A perspectiva argentina para brasileiros: saiba tudo sobre o River e a final com 50% de chances para cada

Créditos da imagem: Reprodução / Esporte Interativo

Escrito por Fernando Battaglia, jornalista argentino, especialmente para o público brasileiro do No Ângulo

O que o River vive desde 2014 é um processo, capitaneado por Marcelo Gallardo e muito vitorioso, especialmente em nível internacional. Ainda com a mudança constante de jogadores por vendas a Europa, alcançou-se que toda a equipe, com os naturais altos e baixos, funciona à perfeição. É claro que há jogadores melhores do que outros, cuja presença é necessária, mas, acima de tudo, é uma EQUIPE de futebol, independentemente das individualidades.

Gallardo é de fato um líder, muito inteligente, um verdadeiro estrategista. Sabe analisar muito bem o rival e explorar seus pontos fracos. Não só o vitorioso treinador, como também seu auxiliar, Matías Biscay, e seu segundo auxiliar, Hernán Buján, formam um grupo muito sólido de trabalho, que sabe fazer a mensagem chegar claramente aos jogadores. Como exemplo, o “Muñeco” esteve ausente do banco de reservas nas duas últimas finais disputadas: a equipe foi comandada por Biscay e os resultados comprovaram claramente que os jogadores os respeitam e compreendem à perfeição o que quer o corpo técnico.

Penso que esta final é realmente 50% para cada um. Vi alguns compactos de partidas do Flamengo, o confronto contra o Grêmio ao vivo e sei que está invicto há quase quatro meses. Não tenho dúvidas de que a equipe rubro-negra individualmente é melhor, que tem um jogo coletivo superior, mas creio que nestas instâncias internacionais o River é favorecido por saber jogar esse tipo de partida. Esse River tem algo como teve o Boca dos começo dos anos 2000, essa sensação “copeira”, de que internacionalmente sabe enfrentar esses jogos decisivos. Para além das individualidades, creio que a equipe argentina é superior mentalmente. O Flamengo pode estar invicto em âmbito local, mas, independentemente do caminho que teve na Libertadores, este momento é diferente, especialmente contra uma equipe argentina que está acostumada a esse tipo de partida, e delas sair vitoriosa. Este é um ponto a favor do River.

Algo que também joga contra o Flamengo é que parece haver no Brasil um “exitismo”, um desejo muito grande pela vitória flamenguista. Vejo os jornais e portais brasileiros, e parece que o time da Gávea já ganhou. Até o presidente Bolsonaro fez declarações sobre isso. Vê-se fotos, tatuagens e camisetas alusivas ao “bicampeonato da América”. Isso tudo pode jogar contra a equipe carioca e a favor do River. Gallardo sabe utilizar tudo o que o Rival faz para que seus comandados vejam, e para os millonários é muito positivo que o Flamengo se creia superior. Não sabemos se é da boca para fora, mas caso o Flamengo já se creia ganhador, pode ter muitas dificuldades para lidar com esta pressão se o River sair na frente. Ainda mais porque o atual campeão da América realmente sabe jogar este tipo de finais.

Por outro lado, a favor do Flamengo, é que ele parecem seguir em crescimento. Não se sabe ainda quais são seus limites e até onde podem chegar. Já o River está em um platô: o melhor da equipe já passou, e agora segue em uma linha reta, enquanto o Flamengo sobe. O momento flamenguista é melhor.

Para mim, o time de Nuñez tem o melhor goleiro das Américas, Franco Armani, que seguramente é o melhor goleiro da Argentina. É um goleiraço! Na lateral-esquerda está Milton Casco, um jogador que sofria muita resistência da torcida, passou quatro anos no clube com muitos altos e baixos emocionais e a cada fim de temporada esteve a ponto de ser vendido; mas faz um ano que se transformou e vive um ótimo momento: baixinho e de muita força física, defende e se projeta muito bem. Os centrais são Javier Pinola, 36 anos, jogou muitos anos na Alemanha, forte, inteligente e de bom jogo aéreo; seu companheiro é o jovem Martínez Quarta, de 23 anos, de muito futuro, bom jogo aéreo, mas que peca por excesso de confiança: é bom com a bola nos pés -sabe disso- e por isso muitas vezes tenta sair jogando mesmo quando não deveria, o que rende algumas trapalhadas. O lateral-direito é Gonzalo Montiel, de origem defensiva, bastante limitado: não sabe atacar e é o ponto mais fraco da defesa.

