A janela de negociações europeia e os impactos no Fair Play Financeiro na pandemia

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Quando a pandemia atingiu o futebol houve uma tentativa de se avaliar os diversos problemas que os clubes enfrentariam a partir daquela nova e inusitada situação. Algumas das previsões foram corretas, outras nem tanto.

Quem imaginou que os clubes teriam problemas com as receitas acertou. Perderam a bilheteria – famoso “matchday” para os europeus – tiveram redução de receitas publicitárias e algumas renegociações de direitos de TV, ainda que em grau menor do que se apontava inicialmente. Inclusive, os problemas com direitos de TV serão mais sentidos a partir de agora, pois em vários países começam as conversas para renegociações com redução de valores. No Brasil a Globo já abriu mão da Libertadores, a DAZN da Sulamericana. Na Inglaterra a Premier League sofreu um baque com o atraso de pagamentos de seu maior contrato – empresa chinesa de streaming PPTV – que pode gerar a quebra de um acordo de mais de € 600 milhões.

O presidente da ECA (Associação Europeia de Clubes) apontou numa reunião anual hoje que o futebol deve perder até € 4 bilhões nos próximos 2 anos, sendo grande parte relacionada à redução nos valores de direitos de TV, em renegociação forçada pela pandemia.

Na parte dos custos vimos brasileiros com dificuldade em postergar pagamentos de salários – difícil para alguns postergar o que já não é pago – mas outros conseguiram acordos que reduziram o impacto da falta de receitas, Na Europa esses acordos foram mais naturais.

Agora, em relação à janela de transferências o desempenho efetivo foi melhor do que esperávamos. Muita gente – inclusive este que vos escreve – acreditava que teríamos uma janela menos aquecida. Engano. Meio engano, na verdade.

A retomada do futebol pós-quarentena reacendeu a chama da competição e os clubes já iniciaram um processo acelerado de negociações. Várias à base de troca – a famosa “troca com troco” – que servem para reformular elencos mas também para gerar lucro que ajuda no atingimento do Fair Play Financeiro. Outras são meras confirmações de negociações iniciadas em 2019 no formato “empréstimos com cláusula de compra”.

É importante ressaltar que não vemos valores astronômicos, mas a quantidade de movimentações é grande. Ou seja, de fato houve um arrefecimento das negociações em relação a anos anteriores, mas menos sensíveis do que eu esperava.

Veja a lista dos maiores até agora, segundo dados do site Transfermarkt:

ATLETA NOVO CLUBE VALOR
Arthur Juventus € 72 MM
Osinhem Napoli € 70 MM
Pjanic Barcelona € 60 MM
Morata Atlético Madrid € 56 MM
Werner Chelsea € 53 MM
Chilvell Chelsea € 50,2 MM
Icardi PSG € 50 MM
Aké Manchester City € 45,3 MM
Sané Bayern € 45 MM
Hakimi Inter Milão € 40 MM
Ziyech Chelsea € 40 MM
Van de Beek Manchester United € 39 MM
Lo Celso Tottenham € 32 MM
David Lillie € 32 MM
Trincão Barcelona € 31 MM
Rodrigo Leeds € 30 MM
Bellingahm Borussia Dortmund € 26,5 MM
Gabriel Magalhães Arsenal € 26 MM
Barella Inter Milão € 25 MM
Emre Can Borussia Dortmund € 25 MM

Alguns, como Icardi, Lo Celso, Can, Barella e Morata já estavam nos clubes que os contrataram, mas por empréstimo. É uma estratégia dos europeus para driblaram as restrições do Fair Play Financeiro. Pagam um valor baixo pelo empréstimo e incluem uma cláusula de “compra futura” caso o atleta atinja alguns índices de performance, que são facilmente atingíveis. Daí empurram a confirmação da compra para o ano seguinte.

Outra estratégia usada pelos europeus é a da troca. Além de não envolver dinheiro ela garante lucro na transação, que é importante na composição da medida de lucro que é monitorada pelo Fair Play Financeiro da UEFA.

Relembrando:

  • Quando um atleta é contratado por € 100, seu valor é registrado no ativo e amortizado ao longo do contrato (por suposição, 5 anos de contrato significa € 20 anuais) que entram no demonstrativo de resultados como “custo/despesa”;
  • Depois de 3 anos, o valor de registro do atleta, originalmente € 100, passa a ser de € 40 (afinal, foram amortizados € 20 anualmente, o que dá € 60);
  • No terceiro ano o atleta é vendido por € 60. Como tem € 40 registrado no ativo, o clube tem um “lucro” de € 20 (entram € 60 como receitas e saem € 40 como baixa de ativo);

Inclusive, é esta uma das lógicas que os clubes usam para fazer suas negociações. Afinal, é melhor vender antes do final do contrato e gerar lucro que ter o atleta mais um ano em campo. Quando o atleta é muito importante as renegociações contratuais acontecem bem antes do encerramento do contrato, para garantir uma extensão importante.

