cruz”, alega.

Os fatos por ele coletados foram revelando a forma discreta como nossos (e me incluo nessa) antepassados lidaram no pós-conflito e o papel que o futebol desempenhou. Não se falava na revolução de 93. Porém, de forma indireta e sutil, procuravam civilizar as disputas dela herdadas, diz o pesquisador.

Jorge lembra que um grupo de pessoas funda o S.C. Gaúcho, curiosamente com as cores verde e branca dos Republicanos e, em 1922, um grupo de pessoas funda o 14 de Julho, curiosamente com a cor vermelha dos Federalistas: “e a cidade passou quase cem anos sem falar na guerra civil. Nossos bisavós, avós e pais não falavam no assunto. Nas escolas não se falava em Republicanos e em Federalistas. Mas se falava o tempo todo no Gaúcho e no 14 de Julho. Durante todo esse tempo em que a cidade não falou no lenço vermelho e no lenço verde e branco, ela falou, falou e falou no Gaúcho e no 14 de Julho. Na bandeira vermelha do 14, na bandeira verde do Gaúcho”.

Ele prossegue: “as disputas eram acirradíssimas. A cidade se dividiu entre esses dois clubes, todos participavam dos intermináveis debates e enchiam os estádios. Os homens da guerra civil saíram de cena e deram lugar aos homens do futebol. O homem do futebol é a continuação atenuada do homem da revolução das degolas. Gaúcho e 14, verdes e vermelhos, continuaram a ser depositários de nossos demônios. Sartre dizia: ´os demônios são os outros´. Enquanto existiram as disputas acirradíssimas entre nossos dois clubes, nossa cidade vivia uma rivalidade mais intensa do que a de Grêmio e Inter”.

Quando o 14 de Julho terminou, enfatiza, a disputa terminou, o futebol de Passo Fundo esfriou. Prova de que sua pujança e sua força não eram motivadas apenas pelo espetáculo esportivo, havia outra função bem mais profunda. Sabíamos onde estavam os demônios. Para alguns, os demônios eram verdes e estavam lá no estádio da montanha. Para outros, os demônios eram vermelhos e se alojavam onde hoje é a rodoviária, no Estádio Celso Fiori.

No futebol, finaliza Jorge Alberto Salton, ensaiamos a vida, treinamos a vida. Aprendemos a tolerar as frustrações nas sofridas derrotas. Ele conduz nossos bons sonhos adolescentes. E, acima de tudo, ajuda a organizar nossas disputas sociais.

E não esqueçamos que o futebol também nos ensina a viver as alegrias desta vida como devem ser vividas: com urras e foguetórios.

E com esse belo histórico feito pelo meu primo Jorge Alberto Salton, finalizo esse artigo.

A demissão de Aguirre no Inter - “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”
Futebol: amor de pai para filho

Escrito por:

- possui 27 artigos no No Ângulo.

Jornalista formada pela PUC-RS, essa gaúcha nascida em Passo Fundo e residente em Porto Alegre é especialista em Meio Ambiente, tem interesse por política e gosta de transitar e dar os seus pitacos sobre diferentes temas. Uma romântica do futebol, busca analisar as sutilezas do esporte bretão.

Entre em contato com o Autor

9 respostas para “Vermelho, vermelho… Vermelhão (da Serra)”

  1. Lena Annes disse:

    Olha Jorge Alberto Salton, Carlos Firmbach Annes

  2. Lena Annes disse:

    Lembra dessa época Marco Weissheimer?

    • Claro que sim, Lena Annes. Me criei no Vermelhão da Serra. Eu não sabia dessa relação entre a origem de Gaúcho e 14 de Julho e a guerra entre maragatos e chimangos. Grande história esta.

  3. Vicente Prado (Coluna do Leitor) Vicente disse:

    “No futebol, finaliza Jorge Alberto Salton, ensaiamos a vida, treinamos a vida. Aprendemos a tolerar as frustrações nas sofridas derrotas. Ele conduz nossos bons sonhos adolescentes. E, acima de tudo, ajuda a organizar nossas disputas sociais.

    E não esqueçamos que o futebol também nos ensina a viver as alegrias desta vida como devem ser vividas: com urras e foguetórios”.

    Muito bom! 😉

  4. Lena Annes disse:

    Olha Angela Fragomeni


Deixe um comentário

Enquete

Qual o maior técnico brasileiro dos últimos tempos?

Ver resultados

Carregando ... Carregando ...

Colunistas

Gabriel RosteyGabriel Rostey

Nascido dias após a seleção de Telê encantar o mundo e não levar o caneco na Copa da Espanha, esse paulistano atua e segue aprofundando estudos nas suas principais paixões: futebol e cidades. Especialista em gestão do esporte, como jornalista também encara o futebol como fenômeno cultural.

Emerson FigueiredoEmerson Figueiredo

Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Redator, repórter, pauteiro e editor-assistente da editoria de Esportes da Folha. Trabalhou também na Folha da Tarde, Agora São Paulo, BOL, AOL e UOL. Paulistano, acompanha de perto o futebol desde a época em que os camisas 10 dos grandes times paulistas eram Pelé, Rivellino, Gérson/Pedro Rocha, Ademir da Guia e Dicá.

José Maria de AquinoJosé Maria de Aquino

Em seus mais de cinquenta anos de carreira, teve passagem marcante pelos principais veículos de comunicação do país, de todos os tipos de mídia, como Rede Globo, SporTV, Revista Placar, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Portal Terra. Além de um expoente do jornalismo esportivo brasileiro, também é advogado de formação.

Gustavo FernandesGustavo Fernandes

Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, não resiste a um bom debate sobre esportes, desde futebol até curling. São-paulino, é fundador e moderador do Fórum O Mais Querido (FOMQ). Não esperem ufanismos e clichês. Ele torce, mas não distorce.

Jorge FreitasJorge Freitas

“Prata da casa” oriundo da Coluna do Leitor, este internacionalista é tão louco por futebol que tratou do tema até em seu TCC. Mestrando em Análise e Planejamento em Políticas Públicas, neste espaço une o gosto por escrever com a paixão pelo esporte mais popular do mundo.

Fernando PradoFernando Prado

Natural de Brasília, mas residente em São Paulo desde que se conhece por gente, é um apaixonado por esportes e pela “sétima arte”. Jornalista e advogado, busca tratar o futebol com a descontração que lhe é peculiar, com o compromisso da boa informação e opinião consistente.

Fernando GaviniFernando Gavini

Jornalista há 19 anos, já cobriu Copa do Mundo, NBA, Nascar, Pan, Mundial de vôlei, Copa do Mundo de ginástica, Libertadores e as principais competições do futebol nacional. Começou no A Gazeta Esportiva, passou pelo site do Milton Neves, Agência Estado, Agora São Paulo, Terra, ESPN e está na TV Gazeta. A trabalho, conheceu 8 países, 18 estados do Brasil e mais de 100 estádios.

Assinatura por e-mail

Arquivos

©2017 No Ângulo - Todos os direitos reservados