No meio, o volante central é Enzo Pérez, ex-seleção Argentina, que jogou muitos anos na Europa (tendo sido inclusive treinado por Jorge Jesus, no Benfica). É o motor da equipe, é muito inteligente, tem uma excelente visão de jogo, passe simples e efetivo, recupera muitas bolas e tem uma grande precisão. Se Enzo Pérez não estiver em uma boa tarde, River não poderá fazer seu jogo (e o ponto preocupante é que ultimamente não está em suas melhores condições físicas, com seguidos problemas nos ombros, adutores etc). Não se sabe exatamente quem jogará pelo lado direito ou esquerdo, mas em um deles estará Ignacio Fernández, o “Nacho”, meio-campista alto, magro, de excelente e imparável movimentação e bom tiro de fora da área. Pelo outro lado estará Nicolás de La Cruz, uruguaio de 21 anos (e irmão do santista Carlos Sánchez), que também sofria muita resistência da torcida – outro caso parecido ao de Milton Casco; frágil fisicamente, mas muito ágil, rápido e extremamente irregular: uma partida muito boa, duas más, uma boa, cinco ruins, uma excelente… apesar de ter boa técnica, não me agrada e não parece estar à altura da camisa do River. E quem finaliza o meio-campo é outro jovem, Exequiel Palacios, muito boa promessa, que, de  acordo com as notícias, interessava ao Real Madrid, mas rompeu os ligamentos e agora ainda está retornando. Tem boa ida e volta, bom arremate de fora da área e inteligência para acionar os companheiros, mas depois da lesão ainda não voltou a ser o que era.

No ataque, o River tem muitas opções. Hoje o titular indiscutível é o jovem colombiano Rafael Santos Borré, bastante rápido, bom chute, mas um pouco distraído, costuma ficar muito em impedimento. Seu companheiro varia: uma das opções é Lucas Pratto, de muita força física, mas que justamente neste ponto não vem bem, um pouco lento, pesado. Por isso, apesar de sua importância coletiva, com um bom trabalho de pivô e movimentação, perdeu espaço e dará lugar a Matías Suárez, um atacante interessante, que passou muito tempo na Bélgica, tem muita técnica e gol. Outra opção -que não deve jogar- é Ignacio Scocco, um bom goleador, de 34 anos, que apesar da boa técnica, também apresenta muitos problemas físicos.

Para este tipo de partida, às vezes Gallardo apresenta alternativas na formação da equipe. Não seria surpreendente se em algum momento abandonasse os dois atacantes, visto que, em mais de uma ocasião contra o Boca, jogou com só um ponta e cinco defensores. Outra opção seria povoar mais o meio-campo para roubar a bola e apelar ao rápido contra-ataque.

As características principais do River são marcação pressão alta, bom trato de bola e sobretudo a mentalidade totalmente vencedora, transmitida desde Gallardo até seus dirigidos com uma clareza assombrosa.

Pró-River, temos o caráter vencedor e a experiência em torneios internacionais (enquanto os rubro-negros são inexperientes nesse tipo de competição). Os millonários vêm acostumados a ganhar e sabem jogar essas partidas. A favor do Flamengo, a técnica individual, o peso de jogadores como Filipe Luís e Rafinha, e a capacidade goleadores da dupla Bruno Henrique-Gabigol (justo quando River vive um momento de nível futebolístico um pouco mais baixo). Por isso insisto que veremos uma final com realmente 50% de chances para cada um.

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