Muita gente pergunta também como é que os clubes fazem para atender as regras do Fair Play Financeiro com tantas contratações. Vamos então a alguns pontos:

  1. Fair Play Financeiro controla 3 coisas basicamente: (i) Custos compatíveis com as Receitas, (ii) Dívidas compatíveis com a capacidade de pagamento; (iii) controle do dinheiro que vem de fora do sistema (controladores e mecenas);
  2. Os Investimentos são controlados a partir de uma conta simples: a diferença entre Contratações e Vendas não pode ser superior a € 100 milhões. Se for o clube deve apresentar garantia bancária de que honrará os pagamentos e será investigado pela entidade para saber se há efetivamente capacidade de pagamento;
  3. Geralmente os torcedores e imprensa olham apenas as contratações, mas como os elencos são grandes há muitas vendas que ajudam a compor o resultado;
  4. O que impacta a vida dos clubes são os custos salariais, que ocorrerão ao longo da vida do contrato. Mas para esses há receitas recorrentes, vendas de atletas, e expectativas de novas receitas. Assim, os ajustes são feitos ao longo do tempo;
  5. Os clubes podem ter até € 30 milhões de prejuízo, desde que sejam cobertos por aporte de capital dos acionistas. Ou seja, há uma flexibilidade na conta;

Além de tudo isso, na atual temporada a UEFA flexibilizou uma série de regras do Fair Play Financeiro por conta da pandemia. As mudanças são:

  1. Primeiramente os clubes precisam comprovar que estão com todos os pagamentos em dia;
  2. Clubes precisarão apresentar relação de contas a pagar e contas a receber entre clubes, para que a entidade faça o “match” das informações e comprove que está tudo em ordem;
  3. Os controles serão postergados da temporada 2019/2020 para a 2020/2021;
  4. Em 2021/2022 os dados analisados levarão em consideração a soma de 4 temporadas (usualmente são 3), de forma a reduzir os efeitos da temporada 19/20;
  5. Os anos de 2020 e 2021 serão analisados individualmente, excluindo impactos gerados pela pandemia;

Dessa forma os clubes passaram a ter maior tranquilidade para reorganizar suas estruturas financeiras. Os clubes conseguem espaço para negociações e reforços, ou mesmo para se reequilibrarem. Afinal, em breve retornarão as restrições, e quem não aproveitou a oportunidade para se reorganizar poderá ter más notícias no futuro.

Três exemplos de realidades diferentes:

Chelsea: o clube inglês tinha sido punido na temporada passada por questões relacionadas a negociações de atletas Sub-19 e ficou sem poder contratar atletas em 2019/2020. Resultado: além de reduzir custos pode revelar alguns jovens, Agora, mais leve em termos de custos pode ser o grande contratante da temporada, reforçando o clube a partir de uma base já renovada.

Juventus: o clube deve apresentar novo prejuízo em 19/20, e por isso já iniciou uma forte reestruturação de elenco. Além da operação Pjanic/Arthur com o Barcelona – que gerou lucro e reduziu a folha salarial – o clube confirmou a venda de Emre Can e não renovou contrato com Mandzhukic, Higuaín e Matuidi. O clube também trocou um treinador caro (Sarri) por um mais barato (Pirlo). Ou seja, vai usar a próxima temporada para equilibrar as contas.

Liverpool: será mais uma temporada de poucas aquisições. Além das perdas originadas pela pandemia, o clube foi eliminado precocemente da Champions League, o que significa perder alguns milhões de euros de receitas, e ainda tem muitas contas a pagar pelas aquisições de 2018/2019. Mesmo nomes importantes como Thiago Alcântara podem ser deixados de lado por restrições orçamentárias. É a gestão que precisa ser eficiente dentro e fora de campo.

Em algum momento teremos essas preocupações no Brasil. Espero que seja em breve, pois os clubes brasileiros precisam se equilibrar para voltar a ter capacidade competitiva contínua, e não viver nos altos e baixos financeiros, nem da necessidade desesperada de vender atletas para fechar contas que insistem em viver no vermelho.

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